Estamos caminhando para algum lugar? O sentido e a predição em biologia evolutiva

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A biodiversidade é um assunto que atrai bastante o interesse de seres humanos desde épocas muito anteriores, e já mesmo houve um tempo em nossa história, onde a natureza era tida como perfeita, imutável e concebida para o bem viver dos homens. Através das décadas e da construção de conhecimentos sobre o mundo ao nosso redor, no entanto, essas ideias foram sendo gradualmente corroídas e desmontadas. Um dos mais famosos golpes contra a fixidez na visão do mundo natural é visto nas ideias de Charles Darwin (1809-1882), onde temos a evolução (a mudança) como algo indissociável da história da vida no planeta. Desde a época dos naturalistas, contudo, onde Darwin se enquadrou, a teoria evolutiva foi modificada e expandida. Durante a década de 1930, quando levada de encontro aos conhecimentos de Genética pelas mãos de vários pesquisadores, dos quais se destacam o americano Sewall Wright e os britânicos Ronald Fisher e John Haldane, ocasionou no que conhecemos pela moderna teoria evolutiva, ou teoria sintética da evolução, mais precisamente falando. Tal teoria nos oferece importantes perspectivas a respeito do processo evolutivo, sendo uma delas o importantíssimo, e, de certo instigante papel do acaso na evolução biológica, que será tratado a seguir.

O papel do acaso

Para melhor ilustrar a relevância do acaso, considere agora uma pequena população hipotética de quatro indivíduos onde apenas alguns genes (também quatro) são de nosso interesse. Em um primeiro momento temos estabelecido o quadro onde os genes de cada indivíduo aparecem na população em igual frequência. Continuemos nosso experimento mental, levando em conta que os diferentes elementos da população se reproduzirão, e isso será feito com mais ou menos sucesso a depender de sua sorte em, por exemplo, encontrar alimento para se manter ou mesmo encontrar um parceiro com quem reproduzir. Poderemos perceber que a proporção dos genes na população, antes igualitária, mudou apenas pelo fator sorte, isto é, pela ação do acaso. Essa oscilação nas frequências gênicas, ao longo das gerações, é conhecida como deriva genética – uma das forças evolutivas. Que tal agora reiniciar o experimento em sua mente? É certo dizer que rebobinando todo o processo e então recomeçando, as frequências gênicas não oscilarão da mesma forma com o decorrer do tempo e, caso o experimento fosse interrompido, sua resultante final também seria diferente.

Mutação

Supondo agora que cada um dos quatro indivíduos da população possua uma cor diferente, do vermelho ao branco, por exemplo, e que essa diferença de cores seja determinada pelo gene C. Entretanto, um quinto indivíduo, azul com listras, surge a partir do cruzamento de dois elementos (normais) da população. A pergunta sobre a origem de diferentes cores é quase obrigatória, pois é impossível, à primeira vista, nascer um indivíduo azul com listras onde só existiam vermelhos, rosados e brancos cruzando entre si. Isto é, como surgem novas cores nos indivíduos? Essa pergunta é respondida pela existência de outra força aleatória na evolução, a mutação – certamente mais familiar aos ouvidos da maioria das pessoas, justamente por ser bastante recorrente em histórias de ficção, ou ainda sendo alvo de exageros mídia afora. Ou seja, mesmo que os indivíduos possam misturar suas características, novas cores não derivadas da mistura podem vir a aparecer na população, pela mutação do gene C, que, por sua vez passa a expressar uma cor nova, antes inexistente na população. Esta novidade evolutiva (a nova cor) poderá se misturar com as demais e gerar resultados também novos, conforme os indivíduos cruzam entre si. Apesar disso, mutações nem sempre causam mudanças radicais na aparência ou no funcionamento dos seres vivos. Por vezes, elas podem ser silenciosas, ocorrer em genes que não expressam nenhuma característica, os chamados introns, ou ainda serem maléficas aos indivíduos (é como “pegar algo que funciona e estragar”). Considerando tal fato, como ainda pensar que o processo evolutivo tende ao perfeito?

Circulando por sites diversos, ou mesmo em revistas, que se propõem a divulgar assuntos científicos, títulos curiosos do tipo “Darwin explica como seremos no futuro”, ou semelhantes, podem ser vistos. Certas vezes associando mudanças físicas inusitadas, e um tanto chocantes, ao uso de novas tecnologias como o celular e o computador, que seriam então assumidas como suficientes para modular a evolução humana. Como prever, no entanto, quais mudanças ocorrerão levando em conta as inúmeras possibilidades advindas do acaso? Não existem meios de antever a história evolutiva de um grupo de organismos ou a forma com que o processo evolutivo discorrerá, justamente graças ao fator aleatório intrínseco do mesmo. Repita o experimento mental proposto quantas vezes desejar, o resultado não será o mesmo! O mesmo é válido para toda a história evolutiva que permeia todas as formas de vida do planeta Terra. “Rebobine a fita”, como diria Stephen Jay Gould (1941-2002), e imagine todo o processo ocorrendo novamente. Nada será igual.

Seleção natural

Pode parecer até então que a famosa seleção natural, algumas vezes lembrada por alguns, erroneamente, como sendo a evolução em si mesma, foi deixada de lado, mas sua influência otimiza e facilita o processo evolutivo, mesmo que sua existência não seja estritamente necessária para a evolução. É inusitado, mas o acaso por si só é capaz de gerar evolução. A seleção natural é uma força oportunista, determinística (não aleatória) e não-criativa, pois a origem da diversidade, as diferenças de cada indivíduo, tem sua origem a partir dos eventos de mutação. Ela pode ser traduzida como “sobrevivência diferencial”, onde então os indivíduos melhor adequados à demanda ambiental corrente seriam os selecionados.

Nosso novo indivíduo azul com listras da população hipotética de parágrafos anteriores, por exemplo, pode muito bem agradar as fêmeas do seu grupo e ser bem-sucedido reprodutivamente ao conseguir transmitir suas características a herdeiros, como também ser completamente frustrado caso sua aparência distinta não seja desejável ou ainda a cor azul seja apenas uma face das mudanças e existam efeitos secundários como, por exemplo, uma perda de vigor muscular, um caractere desvantajoso, porventura impedindo seu gene mutante de ser transmitido às gerações futuras. Mesmo que nossa criatura azul seja adorada pelo sexo oposto e, a priori, possa ser muito bem-sucedida, o que dizer, caso ela morra frente a uma doença e sua característica mutante seja perdida? A deriva genética ataca novamente!

Ou seja, mesmo populações de espécies adaptadas a um determinado meio podem sucumbir e serem substituídas por outra espécie, talvez, inclusive, menos apta a sobreviver no ambiente em questão, pela ação do acaso. Desastres naturais, como bem sabemos, não são raros. Ao considerar que o processo evolutivo é guiado por forças impessoais e cegas (deriva, mutação e seleção natural, como discutimos até então), a ideia da existência de um planejamento para o mesmo torna-se inconcebível.

Considerações finais

A despeito de a moderna teoria evolutiva ser um assunto técnico, ela transpassa a academia e o ambiente científico, atingindo com frequência meios de comunicação de amplo espectro, como a televisão e a internet.  De maneira geral, apesar desse ponto positivo, predomina no imaginário popular que evoluir significa melhorar e progredir em direção ao perfeito, por vezes de forma sutil. A própria palavra “evoluir” carrega em seu sentido coloquial alguma conotação de progresso e melhoramento. Evoluir em biologia, muito embora, não signifique melhorar, e sim apenas mudar. Não existem espécies piores ou melhores, sequer perfeitas. Independentemente de qual ser é comparado a qual outro, podemos dizer apenas que existem espécies mais ou menos adaptadas a uma situação ambiental específica, e não mais ou menos “evoluídas”. Caso as demandas ambientais sejam alteradas, por um processo de natureza climática, por exemplo, o quadro pode mudar de feição completamente, e um organismo antes bem-sucedido pode vir a ser extinto. Devemos, portanto, evitar atribuir valores a um processo que é, por definição, impessoal e cego. De fato, para gerar toda a atual biodiversidade, o processo evolutivo dependeu, além de um tempo inegavelmente longo, também de várias extinções, algumas que varreram o planeta ao eliminar 60% dos grupos de seres vivos, no caso da extinção em massa do Cretáceo-Paleógeno, famosa por marcar o desaparecimento dos grandes dinossauros.

Theodosius Dobzhansky (1900-1975) traduziu com maestria a relevância da evolução ao dizer “Nada faz sentido em biologia exceto à luz da evolução”. Sendo um tópico científico central, é algo que deve se tornar cada vez mais familiar ao público, de modo que a existente resistência, ou desentendimentos em relação ao conjunto de ideias abrigadas pela evolução, sejam gradualmente desmontados, dado que vivemos uma época onde há uma crescente onda de tentativas de desmerecimento da teoria evolutiva, fundamentalmente sustentadas em compreensões muito distorcidas, falácias e em pró de ideias criacionistas e pseudocientíficas.

Leituras recomendadas:

  • DAWKINS, Richard. O Relojoeiro Cego.
  • DENNETT, Daniel. A Ideia Perigosa de Darwin.
  • GOULD, Stephen Jay. Darwin e os grandes enigmas da vida.
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