Fósseis revelam que dinossauros tinham piolhos

Uma reconstrução artística de um inseto antigo em uma pena felpuda de dinossauro. Crédito: Chen Wang.

Por Gretchen Vogel
Publicado na Science

Como a maioria dos pais de crianças pequenas sabe, os piolhos são artistas da sobrevivência, hábeis em evitar a detecção e, ao mesmo tempo, em disseminar em novos hospedeiros. Mas, agora, está claro que eles tiveram muita prática. Novos fósseis encontrados em âmbar revelam que os insetos existem há, pelo menos, 100 milhões de anos, quando se alimentavam de dinossauros emplumados.

A descoberta é “altamente legal e emocionante sobre a comunidade dos piolhos”, diz Julie Allen, bióloga evolutiva da Universidade de Nevada em Reno, que não estava envolvida no trabalho.

O trabalho genético com piolhos vivos sugeriu que eles haviam surgido durante o período dos dinossauros emplumados, mas os piolhos fósseis são poucos e distantes entre si. É improvável que pequenas criaturas fossilizem – mesmo que fossilizem, seriam difíceis de detectar. Os paleontólogos Taiping Gao, Dong Ren e Chungkun Shih, da Universidade Normal de Pequim, e seus colegas passaram muito tempo pesquisando fósseis em busca de insetos comumente negligenciados, especialmente parasitas como piolhos. Em dois espécimes de âmbar de Mianmar, eles notaram 10 insetos minúsculos entre penas felpudas bem preservadas, que mostraram danos como se algo as estivesse comendo.

Os insetos, com apenas 0,2 mm de comprimento – aproximadamente, o dobro da largura do cabelo humano – não se parecem exatamente com os piolhos modernos. Suas partes bucais não são tão sofisticadas quanto as dos piolhos de hoje e ainda têm cerdas duras em suas garras e antenas, relatam os pesquisadores na Nature Communications. Eles nomearam os insetos de Mesophthirus engeli. (Mesophthirus significa piolho mesozóico, para a era geológica em que viveu, e o nome da espécie é para o entomólogo e paleontológo Michael Engel.)

O “Mesophthirus engeli”, de 100 milhões de anos, em um âmbar. Crédito: Taiping Gao.

Como os piolhos modernos, os piolhos antigos não têm asas, os olhos são pequenos e têm antenas e pernas curtas, o que sugere que não viajavam muito longe ou rápido. “Eles parecem um pouco estranhos, mas definitivamente têm características piores”, diz Allen. Por serem tão pequenos, os pesquisadores pensam que seus espécimes eram ninfas – piolhos juvenis – e os insetos adultos podem ter tido meio milímetro de comprimento.

Hoje, a maioria dos piolhos são especialistas extremos, vivendo de apenas uma espécie ou mesmo de uma parte específica do corpo de uma única espécie. As penas nos dois espécimes de âmbar parecem bem diferentes e podem ser de dinossauros diferentes, então parece que o M. engeli era menos exigente, diz Shih. Ambas as penas tiveram danos que se assemelham aos produzidos pelos piolhos modernos, e os pesquisadores suspeitam que os insetos antigos sejam os culpados. (Os piolhos que infectam humanos bebem sangue, mas muitos outros piolhos hoje comem penas ou flocos de pele.)

Como esses piolhos pareciam comer penas, provavelmente não mordiam a pele de seus hospedeiros, então os dinossauros infestados provavelmente não coçavam, diz Shih. Mas o dano que causaram às penas pode ter levado os dinos a se limparem, mudando a maneira que os pássaros modernos fazem para se livrarem de piolhos e ácaros, diz Allen. “Agora, sabemos que os dinossauros emplumados não só tinham penas, mas também parasitas – e, provavelmente, eles tinham diferentes maneiras para se livrarem deles”.