Fóssil de árvore gigante de 10 milhões de anos no Peru revela surpresas sobre um passado distante

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Crédito: Rodolfo Salas Gismondi.

Por David Nield
Publicado na ScienceAlert

Pesquisadores que trabalham no Planalto Andino Central (ou Altiplano) do Peru descobriram um fóssil de uma árvore gigante enterrado nas planícies – e os 10 milhões de anos de história que ele revela não combinam com o que pensávamos saber sobre o clima da época.

Na época em que essa árvore morreu, um pouco depois da metade do período Neogeno, o clima da América do Sul era muito mais úmido do que se pensava, com base no que este fóssil de árvore revela.

Os pesquisadores dizem que isso mostra a importância de usar fósseis de plantas para descobrir como o clima do nosso planeta passou por mudanças bruscas no passado – e, a partir disso, traçar um panorama de como pode ele mudar novamente no futuro.

Crédito: Carlos Jaramillo.

“Esta árvore e as centenas de amostras fósseis de madeira, folhas e pólen que coletamos na expedição revelam que quando essas plantas estavam vivas o ecossistema era mais úmido – ainda mais úmido do que os modelos climáticos do passado previam”, diz a paleobotânica Camila Martinez do Smithsonian Tropical Research Institute (STRI) no Panamá.

“Provavelmente não existe um ecossistema moderno comparável a este, porque as temperaturas eram mais altas quando esses fósseis foram sedimentados há 10 milhões de anos”.

Muita coisa mudou ao longo desses 10 milhões de anos para transformar a região de um ecossistema úmido e diverso para esse estado mais árido e escasso em ela que se encontra hoje – pelo menos uma mudança na altitude de cerca de 2.000 metros para 4.000 metros.

Fósseis de plantas coletados com apenas 5 milhões de anos sugerem que a maior parte da mudança já havia ocorrido nessa época. Eles mostram evidências de gramíneas, samambaias, ervas e arbustos, sugerindo um ecossistema semelhante ao da Puna dos dias de hoje – ao invés de um que poderia ter sustentado o crescimento de árvores enormes.

Na escala da história da Terra, essa é uma mudança rápida em um curto espaço de tempo, causada por movimentos na litosfera da Terra sob a América do Sul ao longo de muitos milhões de anos.

“O registro fóssil na região nos diz duas coisas: tanto a altitude quanto a vegetação mudaram dramaticamente em um período relativamente curto de tempo, sustentando uma hipótese que sugere que a elevação tectônica dessa região ocorreu em pulsos rápidos”, disse o paleobotânico Carlos Jaramillo do STRI.

Não está totalmente claro como a mudança climática em curso afetará o Planalto Andino Central e a vizinha Bacia Amazônica nos próximos anos, devido aos complicados ciclos de feedback climáticos que podem desencadeados. Mas as novas descobertas sugerem que no passado antigo, pelo menos, as mudanças de clima e de altitude ocorriam ao mesmo tempo.

A ideia de que a elevação tectônica ajudou a causar menos chuvas e um ressecamento da região é quase o oposto das conclusões a que vários outros estudos haviam chegado.

Em alguns aspectos, porém, a falta de concordância entre os estudos pode ser tão útil quanto a harmonia perfeita – as lacunas mostram onde os especialistas podem estar errando em seus cálculos e há muitos cálculos a serem feitos para retroceder 10 milhões de anos de história.

“No final deste século, as mudanças na temperatura e nas concentrações de dióxido de carbono na atmosfera voltarão a se aproximar das condições de 10 milhões de anos atrás”, diz Martinez.

“Entender as discrepâncias entre os modelos climáticos e os dados baseados no registro fóssil nos ajuda a elucidar as forças motrizes que controlam o clima atual do Altiplano e, em última instância, o clima do continente sul-americano”.

A pesquisa foi publicada na Science Advances.