Este antigo império peruano colocava alucinógenos na cerveja por razões políticas

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Ilustração de um deus dos cajados Huari com vagens de sementes da árvore de vilca. Crédito: J. Ochatoma Paravicino.

Por Carly Cassella
Publicado na ScienceAlert

O antigo império Huari do Peru pode ter usado cerveja alucinógena para reunir apoio em novos territórios.

Os restos de um grande banquete, encontrado em um posto militar Huari do século IX d.C., sugerem fortemente que as sementes de uma planta psicoativa chamada vilca (Anadenanthera colubrina) já foram misturadas com chicha, uma cerveja feita do fruto de uma pimenta peruana (Schinus molle) para criar uma bebida bastante… especial.

A bebida provavelmente teria desencadeado um estado psicodélico e de leveza entre os convidados, que os arqueólogos suspeitam incluir plebeus da região.

É improvável que essa distribuição igualitária de alucinógenos tenha sido o caso em períodos pré-colombianos mais antigos, com a elite mantendo substâncias psicoativas como meio de se identificar com uma autoridade mais espiritual.

No período do ‘Horizonte Tardio’ do império Wari, as substâncias psicotrópicas não eram mais usadas para identificar uma elite política. Isso significa que, em algum momento, os alucinógenos cruzaram uma divisão de classe significativa.

Os autores deste novo estudo especulam sobre uma possível razão: combinando um alucinógeno com álcool, os líderes Huari podem ter estado tentando conquistar seus novos súditos na região de Quilcacampa.

As sementes de vilca encontradas aqui, no sul do Peru, eram recursos preciosos na época dos Huari, encontrados em árvores que cresciam a 400 quilômetros de distância, nas profundezas das montanhas. Como tal, essas sementes estavam principalmente disponíveis para líderes políticos ou religiosos, que tinham os meios para ordenar expedições de colheita.

Os pesquisadores apontam que, à medida que o império Huari se expandia, sua arquitetura incluía cada vez mais espaços de festa que enfatizavam a hospitalidade dos anfitriões.

Enquanto uma cerveja potente feita a partir dos grãos de pimenta (também conhecida como aroeira salsa) foi mostrada no menu, a adição de vilca foi apenas especulada. Ao mapear a distribuição de amostras botânicas de aroeira salsa e vilca, a equipe conseguiu construir um argumento mais forte para o uso de vilca além das fronteiras sociais tradicionais.

Compartilhar a substância psicodélica teria sido uma decisão calculada da parte deles. Os sentimentos espirituais e comunitários induzidos pela bebida podem ter sido usados ​​para difundir uma nova ordem religiosa ou criar um senso de coesão.

“A experiência, no entanto, não pôde ser retribuída pelos convidados, que não tinham acesso às sementes de vilca importadas e conhecimento de como a bebida era preparada”, escreveram os autores.

Assim, as sementes de vilca podem ter sido uma poderosa ferramenta de persuasão, garantindo a influência do império Huari à medida que se expandia para novas terras.

Sementes de vilca de Quilcacampa. Crédito: M. Biwer.

Em vez de triturar as sementes e cheirá-las (o método preferido de ingestão das elites Huari), os arqueólogos acham que os plebeus recebiam as sementes da chicha, que supostamente contém compostos que poderiam ter aumentado os efeitos psicotrópicos.

Alguns potes de cerveja em outros sítios arqueológicos Huari no Peru são de fato ilustrados com faavas de vilca, o que sugere que essa era uma prática comum em outras partes do império também.

Mais tarde, quando o Império Inca entrou em cena por volta de 1450 d.C., as sementes de vilca parecem ter caído em desuso como ferramenta política, embora tenham continuado a ser fumadas na região por um milênio. Mas a cerveja ficou por perto.

Evidências arqueológicas sugerem que os líderes incas organizavam festas com muita chicha para dar uma sensação de alegria da comunidade. Talvez eles estivessem seguindo uma estratégia diferente do império Huari, que começou a se deteriorar por volta de 800 d.C.

Por mais que tentassem, parece que nenhuma quantidade de sementes de vilca poderia salvar a civilização.

O estudo foi publicado na Antiquity.