Introdução à Filosofia do Transhumanismo

Por Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
Trabalho apresentado na Universidade Metodista de São Paulo

RESUMO

O trabalho em si tem como objetivo apresentar algumas propostas tais como a (1) definição razoável de transhumanismo; (2) mostrar as filosofias subjacentes a ela; (3) apresentar argumentos e exemplos que sustentam a ideia de que o ser humano é um ser transhumanista (no sentido do pós-humano); (4) demonstrar alguns problemas éticos e limitações epistemológicas do projeto.

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA TRANSHUMANISTA

O transhumanismo é uma filosofia (ou movimento intelectual) que visa analisar e melhorar a condição humana a partir do uso de ciência e tecnologia (biotecnologia, nanotecnologia e neurotecnologia) para aumentar a capacidade cognitiva e superar limitações físicas e psicológicas; analisar os problemas éticos na relação humano-robô e cérebro-máquina a partir de uma perspectiva humanística e; proclamar a liberdade e acessibilidade na escolha destes recursos pós-humanos.

Existem inúmeras teses que podem abarcar a filosofia transhumanista. No entanto, pretendo expor apenas seis delas, além propor alternativas às tradicionais e defendê-las brevemente. São tais: (1) cientificismo; (2) ceticismo (3) humanismo; (4) agatonismo; (5) sistemismo; (6) racioempirismo.

  1. O termo “cientificismo” é polissêmico, comumente usado de modo pejorativo por aqueles que têm aversão à ciência e à tecnologia. Popularmente, o termo é usado como sinônimo de “positivismo lógico”, uma vez que os positivistas eram cientificistas, mas falharam em sua empreitada ao tratarem os problemas metafísicos como pseudoproblemas. Em defesa do cientificismo, dissociando do positivismo lógico, adoto a definição do Vocabulaire de Lalande [1] de que o “cientificismo é a ideia de que o espírito e os métodos da ciência deveriam ser estendidos a todos os domínios intelectuais e morais da vida, sem exceções.” Enxugando o cientificismo de qualquer definição destrutiva, ele torna-se um elemento crucial da filosofia transhumanista, uma vez que a mesma proclama a adoção da metodologia científica como a melhor ferramenta para proporcionar a melhoria da qualidade de vida e superar limitações físico-psicológicas do corpo humano.
  2. “Ceticismo” também é um termo polissêmico, comumente usado como sinônimo de niilismo epistemológico (nada é cognoscível). Entretanto, o ceticismo que proclamo é o ceticismo metodológico. O ceticismo metodológico utiliza-se da dúvida como um modo de aferir ou propor novas ideias [2]. Assim, ele é compatível com a filosofia transhumanista para avaliar criticamente as implicações do uso certas tecnologias que visam a melhoria das capacidades humanas.
  3. O humanismo é um conjunto (ou sistemas) de normas que busca a verdade e a justiça. Assim, ele advoga códigos morais e programas políticos que enfatizam a livre pesquisa, os direitos e o bem-estar humano [3]. O humanismo é compatível com a filosofia transhumanista porque é centrado no sujeito que enfatiza a livre pesquisa e busca a superação dos problemas cotidianos que prejudicam o bem-estar humano.
  4. O agatonismo é uma filosofia moral proposta por Mario Bunge [2] que proclama que devemos buscar o bem para nós mesmos e para os outros. Esse princípio combina egoísmo e altruísmo. Além disso, o agatonismo coloca, ainda, que direitos e meios vêm aos pares, as ações devem ser moralmente justificadas e que os princípios morais devem ser avaliados por suas consequências. Assim, o agatonismo serve como um guia moral para a filosofia transhumanista.
  5. O sistemismo postula que toda e qualquer coisa concreta e toda e qualquer ideia é um sistema ou um componente de algum sistema [4]. Em outras palavras, o mundo está composto por sistemas de distintos tipos (físícos, químicos, biológicos e sociais) e os sistemas têm características próprias que não possuem suas partes. O sistemismo é uma abordagem importante na filosofia transhumanista em sua aplicação nas ciências cognitivas (filosofia da mente, inteligência artificial e neurociência), pois nos auxilia em uma melhor compreensão dos processos mentais do cérebro humano.
  6. O racionalismo contemporâneo (ou racioempirismo) proclama que a razão é necessária – mas não suficiente – para conhecer a realidade. Deve-se, portanto, unir-se à experiência [5]. Assim, a postura é a base da filosofia transhumanista.

O SER HUMANO É UM SER TRANSHUMANISTA

Quando falamos em evolução, lembramos de nossos ancestrais hominídeos em florestas e savanas, vivendo da caça e coleta. Entretanto, raramente percebemos que eles produziam artefatos técnicos para superar suas limitações físicas.

A antropologia evolutiva fornece uma farta literatura sobre a importância das ferramentas técnicas (estacas de pedras, lanças, etc.) como auxiliares para os primeiros modos de subsistência de nossos ancestrais. Essas ferramentas não foram apenas importantes armas de defesas contra animais carnívoros, mas também foram ferramentas essenciais que ajudaram a dominar o fogo para cozinhar a carne [6]. Além disso, foram ferramentas fundamentais para a prática da agricultura. Vejamos alguns exemplos mais recentes da interação entre homem-técnica:

  1. Em 1883, o cirurgião e médico britânico William Arbuthnot Lane desenvolveu um sistema de pinos metálicos e placas para a fixação interna dos ossos [7]. Esse sistema acabou servindo para auxiliar no tratamento de fraturas ósseas.
  2. O aparelho de comunicação do físico Stephen Hawking foi responsável para superar as consequências de sua doença degenerativa. Essa tecnologia não serviu apenas para que o Hawking pudesse se comunicar, mas também para que ele desse continuidade em sua pesquisa acadêmica no campo cosmológico.
  3. Em 2014, cientistas da Universidade de Peking conseguiram implantar com sucesso a primeira vértebra impressa em 3D em um paciente jovem [8]. O paciente, um menino de 12 anos, tinha um tumor maligno em sua medula espinhal. Depois de horas de cirurgia, os médicos substituíram a vértebra em seu pescoço com a peça impressa em 3D.
  4. Outra grande criação do ser humano para superar limitações físicas é o exoesqueleto do neurocientista Miguel Nicolelis [9]. Resumidamente, o exoesqueleto gera movimentos através do reconhecimento de impulsos cerebrais dos pacientes. Assim, os pacientes com algum nível de paralisia conseguem locomover-se.
  5. Através de estudos feitos sobre visão artificial através da estimulação neuronal, em outubro de 2014, aconteceu o primeiro implante de um olho biônico [10]. O paciente Larry Hester, que era considerado oficialmente cego por mais de 30 anos, após a cirurgia, voltou a enxergar, mas não perfeitamente. Basicamente, o que acontece é o seguinte: o olho biônico detecta a luz, converte-a em impulsos elétricos, que são interpretados pelo cérebro em imagens.
  6. Por fim, mas não menos importante, o inglês Neil Harbisson é o primeiro ser humano a ser reconhecido por um governo como um legitimo cyborg. O motivo foi que ele instalou um dispositivo no cérebro. Ele é daltônico, sempre enxergou tudo em preto e branco. Então, teve a brilhante ideia de desenvolver um dispositivo que detecta cores e transforma em sons [11]. Esse som é enviado para o crânio dele através de uma antena. Assim, ele aprendeu a associar o som às corres (ou seja, ele ouve as cores).

Assim, postulo que os seres humanos (de caçadores-coletores até o homem civilizado) mantém certas características nomeadamente transhumanas, uma vez que estas características e modificações foram responsáveis para melhorar a condição humana.

PROBLEMAS ÉTICOS

Quando olhamos para algumas pesquisas sobre as emoções no mundo natural [12], temos a convicção de que essas características (altruísmo, egoísmo, etc.) poderão ser aplicáveis ao sistema de inteligência artificial (I.A.). Assim, postulo que, para que uma tecnologia seja necessariamente dotada de inteligência e possua características humanas, não é necessário emularmos estados mentais conscientes, mas apenas em programarmos certas características emotivas, aptidões para a realização de tarefas lógico-matemáticas e funções de locomoção e movimento que sejam compatíveis com qualquer sistema auto-organizativo e emergente.

No livro Love and Sex With Robots (em português, Amor e Sexo com Robôs) [13], David Levy especula sobre as possíveis interações sexuais entre humanos e robôs. Assim, observando alguns exemplos cotidianos, podemos ver que essas hipóteses (interação sexual entre humanos e robôs) não são mera ficção científica a partir do momento que temos objetos que servem para o estímulo sexual (bonecas infláveis, plugs anais, vibradores, etc.), relacionamentos virtuais que despertam inúmeras características emotivas e filmes eróticos que despertam o desejo sexual.

O primeiro problema ético acontecerá quando a inteligência artificial chegar em um nível de que dificilmente poderemos conceber algumas diferenças significativas nas relações entre humanos e robôs. Pense nos seguintes exemplos:

Uma inteligência artificial com características psicobiossociais que interage e modifica sua estrutura interna com o meio externo (aqui especulo uma possível simulação de certas características emotivas e da neuroplasticidade do cérebro humano) e a intenção dos seres humanos em construir famílias com robôs inteligentes e usufruir dos mesmos direitos de uma família tradicional-religiosa.

Assim, temos as seguintes problemáticas para o campo da filosofia da ética resolver. Respectivamente, poderíamos elaborar as seguintes questões: “O que torna os humanos diferentes dos robôs?” e “Robôs devem ter os mesmos direitos que os humanos?”

O segundo problema é ainda mais especulativo, mas possui uma importante reflexão ética sobre o que somos, uma vez que envolve a ideia de sermos capazes de realizar cópias de nossas faculdades mentais em dispositivos externos e, em seguida, emularmos em supercomputadores. Veja o exemplo:

Digamos que eu faça uma cópia de minhas faculdades mentais e, depois, emule-as em supercomputadores. Tanto o “eu biológico” como o “eu máquina” estão vivos ao mesmo tempo.

O “eu máquina” seria necessariamente o mesmo que o “eu biológico”? Se o “eu máquina” é mesmo que o “eu biológico”, quem sou eu ou quem é ele? Eu não tenho uma solução para o problema, mas não deixa de ser uma reflexão importante sobre a nossa identidade, enquanto seres humanos.

PROBLEMAS EPISTEMOLÓGICOS

Uma das grandes problemáticas filosóficas é a ideia de podermos transferir nossos cérebros biológicos, que foram esculpidos em milhares de anos pela evolução biológica, para um corpo robótico.

O problema não coloca apenas em dúvida a noção de identidade (o que somos), mas também algumas noções do problema mente-corpo e mente-cérebro (dualismo de substância) e algumas considerações importantes sobre a interação do sujeito conhecedor com a realidade externa (realismo e antirrealismo). Por um lado, há quem defenda que o sujeito não pode conhecer, mesmo que parcialmente, a realidade e do outro lado há os realistas que defendem que podemos conhecer a realidade, mesmo que parcialmente e de maneira progressiva, através da ciência.

A problemática é a seguinte: se não podemos conhecer e interagir com a realidade (antirrealismo), como podemos, então, modificar estruturas internas de organismos biológicos e objetos físicos (manipulação e regulação da química cerebral e modificações das estruturas físicas em escalas quânticas pela nanotecnologia), e melhorar e reparar eventuais falhas e limitações da nossa percepção (aumentar as nossas capacidades mentais, auditivas ou visuais, pela neurotecnologia)? Além disso, como o produto da ciência (id est, a tecnologia) tem se mostrado eficaz na sociedade humana se não podemos conhecer e interagir com a realidade?

Além disso, a ideia de que no futuro poderemos ser capazes de transferir o nosso cérebro para um robô emperra em algumas problemáticas biológicas. Entre elas, existe o problema fundamental de que o cérebro precisa de um corpo (sistema biológico) para interagir (e responder aos estímulos externos) com o meio-ambiente [14], algo que em um computador ainda não seria possível.

CONCLUSÃO

A filosofia transhumanista tem se mostrado compatível com a maior parte do conhecimento científico, sendo uma filosofia futurista que visa utilizar os produtos da ciência e da tecnologia para melhorar a condição humana e alcançar objetivos humanistas. No entanto, assim como todo empreendimento intelectual, ela enfrenta alguns problemas e limitações, mas que podem ser contornados à luz de novas ideias.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Lalande, Andre. 1938. Vocabulaire technique et critique de la philosophie, vol. 3. Paris: Alcan.
  2. Bunge, Mario. Dicionário de Filosofia. Perspectiva, 2006.
  3. Bunge, Mario. Evaluating philosophies. Vol. 295. Springer Science & Business Media, 2012.
  4. Bunge, Mario. Emergencia y convergencia. Novedad cualitativa y unidad del conocimiento. Barcelona: Gedisa, 2004.
  5. Bunge, Mario. Racionalismo y Empirismo, Escepticismo y Cientificismo: ¿Alternativas o Complementos? La Alternativa Racional n° 10, Año III, 1988.
  6. Wright, Katherine I. “Ground-stone tools and hunter-gatherer subsistence in southwest Asia: implications for the transition to farming.” American Antiquity (1994): 238-263.
  7. —, “Sir William Arbuthnot Lane (1856–1943)”, Historic Hospital Admission Records Project (HHARP), 1 Oct 2003.
  8. Hicks, Jennifer. Peking University Implants First 3D Printed Vertebra. Forbes, 2014.
  9. —, News from The Walk Again Project. Laboratory of Miguel A. L. Nicolelis, 2014.
  10. —, NC’s first bionic eye recipient sees for first time in 33 years. Duke Medicine, 2014.
  11. Harbisson, Neil. I listen to color. TED, 2012.
  12. Rossetti, Victor. Psicologia Evolutiva: Modelo computacional, modularidade e adaptacionismo. Net Nature, 2014.
  13. Levy, David. Love and sex with robots. Harper Collins, 2009.
  14. David Deutsch. The very laws of physics imply that artificial intelligence must be possible. What’s holding us up? Aeon Magazine, 2012.
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Graduando em Filosofia (2014) pela Universidade de Franca (UNIFRAN); estágio de iniciação científica em Microbiologia com enfoque em Astrobiologia (2016) pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP); estudante da disciplina de Filosofia da Mecânica Quântica de pós-graduação (2016) pela Universidade de São Paulo (USP); experiência na área de Divulgação Científica com enfoque em Ciências Planetárias (Astronomia e Astrobiologia) e Ciências Cognitivas (Neurociência e Psicologia); fundador da Organização Universo Racionalista (UR); colaborador do Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade (IERFH); membro-estudante da Rede Brasileira de Astrobiologia (RBA). Tem interesse nas áreas de Astronomia, Astrobiologia, Biologia Evolutiva, Física, Filosofia da Ciência, História da Ciência, Microbiologia, Neurociência, Psicobiologia e Sociologia da Ciência. Abaixo, segue o endereço do currículo na plataforma Lattes.

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6 Comentários em "Introdução à Filosofia do Transhumanismo"

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Anon
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Conheci o tema lendo “Inferno” de Dan Brow.
Obrigado pelo post.

Ramon Pereira Neiva
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Nossa a forma que você trouxe a tona o tema foi excelente, faz nos questionar que rumo o ser humano deve tomar na evolução, e os problemas éticos que dificilmente passaríamos em nossas cabeças adorei

Aroldo Ferreira
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Parabéns. Excelente!

Cesar
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Ótimo artigo!!! Bom trabalho! Parabéns!

Melquisedeque
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Pô! Sou formado pela metodista EHEAUHAHUE

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