Este pode ser o fragmento mais antigo de humanos modernos na Europa, ou algo ainda mais raro

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O maxilar de Banyoles. (Créditos: Grün et al., J. Hum. Evol., 2006)

Traduzido por Julio Batista
Original de Michelle Starr para o ScienceAlert

Uma mandíbula antiga que se pensava ter pertencido a um Neandertal pode forçar uma reavaliação da história dos humanos modernos na Europa.

Uma nova análise da mandíbula quebrada revela que ela não tem nada em comum com outros restos de neandertais. Em vez disso, poderia pertencer a um Homo sapiens – e, como é datado entre 45.000 e 66.000 anos atrás, pode ser a mais antiga parte conhecida da anatomia de nossa espécie no continente europeu.

O próprio osso foi encontrado em 1887 na cidade de Banyoles, na Espanha, que lhe deu o apelido de Homem de Banyoles. Desde então, cientistas o estudaram extensivamente, datando-o de um período no final do Pleistoceno, quando a região que hoje é a Europa era predominantemente habitada por neandertais (Homo neanderthalensis).

Isso e a forma arcaica do osso levaram os cientistas à conclusão de que a mandíbula do homem de Banyoles de fato pertencia a um Neandertal.

“A mandíbula foi estudada ao longo do século passado e por muito tempo foi considerada um Neandertal com base em sua idade e localização, e no fato de que falta uma das características de diagnóstico do Homo sapiens: um queixo”, disse o paleoantropólogo Brian Keeling, da Universidade de Binghamton nos EUA.

O maxilar de Banyoles. (Créditos: Grün et al., J. Hum. Evol., 2006)

Keeling e seus colegas realizaram uma investigação completa do osso usando um processo chamado análise morfométrica geométrica tridimensional. Trata-se de um protocolo não invasivo que envolve examinar exaustivamente a forma de um osso, mapear suas características e compará-las com outros restos.

Eles fizeram escaneamentos 3D de alta resolução e os usaram não apenas para estudar o osso, mas para reconstruir as peças que faltavam. Em seguida, eles compararam o homem de Banyoles com as mandíbulas dos neandertais e dos humanos modernos.

“Nossos resultados encontraram algo bastante surpreendente”, disse Keeling. “O homem de Banyoles não compartilhava traços neandertais distintos e não se sobrepunha aos neandertais em sua forma geral”.

Parecia mais consistente com os maxilares de nosso próprio ramo da árvore genealógica, exceto por um detalhe: o queixo ausente.

Como o queixo é considerado uma característica definidora do Homo sapiens em comparação com outros humanos arcaicos, isso representava um problema. Além disso, o homem de Banyoles também compartilhava características com hominídeos antigos que habitavam a Europa centenas de milhares de anos atrás.

Os pesquisadores compararam o osso com o de um humano moderno de cerca de 37.000 a 42.000 anos atrás, cujos restos foram encontrados na Romênia. É conhecido por ter características de Neandertal, mas também tem um queixo.

A análise de DNA dessa mandíbula mostrou que o DNA incluía sequências de um único ancestral neandertal que viveu quatro ou seis gerações antes – o que provavelmente explica suas características mistas.

Como o homem de Banyoles não tem características de Neandertal, a equipe concluiu que é improvável que sua forma estranha se deva ao fato de o indivíduo ser um híbrido.

A comparação com os primeiros ossos do Homo sapiens da África mostrou que esses indivíduos tinham queixos menos evidentes do que temos agora.

Portanto, há duas possibilidades. Ou o homem de Banyoles era um Homo sapiens de um grupo anteriormente desconhecido que coexistiu com os Neandertais no final do Pleistoceno na Europa. Ou era um híbrido entre o Homo sapiens deste grupo desconhecido e um humano antigo ainda a ser identificado.

Apenas uma coisa é certa: que o homem de Banyoles não era um Neandertal.

Existe uma maneira de resolver o mistério, dizem os pesquisadores – tentar extrair algum DNA do osso ou de um dos dentes e sequenciá-lo.

“Se o homem de Banyoles é realmente um membro de nossa espécie, este ser humano pré-histórico representaria o primeiro Homo sapiens já documentado na Europa”, disse Keeling.

A pesquisa foi publicada no Journal of Human Evolution.