Faltam evidências de que o novo coronavírus possa infectar gatos

Pesquisadores brasileiros apontam série de falhas na metodologia de trabalho de cientistas de instituto chinês que sugere suscetibilidade de gatos ao novo coronavírus.

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Crédito: iStock.

Por Valéria Dias
Publicado no Jornal da USP

“Se eu fosse revisor e recebesse esse artigo para revisar, eu negaria a publicação”, alerta o professor Paulo Eduardo Brandão, do Laboratório de Zoonoses Virais da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP ao se referir a um artigo de cientistas da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas (CAAS) que avaliou a suscetibilidade de animais ao SARS-CoV-2 (novo coronavírus), agente causador da covid-19 em humanos. Brandão constatou uma série de falhas na metodologia usada, o que, para o professor, invalida as conclusões apresentadas. Os experimentos mostraram que os gatos poderiam ser infectados e infectar outros felinos, assim como os furões, e não foram encontrados indícios de que cães, porcos, galinhas e patos poderiam se infectar.

O artigo foi disponibilizado no início desta semana no bioRxiv, um repositório de textos ainda não publicados em revistas científicas nem avaliados por pares, mas disponíveis para leitura.

Dada a atualidade do tema, a repercussão “viral” dos resultados foi aumentando no decorrer dos últimos dias, o que deixou o professor preocupado.

No dia 1º de abril, a revista Nature publicou uma notícia descrevendo o artigo, mas sem questionar as falhas. Aqui no Brasil, conta Brandão, o resultado da pesquisa era um dos principais temas discutidos por médicos veterinários em redes sociais. Para piorar, na quinta-feira, 2 de abril, um laboratório veterinário brasileiro já estava oferecendo testes para diagnóstico do SARS-CoV-2 em felinos, “baseados nas fracas evidências trazidas pelo artigo”, conta Brandão, especialista em estudos de vírus, entre eles os da família dos coronavírus.

Brandão relata que não observou, nessas discussões, questionamentos sobre as inconsistências metodológicas do artigo. Mas alguns pesquisadores concordaram com ele. Uma delas foi a professora Aline Santana da Hora, do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Ela pediu a ajuda de Brandão e, juntos, escreveram um texto com reflexões sobre as falhas observadas no artigo do instituto chinês, como alerta para que conclusões precipitadas não fossem tomadas. Eles enviaram o texto para várias pessoas, com o objetivo de ajudar colegas que atuam no segmento veterinário, que têm boa formação na área clínica, mas não possuem conhecimento pleno em virologia.

Falhas na metodologia

O artigo dos pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas descreve um experimento onde foi feita a inoculação intranasal de uma alta carga viral de SARS-CoV-2 em cinco gatos domésticos de 8 meses de idade – um número diminuto de animais, segundo Aline da Hora e Paulo Brandão. Os gatos infectados foram mantidos próximos a outros gatos não infectados. Desses últimos, os cientistas do instituto chinês recuperaram, posteriormente, o RNA do vírus. Este fato é encarado “como uma comprovação de que os gatos positivos poderiam infectar outros gatos”.

“Eles acharam o RNA viral, mas isso não pode ser interpretado como sendo o vírus se replicando, de fato, no organismo dos gatos”, explica Brandão. “Se eu tomar via oral uma dose do coronavírus que infecta cães, mas não infecta humanos, você vai achar o RNA desse coronavírus no meu organismo, mas porque eu ingeri e não pelo vírus estar se replicando”, esclarece o professor. Encontrar somente o RNA viral pode significar que é apenas um foco do próprio material inoculado, mas o vírus está inativado, e não está se reproduzindo no organismo. Esse mesmo RNA inoculado poderia se disseminar entre os outros animais, sem infectá-los.

Outro ponto é que os exames realizados (RT-PCR e histologia) são insuficientes para comprovar que esses gatos foram infectados. Para Brandão, outras provas de laboratório precisariam ter sido feitas para mostrar a replicação do vírus, como a imunohistoquímica, ou mesmo o isolamento do vírus ativo por meio de um exame de sangue ou do swab, técnica onde uma espécie de cotonete é inserido no fundo do canal nasal para coleta de secreção. “Os cientistas fizeram o swab nos outros animais, mas não fizeram nos gatos porque eles estavam muito agressivos e não conseguiram colher amostras adequadas. Mas há técnicas para fazer esse tipo de coleta nesses animais”, aponta o professor.

Outro aspecto é quanto ao desenho experimental descrito no artigo, bastante falho na visão de Aline da Hora e Paulo Brandão. “Não foram apresentados dados laboratoriais que comprovassem a saúde geral dos gatos utilizados no experimento, assim como o status desses animais para as principais viroses felinas que poderiam contribuir para um quadro de imunossupressão e consequente interferência nos resultados da inoculação experimental”, descreve o texto dos professores.

Além disso, os gatos usados no estudo vieram de uma espécie de gatil – uma informação que, segundo Brandão, está meio obscura. Ele lembra que, geralmente, testes de laboratório utilizam animais de biotérios, livres de doenças e, neste caso do experimento chinês, não se sabe ao certo a origem “genética” dos animais.

O texto de Aline da Hora e Brandão ressalta ainda que nenhum dos animais apresentou sinal clínico após a inoculação experimental: “Nem ao menos foi identificada lesão tecidual ou material genético de SARS-CoV-2 nos pulmões, fato que é bastante intrigante, já que o vírus causa lesões graves em tecido pulmonar de humanos”.

Aline e Brandão lembram que o artigo dos pesquisadores não passou pela revisão de pares, o chamado peer review. “É de conhecimento que todos os artigos científicos, antes de serem publicados, normalmente passam pela revisão de, no mínimo, dois experts da área correlata ao trabalho. O que não aconteceu com este trabalho”, diz o texto dos pesquisadores brasileiros. Brandão lembra que é comum os pesquisadores usarem repositórios como o bioRxiv.org para colocar os artigos antes da publicação em revistas científicas, mas a qualidade dos trabalhos lá encontrados é bem variada.

Bem-estar animal

De acordo com o professor da FMVZ, entre as consequências da viralização do artigo está o abandono de gatos. “Já estava acontecendo com cães, por suspeita de que fossem hospedeiros. Agora isso pode ter uma repercussão no bem-estar animal. Se começarem a abandonar cães e gatos nas ruas, a população deles vai aumentar e podem voltar também algumas zoonoses, como a raiva”, alerta o docente. Além de aumentar o preconceito contra gatos, outra consequência é desviar a atenção de algum outro possível hospedeiro intermediário.

O texto dos professores da USP e da UFU atenta ainda para um relato que se tornou “viral”: a identificação de SARS-CoV-2 em amostras de um gato doente na Bélgica. “Neste caso, os dados foram apresentados em forma de notícias. Portanto, não está bem esclarecida qual foi a metodologia de diagnóstico de SARS-CoV-2 e nem se outros exames foram realizados para o estabelecimento de um diagnóstico diferencial”.

Sobre esse fato, o texto destaca que “há recomendações de que os pacientes com suspeita ou confirmados para covid-19 permaneçam isolados do contato com pets. Tal recomendação é sempre preconizada para qualquer doença infecciosa emergente, até que informações científicas determinem e embasem a suspensão ou não dessa recomendação”.

Sobre a revista Nature, Brandão conta que no dia 1º de abril enviou um e-mail para o repórter que escreveu a notícia. Na manhã do dia seguinte, o repórter respondeu, dizendo que ira falar com os editores. Até o fechamento deste texto (16 horas do dia 3 de abril de 2020), Brandão não havia recebido resposta dos editores.