Estudo anti-transgênico da Itália pode estar baseado em dados manipulados

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(usbr.gov)

Por Roheeni Saxena
Publicado na Arstechnica

Uma investigação ocorrendo na Universidade de Nápoles, na Itália, está avaliando alegações de que alguns estudos acerca de plantas geneticamente modificadas incluem dados manipulados para que aparente que o consumo de OGM’s é prejudicial para mamíferos. Frederico Infascelli, o pesquisador que liderou estes estudos, se defendeu dizendo que as alegações são falsas, mas as evidências que surgiram indicam o contrário.

Plantações geneticamente modificadas, comumente conhecidas como organismos geneticamente modificados, ou OGM’s, vêm sendo utilizadas para tornar as safras mais fartas em condições ambientais desafiadoras, mais resistentes a pestes ou doenças, ou melhoradas no âmbito nutricional. Estudos mostraram que OGM’s podem ser efetivos na redução do uso de pesticidas, e aumentam o rendimento geral da plantação, além de serem mais lucrativas para produtores. Alguns dos organismos transgênicos mais comuns são milho, algodão, mamão, soja e beterraba.

Em geral, a maioria dos cientistas, incluindo a Associação Americana para o Avanço da Ciência, concorda que os OGM’s não apresentam risco elevado para a saúde humana em relação às plantas não modificadas, apesar de a plantação e consumo de OGM’s estar cheia de controvérsias. Parcialmente em resposta a preocupações da população, alguns países requerem que alimentos contendo transgênicos sejam rotulados de acordo.

Na Itália, o debate sobre OGM’s é frequentemente suportado pelos resultados de estudos italianos que examinam as consequências de seu consumo. Então, esses estudos potencialmente fraudulentos podem ter tido uma influência nas decisões políticas italianas.

O cientista veterinário Frederico Infascelli liderou estes estudos contestados. Os achados de seu trabalho incluem conclusões de que a ingestão de plantas advindas de colheitas baseadas em OGM’s influenciou a composição química do leite de uma cabra e, consequentemente, afetou a biologia do filhote que se alimentou dele. Esta conclusão, se verdadeira, seria certamente alarmante, já que iria sugerir que porções do DNA modificado estariam permanecendo sem sofrer digestão e poderiam ter alterado a expressão gênica de um mamífero em desenvolvimento.

No entanto, este achado não é bem aceito na literatura científica, e agora se suspeita de que tenha surgido da manipulação de dados experimentais.

Os papers publicados por Infascelli incluíam imagens problemáticas de análises de DNA. Alguns dos papers parecem ter imagens duplicadas que são descritas como tendo dados diferentes, mas, na verdade, apresentam a mesma informação, como é evidenciado por artefatos visuais únicos nas imagens. Adicionalmente, o trabalho aparenta que alguns dados podem ter sido seletivamente analisados ou destruídos no processo de análise de DNA, o que certamente iria influenciar no resultado dos estudos. Nestes casos, outros pesquisadores alegam que as imagens foram deliberadamente manipuladas para mostrar um resultado desejado e para esconder a contaminação das amostras.

Em adição a estas acusações de adulteração, um dos papers publicados por este grupo na revista Food and Nutrition Sciences foi recentemente retratado devido a problemas de auto-plágio – o grupo copiou algo de outro artigo que eles tinham publicado. Os editores da revista, no entanto, acreditam que os resultados da publicação retratada são válidos e que o problema de auto-plágio parecia ter sido um erro honesto e não uma manipulação.

A maior parte dos cientistas concorda que os OGM’s não são prejudiciais quando utilizados na alimentação e não têm consequências adversas para os humanos que os consomem. Os papers publicados pelo grupo de pesquisa de Infascelli fazem parte de um grupo pequeno de estudos que mostram transgênicos como prejudiciais. Apesar de a investigação de fraude ainda estar sendo encaminhada, é bem provável que esta pesquisa apresente problemas sérios. Mas, ainda é incerto se isso vai abalar o argumento, já fraco, de que OGM’s são perigosos.

Enquanto isso está acontecendo, o advogado francês anti-OGM Gilles-Eric Seralini ressurgiu. Seralini é famoso, principalmente, por publicar um paper que afirmava mostrar que ratos alimentados com alimentos baseados em OGM’s sofriam com uma alta incidência de câncer. Mas, a publicação apresentava tantas falhas estatísticas que a revista teve que retratá-la, apesar das objeções de seu autor.

Seralini está de volta, com um estudo que, segundo ele, mostra que alimentos baseados em OGM’s causam problemas de saúde em vacas. Mas a revista na qual ele publicou permitiu que o registro de domínio expirasse, o que significa que o paper (e todos os outros na revista) simplesmente sumiram.

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