Fóssil incrível revela um lagarto gigante que dominava o mar com dentes e terror

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Um dos crânios de Thalassotitan. (Créditos: Universidade de Bath)

Traduzido por Julio Batista
Original de Michelle Starr para o ScienceAlert

A descoberta de fósseis incríveis de um lagarto marinho gigante revela como essa antiga fera extinta teria dominado o mar há 66 milhões de anos.

O monstrengo é uma espécie recém-descoberta de mosassauro, répteis marinhos gigantes que caçavam pelos oceanos durante o Cretáceo Superior.

Chama-se Thalassotitan atrox, e o desgaste nos dentes junto com outros restos encontrados em seu local de escavação sugerem que esse animal intimidante não era um gigante gentil – mas se alimentava de presas difíceis, como tartarugas marinhas, plesiossauros e outros mosassauros.

Outros mosassauros buscavam presas menores, como peixes ou amonites (que nem sempre eram tão pequenas assim).

Um dos crânios de Thalassotitan. (Créditos: Universidade de Bath)

Isso significa que o Thalassotitan provavelmente ocupou um lugar no topo da cadeia alimentar, mantendo os ecossistemas mantendo os outros predadores sob controle.

“O Thalassotitan era um animal incrível e aterrorizante”, disse o paleontólogo e biólogo evolutivo Nick Longrich, da Universidade de Bath, no Reino Unido. “Imagine um dragão-de-Komodo cruzado com um grande tubarão-branco cruzado com um T. rex cruzado com uma baleia assassina.”

Reconstrução artística do Thalassotitan astrox. (Créditos: Andrey Atuchin)

Não há nenhum réptil vivo hoje que esteja na escala dos mosassauros, que podiam atingir comprimentos de 12 metros – duas vezes o tamanho dos maiores répteis modernos, os crocodilianos. Mas os mosassauros estão relacionados, em vez disso e de forma distante, às cobras e iguanas modernas.

Os mosassauros se adaptaram melhor a um estilo de vida totalmente aquático do que as iguanas marinhas de Galápagos. Eles tinham uma cabeça reptiliana, mas nadadeiras em vez de pés com garras, e uma cauda com barbatanas de tubarão.

Diferentes espécies de mosassauros também podiam se especializar em diferentes presas, devido aos seus diferentes dentes. Alguns dentes eram pequenos e pontiagudos, bons para peixes e lulas; outros tinham dentes mais rombudos e mandíbulas esmagadoras, perfeitos para criaturas com conchas.

Mas, dado que os animais parecem não ter um bom olfato, é provável que eles fossem predominantemente predadores, e não necrófagos.

As análises sugerem que os mosassauros se banqueteavam com peixes, cefalópodes, tartarugas, moluscos, outros mosassauros e até pássaros. Thalassotitan parece estar entre os mais ferozes.

Os fósseis foram descobertos nos leitos de fósseis de fosfato de Marrocos, uma região rica em diversos fósseis do Cretáceo e do Mioceno e excelentemente preservados.

Os restos incluem crânios, vértebras, ossos dos membros e falanges. Juntos, eles permitiram uma descrição completa do crânio, mandíbula e dentes de Thalassotitan, bem como o esqueleto, ombros e membros anteriores.

O animal, descobriram Longrich e sua equipe, provavelmente poderia crescer até um comprimento de cerca de 9 a 10 metros – um pouco maior que uma orca. No entanto, seu crânio tinha quase o dobro do comprimento da orca, chegando a cerca de 1,5 metros de comprimento.

Gráfico mostrando o tamanho impressionante do Thalassotitan. (Créditos: Universidade de Bath)

Ao contrário de outros mosassauros que tinham focinhos finos, a mandíbula de Thalassotitan era larga e curta, com grandes dentes cônicos que seriam perfeitos para agarrar e dilacerar presas. E esses dentes continham outra pista sobre a dieta do animal: muitos deles estão quebrados e desgastados, danos que não ocorreriam com uma dieta predominantemente composta por presas moles.

Segundo os pesquisadores, isso sugere que o Thalassotitan lascou e quebrou seus dentes em superfícies duras, como cascos de tartarugas e ossos de outros mosassauros, talvez menores.

Isso é apoiado por outros fósseis encontrados perto dos restos de Thalassotitan: os ossos de grandes peixes predadores, uma concha de tartaruga marinha, um crânio de plesiossauro e os ossos de pelo menos três espécies diferentes de mosassauros.

Todos esses restos mostram sinais de desgaste ácido, como você pode esperar que ocorra em ácidos digestivos na barriga de uma fera gigante, antes de serem regurgitados de volta. Essa é uma evidência circunstancial, observam os pesquisadores; mas não deixa de ser bem interessante.

Desgaste nos dentes de um pequeno Thalassotitan. (Créditos: Longrich et al., Cretac. Res., 2020)

“Não podemos dizer com certeza quais espécies de animais comiam todos esses outros mosassauros”, explicou Longrich.

“Mas temos os ossos de répteis marinhos mortos e comidos por um grande predador. E no mesmo local encontramos o Thalassotitan, uma espécie que se encaixa no perfil do assassino – é um mosassauro especializado em predar outros répteis marinhos. Isso não parece coincidência.”

Nos últimos 25 milhões de anos do Cretáceo, os mosassauros tornaram-se cada vez mais especializados e diversificados. A descoberta do Thalassotitan sugere que os mosassauros eram ainda mais diversos do que pensávamos – e que seu ecossistema estava vivo e próspero, com diversidade de presas suficiente para sustentar essa diversificação de predadores.

Por sua vez, isso tem algumas implicações interessantes para os tempos que antecederam a extinção em massa do Cretáceo-Paleogeno, 65 milhões de anos atrás. Isso implica que, em vez de diminuir e deixar o mundo vulnerável, como alguns pensavam, a biodiversidade estava indo muito bem, possivelmente após um evento menor de extinção no meio do Cretáceo.

Mais escavações nos leitos fósseis do Marrocos devem esclarecer essa possibilidade intrigante.

“Há muito mais a ser feito”, disse Longrich.

“Marrocos tem uma das mais ricas e diversificadas faunas marinhas conhecidas do Cretáceo. Estamos apenas começando a entender a diversidade e a biologia dos mosassauros.”

O paper foi publicado na Cretaceous Research.