Experiência em cidade brasileira mostra que vacinação em massa pode eliminar a COVID-19

0
118
Moradores da cidade brasileira de Serrana fazem fila para as doses da vacina contra a COVID-19. Crédito: Instituto Butantan.

Por Sofia Moutinho
Publicado na Science

Uma pequena cidade rodeada de plantações de cana-de-açúcar no sudeste do Brasil, um dos países mais atingidos pela COVID-19, mostrou que mesmo uma vacina que teve baixa eficácia em alguns ensaios clínicos pode controlar dramaticamente o vírus pandêmico.

Como parte de um experimento incomum para rastrear a eficácia no mundo real da CoronaVac, uma vacina contra a COVID-19 fabricada por uma empresa chinesa, quase todos os residentes adultos de Serrana, no estado de São Paulo, receberam as duas vacinas necessárias entre fevereiro e abril, muito antes da maioria se tornar elegível para a vacina. Os resultados foram dramáticos. Os casos sintomáticos de COVID-19 caíram 80% desde o início da vacinação em massa, as hospitalizações relacionadas caíram 86% e as mortes despencaram 95%, informou a equipe de pesquisa responsável pelo experimento durante uma entrevista coletiva essa semana.

Enquanto isso, os casos ficaram fora de controle em 15 outras cidades próximas. “Serrana agora é um oásis”, disse Ricardo Palacios, epidemiologista do Instituto Butantan, centro de pesquisas estatal que produz a vacina no Brasil. “E nos mostrou que certamente é possível controlar a epidemia por meio da vacinação”.

Algumas outras vacinas contra a COVID-19 demonstraram eficácia superior a 90% no mundo real na prevenção de doenças graves e ajudaram os países a reduzir os casos a níveis muito baixos. Mas tem havido preocupação com a CoronaVac, que usa uma cópia inativada do SARS-CoV-2 para estimular a imunidade. Ensaios clínicos realizados em diversos países apresentaram diferentes valores de eficácia da vacina, sendo o menor 50% no Brasil – bem no limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o uso emergencial da vacina contra a COVID-19. Estudos posteriores no Brasil que tentaram avaliar a eficácia da vacina no mundo real indicaram níveis semelhantes de proteção.

É por isso que os dados da Serrana são tranquilizadores para muitos cientistas do Brasil, onde a CoronaVac responde por 80% de todas as doses de vacinas administradas. “São resultados muito animadores”, disse Ethel Maciel, epidemiologista da Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, que não participou do estudo. Maciel está especialmente aliviado com a vacina que protegeu a cidade porque uma variante do SARS-CoV-2 batizada de P1, que se originou no Brasil e agora é a mais prevalente no país, também foi a variante mais comum em Serrana durante o período do estudo. Estudos de laboratório sugeriram que P1, que a OMS recentemente propôs renomear delta, poderia contornar a proteção de vacinas.

A OMS anunciou hoje que concedeu à CoronaVac uma lista de uso emergencial, um passo que deve acelerar o uso da vacina em muitos países de baixa renda. O Brasil tem o segundo surto de COVID-19 mais mortal do mundo, com mais de 461.000 mortes oficialmente, abaixo dos Estados Unidos, mas à frente da Índia. A campanha de vacinação do Brasil, que demora para decolar devido ao escasso estoque de vacinas, ainda visa apenas os idosos e pacientes com comorbidades. Apenas 15% da população recebeu pelo menos uma dose da vacina.

O experimento de vacinação em massa em Serrana foi denominado Projeto S – não por causa do nome da cidade, mas pelo “segredo”, já que os planos foram inicialmente mantidos em segredo para evitar uma migração em massa para a cidade. Quando começou, um em cada 20 moradores de Serrana estava infectado e mais de 25% já haviam sido expostos ao vírus. O elevado número de casos tornou a cidade atraente como local de teste, junto com sua modesta população de pouco mais de 45.000 pessoas e sua proximidade com um campus da Universidade de São Paulo.

A equipe de cerca de 15 pesquisadores, apoiada por autoridades locais e profissionais de saúde, primeiro realizou um censo detalhado. Em seguida, eles dividiram Serrana em 25 seções que representavam microcosmos de pessoas que interagem umas com as outras – por exemplo, residentes que moram no mesmo grupo de prédios ou fazem compras nas mesmas lojas. Os pesquisadores então reuniram quatro grupos de residentes desses agrupamentos e começaram a vacinar cada grupo com 1 semana de intervalo, administrando as segundas doses 4 semanas após a primeira. Apenas residentes com 18 anos ou mais que não sofriam de doenças crônicas e não-grávidas eram elegíveis. Após 8 semanas, 96% deles, cerca de 27.000 no total, receberam duas injeções.

Embora a cidade nunca tenha sido fechada ou isolada das cidades vizinhas, os pesquisadores dizem que começaram a ver uma redução na transmissão quase imediatamente após o primeiro grupo receber a segunda dose. No momento em que o terceiro grupo recebeu sua segunda dose, e cerca de 75% da população elegível foi imunizada, o surto estava efetivamente sob controle.

Os pesquisadores sugerem que a campanha de vacinação, combinada com as infecções anteriores da população, pode ter levado a cidade a “imunidade de rebanho”, ponto em que o coronavírus tem dificuldade em encontrar novas pessoas para infectar porque muitos já estão imunes. No dia 14 após a última vacinação, houve apenas dois casos entre as pessoas vacinadas e nenhuma morte. “Foi incrível”, disse Palacios. Os casos, hospitalizações e mortes por COVID-19 também despencaram entre crianças e adolescentes, nenhum dos quais recebeu a vacina.

Efeitos colaterais graves não foram relatados. A equipe disse que os resultados serão em breve submetidos a um periódico para publicação e pode disponibilizar uma pré-publicação antes disso. Florian Krammer, virologista da Faculdade de Medicina Icahn no Mount Sinai (EUA), disse que o experimento “parece interessante e o resultado faz sentido”, mas adverte que mais dados de um estudo publicado são necessários para tirar conclusões.

Ricardo Gazzinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia, disse que os resultados são uma boa notícia para a CoronaVac, mas alerta que 2 meses de análise é muito curto. A equipe de pesquisa planeja rastrear os residentes de Serrana por até 1 ano para ver se sua imunidade diminui. Se isso acontecer rapidamente, acabar com a pandemia usando a CoronaVac pode ser difícil, porque o Brasil provavelmente precisaria começar a dar vacinas de reforço antes mesmo de vacinar totalmente toda a população.

“Se o período de eficácia da vacina for curto e mantivermos o ritmo atual de vacinação, a imunidade de rebanho nunca será alcançada porque quando a maior parte da população for vacinada, um grande grupo não estará mais imune”, disse Gazzinelli.