Como uma erupção vulcânica ajudou a criar a Escócia moderna

A Escócia ingressou formalmente na Inglaterra com os Atos da União (acima), após uma depressão econômica que pode ter sido exacerbada pelo resfriamento climático induzido por vulcões. Créditos: Chronicle / Alamy Stock Photo.

Por Sid Perkins
Publicado na Science

Foram mais de sete anos terríveis na Escócia da década de 1690, uma época em que suas colheitas falhavam, aldeias agrícolas permaneciam vazias e a grande fome matava até 15% de toda sua população. Os chamados males escoceses (nomeados após as pragas bíblicas) deram início a uma era de condições econômicas incapacitantes. Logo depois, a nação anteriormente independente ingressou na Grã-Bretanha. Agora, os pesquisadores sugerem que erupções vulcânicas a milhares de quilômetros de distância podem ter ajudado a desencadear essa transformação política.

Há muito tempo, os cientistas sabem que os vulcões podem alterar o clima da Terra. Durante grandes erupções, gotículas de ácido sulfúrico, que dispersam na luz, atingem a estratosfera e se espalham pelo mundo, refletindo parte da radiação do Sol de volta ao espaço e resfriando o planeta. Esses períodos de frio podem durar de vários meses a vários anos – e podem ajudar a desencadear secas e arruinar colheitas.

Os vestígios desses eventos geralmente estão alocados nos anéis das árvores, cujo crescimento diminui com mudanças selvagens de temperatura e precipitação. Mas, até recentemente, os pesquisadores não tinham registros dos anéis das árvores no norte da Escócia, onde ocorreram os piores efeitos da fome. Tudo mudou 2 anos atrás, quando os cientistas reuniram um registro completo do clima local de 1200 a 2010. Eles utilizaram dados de árvores e troncos ainda vivos que caíram em lagos, onde foram preservados por séculos.

Rosanne D’Arrigo, uma paleoclimatóloga do Lamont Doherty Earth Observatory da Universidade Columbia, em Palisades, Nova York, ansiosamente investigou o problema com seus colegas. A análise revela que a segunda década mais fria dos últimos 800 anos se estendeu de 1695 a 1704. As temperaturas de verão durante esse período foram cerca de 1,56°C mais baixas do que as médias de verão de 1961 a 1990, informou a equipe em uma edição do Journal of Volcanology and Geothermal Research.

Tudo isso coincide com duas grandes erupções vulcânicas nos trópicos: uma em 1693 e uma ainda maior em 1695. O golpe um e dois provavelmente levou a Escócia a um frio profundo, que destruiu colheitas e provocou fome por vários anos, especula a equipe.

Os vulcões tropicais não foram apenas prejudiciais na Escócia. Técnicas agrícolas relativamente pouco sofisticadas, uma política do governo que incentivava as exportações de grãos (que deixou poucas reservas quando as colheitas falharam) e uma tentativa frustrada de criar uma colônia escocesa no Panamá a partir de 1698 colocaram a nação em circunstâncias ainda mais terríveis. Esses problemas, bem como a depressão econômica que se seguiu, motivaram o Parlamento escocês a acabar com sua independência e ingressar na Grã-Bretanha em 1707, propõem os pesquisadores.

D’Arrigo e seus colegas “argumentam com credibilidade”, diz Francis Ludlow, historiador do clima no Trinity College Dublin. A parte mais especulativa de sua hipótese, ele sugere, é uma ligação entre erupções ocorridas em meados da década de 1690 e eventos políticos que ocorreram mais de uma década depois. No entanto, acrescenta, o tema merece um estudo mais aprofundado.

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