Evidências interculturais para as bases genéticas da homossexualidade

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Por Debra Soh
Publicado na Scientific American

As razões por trás do porquê as pessoas são homo, hétero ou bissexuais têm sido por muito tempo motivo de fascinação pública. De fato, pesquisas no tópico de orientação sexual oferece uma poderosa janela para compreender a sexualidade humana. A Archives of Sexual Behavior publicou em Abril uma seção especial devotado à pesquisa na área, intitulada “O Quebra-Cabeças da Orientação Sexual”. Um estudo, conduzido por cientistas na University of Lethbridge em Alberta, Canadá, oferece evidências convincentes interculturais de que há fatores genéticos comuns que governam preferências sexuais de homens homossexuais por parceiros do mesmo sexo.

Entre os indígenas Zapotec no sul do México, indivíduos que são biologicamente homens e sexualmente atraídos por homens são conhecidos como muxes. Eles são reconhecidos como um terceiro gênero: Muxe nguiiu tendem a ser masculinos em sua aparência e comportamento; muxe gunaa são femininos. Em culturas ocidentais, seriam considerados homens gays e mulheres transsexuais, respectivamente.

Diversos correlatos de androfilia masculino – atração sexual de homens biológicos por outros homens – já foi observada em diversas culturas, o que é um indício de uma fundação biológica comum entre elas. Por exemplo, o efeito de ordem de nascimento fraternal – o fenômeno onde androfilia masculina pode ser predita pela existência de um grande número de irmãos mais velhos – é evidente tanto em sociedades ocidentais quanto das Ilhas Samoa.

Interessantemente, na sociedade ocidental, homens homossexuais, comparados com homens heterossexuais, tendem a apresentar maiores níveis de ansiedade de separação – o estresse advindo da separação de grandes figuras de afeição, como um cuidador ou membro próximo da família. Pesquisas em Samoa apresentaram de forma similar que um terceiro gênero fa’afafine – indivíduos que são femininos na aparência, biologicamente masculinos, e atraídos por homens – também se lembram de maior ansiedade de separação quando comparados com homens samoano heterossexuais. Assim, se um padrão similar relacionado à ansiedade de separação fosse encontrado em uma terceira cultura – no caso, no estado de Oxaca no México – adicionaria às evidências que a androfilia masculina sofre influência biológica.

O estudo recente incluiu 141 mulheres heterossexuais, 135 homens heterossexuais, e 178 muxes (61 muxe nguiiu e 117 muxe gunaa). Participantes do estudo foram entrevistados usando um questionário que perguntava sobre ansiedade de separação – mais especificamente, o estresse e preocupação que eles apresentaram quando crianças com relação à serem separados de figuras parentais. Os participantes avaliaram o quão verdadeiras as perguntas eram para idades de 6 a 12 anos de idade.

Os Muxes apresentaram altas taxas de separação de ansiedade quando comparados à homens heterossexuais, de forma similar ao que foi observado em homens homossexuais no Canadá e nas Ilhas Samoa. Também não houve diferenças nos valores de ansiedade de separação entre mulheres e muxe nguiiu ou muxe gunaa, ou entre os dois tipos de muxe.

Quando consideramos possíveis explicações para esses resultados, mecanismos sociais são improváveis porque estudos prévios mostraram que a ansiedade é herdável e a parentalidade costuma ser em resposta aos comportamentos e características da criança, e não o contrário. Mecanismos biológicos, porém, oferecem uma explicação mais convincente. Por exemplo, acredita-se que a exposição à níveis hormonais tipicamente femininos de hormônios sexuais esteroides durante o período pré-natal possa “feminilizar” regiões do cérebro masculino relacionadas à orientação sexual, influenciando portanto questões de afeto e ansiedade.

Além dessas observações, estudos em genética molecular mostraram que a Xq28, a região localizada na ponta do cromossomo X, está envolvida tanto na expressão da ansiedade e da androfilia masculina. Esse trabalho sugere que fatores genéticos comuns podem regular a expressão de ambos. Estudos em gêmeos apontam adicionalmente para explicações genéticas como uma força fundamental para a preferência por parceiros do mesmo sexo em homens e neuroticismo, uma característica comparável à ansiedade.

A pesquisa em ansiedade de separação na infância age como um correlato culturalmente universal para a androfilia em homens. Isso possui aplicações importantes para a compreensão de condições mentais em crianças porque níveis subclínicos de ansiedade de separação, quando relacionados à androfilia masculina, podem representar uma parte típica do desenvolvimento da vida.

Nesse cenário, estudos de orientação sexual vão continuar a despertar interesse e controvérsia pelo futuro próximo pois tem o potencial de ser utilizado – para o bem ou para o mal – para sustentar determinadas agendas políticas. A aceitação moral da homossexualidade tem tradicionalmente se sustentado na ideia que a atração por parceiros do mesmo sexo é inata e imutável e portanto não uma escolha. Isso é claro quando pensamos como crenças sobre a homossexualidade ser “aprendida” já foram usadas para justificar tentativas hoje descreditadas de tentar mudar esse comportamento.

As similaridades interculturais evidenciadas pelo estudo da Lethbridge oferecem ainda mais evidências de que ser gay é genético, o que é, por si só, um achado interessante. Mas nós como sociedade precisamos desafiar a noção de que a homossexualidade precisa ser não-volitiva para ser socialmente aceitável. A etiologia da homossexualidade, biológica ou não, não deveria interferir no direito individual dos homossexuais por igualdade.

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Ciclotron
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Ciclotron

Sim, a homossexualidade é um fator biológico: quem não tem cú, que atire a primeira Pedra! A questão não é uma “escolha” mas condição de ter ou não prazer quando se defeca ou simples curiosidade de explorar novos buracos no próprio corpo. A pesquisa não leva em consideração os “abusos sexuais infantis” que vão de 0 à 14 anos de idade e que definem o grau do comportamento homossexual assim com o número incalculável de homens que dão entrada em hospitais com objetos enfiados no ânus. Tai a homossexualidade social amplamente experiênciada pelos homens biologicamente dotados de ânus. Que horror… Read more »

Douglas Ludtke Carlesso
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Douglas Ludtke Carlesso

A algum tempo a traz um professor meu falou que havia uma teoria que dizia que rejeição parental em idade precoce poderia culminar em uma pseudo orientação homossexual na vida adulta como um reflexo inconsciente da mente do individuo em tentar reaver o afeto parental que lhe foi negado na infância. Alguém conhece algum artigo sobre o assunto?

Pablo Manoel
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Pablo Manoel

Basear pesquisa em teorias e hipóteses de possíveis genes apenas dá menos credibilidade a esse artigo (se não for totalmente nula).Existem estudos que afirmam que a heterossexualidade tem fundamentos genéticos (isto dito com os genes descobertos e identificados) enquanto a homossexualidade não. Logo a homossexualidade, por falta de comprovação biológica não é nada mais que uma escolha do indivíduo.

Fontenelle
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Fontenelle

Hahaha! Capaz! Não sei onde você anda se informando, mas você está um pouco equivocado. O gene da homossexualidade existe assim como o gene heterossexual, tal que existem genes para olhos castanhos e olhos azuis. Querer jogar esse papinho de que isso é escolha do indivíduo é um tanto quanto ignorante.

Saviur
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Saviur

Cual es ese dichoso gen. Hay consenso científico sobre lo que afirma.
Por favor su respuesta.

Paulo
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Paulo

Não existe consenso em ciência. Esse argumento de consenso científico é a coisa mais ridícula que já surgiu nos últimos anos.

Gen
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Gen

Quais são os genes da homossexualidade?

Politis
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Politis

Basear pesquisa em teorias e hipóteses de possíveis preconceitos e medo de ser descoberto q há evidencias cientificas sobre homossexualidade, é papo furado. Na adianta tentar disfarçar, usando palavreado retorico pseudo-cientifico. Mostre sua provas incontestáveis do q afirma. Dizer que gays escolhem ser gays é que nem dizer que viciados q querem largar o vício (não afirmando que gays tão num mesma situação social que viciados mas falo em relação da involuntariedade). Muitos gays já confessaram que não queriam ser gays porque não queriam sofrer preconceitos de gente igual a vc. Nem sou gay, nem curto parada gay nem nada… Read more »

Guilherme
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Guilherme

Pablo Manoel, vamos fingir que a sua conclusão – que a homossexualidade é uma escolha do indivíduo – é verídica. Procure deixar a sua “masculinidade” de lado por apenas 5min na sua vida e tente fazer o desafio de se excitar olhando corpos masculinos nus na internet. Você conseguiria ficar excitado? O mesmo vale para uma mulher heterossexual: desafio ela a ficar 5min excitada olhando outras mulheres nuas. Ué? Por que não é possível? PORQUE HOMOSSEXUALIDADE NÃO É UMA ESCOLHA!

evo
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evo

podría estar excitado mirando un niño?. siguiendo tu ejemplo.

Anonimo
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Anonimo

NUNCA foi e NUNCA será opção do indivíduo, SEMPRE foi e SEMPRE será CONDIÇÃO do indivíduo.

Cesar
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Cesar

Excelente texto! Muito coerente e lúcida conclusão!