Gato, cobra e pássaro mumificados são desembrulhados em novo estudo com raios-X

Varredura MicroTC da cabeça do gato mumificado. Crédito: Universidade de Swansea.

Por George Dvorsky
Publicado no Gizmodo

Utilizando radiografias 3D de alta resolução, uma equipe de pesquisadores desembrulhou e analisou digitalmente três animais mumificados do antigo Egito.

Um gato com o pescoço quebrado, uma ave de rapina e uma cobra com a espinha fraturada estão nos ensinando um pouco mais sobre os antigos costumes egípcios. Essas observações fascinantes foram possíveis por meio do novo uso de tomografia microcomputadorizada de raios-X (microTC). O estudo resultante, publicado na Scientific Reports, está lançando uma nova luz sobre a antiga prática da mumificação, incluindo percepções sobre as vidas e mortes desses animais e os métodos altamente ritualísticos empregados pelos antigos egípcios enquanto preparavam suas oferendas espirituais há mais de 2.000 anos.

Os antigos egípcios eram frequentemente enterrados com animais mumificados, mas uma prática cultural mais comum envolvia o uso de animais mumificados como oferendas votivas, como os pesquisadores explicaram no estudo:

“Os deuses também podem ser simbolizados como animais, como a deusa Bastet, que pode ser descrita como um gato ou outro felino, ou um humano com cabeça de felino; e o deus Hórus, que muitas vezes era descrito como uma águia ou falcão. Animais mumificados eram comprados por visitantes de templos, os quais, segundo estudos, ofereciam aos deuses, da mesma forma que velas são oferecidas nas igrejas. Os egiptólogos também sugeriram que os animais votivos mumificados deveriam atuar como mensageiros entre as pessoas na Terra e os deuses”.

Os animais eram criados ou capturados para esse propósito e depois mortos e preservados pelos sacerdotes do templo. Estima-se que 70 milhões de animais foram mumificados no antigo Egito durante um período de 1.200 anos, em uma prática que atingiu níveis de produção industrial.

As três múmias animais analisadas no novo estudo: (a) pássaro, (b) gato, (c) cobra. Crédito: Universidade de Swansea.

Para o novo estudo, Richard Johnston, cientista do Centro de Pesquisa de Materiais da Universidade de Swansea, procurou avaliar o potencial da varredura microTC para auxiliar os arqueólogos em seu trabalho. As resoluções produzidas por essa técnica são 100 vezes maiores do que os scanners médicos convencionais de TC. Ela também é ideal para estudar pequenas amostras. E, ao contrário dos raios-X 2D padrão, essa técnica oferece uma perspectiva 3D.

O sistema funciona compilando um tomograma, ou um volume 3D, de várias radiografias. A forma 3D resultante pode, então, ser processada digitalmente em realidade virtual ou impressa em 3D, fornecendo perspectivas únicas para análise. A varredura MicroTC é, normalmente, usada na ciência dos materiais para visualizar estruturas em detalhes microscópicos, mas Johnston pensou que também poderia ter valor na arqueologia.

O novo artigo é, portanto, uma espécie de estudo de prova de conceito. Johnston, junto com a coautora Carolyn Graves-Brown, curadora do Egypt Centre da Universidade de Swansea, vagou pela área de armazenamento do museu em busca de objetos de teste adequados. Dos muitos artefatos disponíveis, no entanto, Johnston considerou as múmias animais as mais “enigmáticas”.

“Selecionei algumas amostras com formatos variados que demonstrariam a tecnologia, sem saber o que encontraríamos naquela fase”, escreveu Johnston por e-mail. “Daí selecionar uma múmia de gato, pássaro e cobra. Existem muitos exemplos desses animais mumificados em museus, e eles foram estudados ao longo da história. Nosso objetivo era testar os limites do que essa tecnologia poderia revelar”.

Renderização digital da mandíbula do gato, revelando dentes não irrompidos (mostrados em vermelho). Crédito: Universidade de Swansea.

As varreduras de alta resolução resultantes provaram ser muito superiores ao método tradicional de desembrulhamento destrutivo. Além de fornecer uma visualização de alta resolução, as varreduras de microraios-X não são invasivas e o conteúdo mumificado pode ser estudado em sua posição original. Além disso, os dados resultantes existem digitalmente, permitindo aos cientistas revisitar os dados repetidamente, mesmo anos depois, o que foi o caso com esse projeto.

“Uma varredura tem cerca de 5 GB de dados, mas por anos pode revelar algo novo com novos olhos ou utilizando um novo software”, disse Johnston. “Nos últimos anos, incorporamos a realidade virtual em nosso laboratório usando o software SyGlass, então, em vez de analisar dados 3D em uma tela 2D, somos capazes de mergulhar nos dados, o que fornece uma perspectiva única. Posso dimensionar a múmia animal até o tamanho de um prédio e flutuar por dentro, procurando por fraturas ou qualquer coisa interessante. Isso ajudou com medições no espaço 3D para apoiar a confirmação da idade do gato também”.

Os pesquisadores também criaram modelos impressos em 3D, nos quais os espécimes foram dimensionados em até 10 vezes o tamanho normal no caso da cobra e 2,5 vezes para o crânio do gato.

A análise do gato mostrou que era um felino domesticado que morreu quando tinha menos de cinco meses. Dentes não irrompidos dentro de sua mandíbula se tornaram visíveis através da dissecção digital da múmia virtual, já que os pesquisadores podiam virtualmente “fatiar” a mandíbula do animal.

“Perdemos isso ao analisar os dados 3D em uma tela 2D e também na impressão 3D”, disse Johnston.

Crânios impressos em 3D do gato mumificado. Crédito: Universidade de Swansea.

Curiosamente, as vértebras do pescoço do gato estavam quebradas. Isso também aconteceu pouco antes do gato morrer ou logo antes da mumificação, e isso foi feito para manter a cabeça na posição vertical durante a preservação. O coautor do estudo, Richard Thomas, pesquisador da Escola de Arqueologia e História Antiga da Universidade de Leicester, foi “capaz de lidar com uma réplica ampliada do crânio do gato para examinar detalhadamente as fraturas”, explicou Johnston.

A cobra era uma egípcia juvenil. Ela desenvolveu uma forma de gota, provavelmente porque foi privada de água durante sua vida. Seus rins calcificados apontavam para um estado de desidratação, o que provavelmente fazia com que vivesse sob grave desconforto. Fraturas na coluna vertebral vistas na cobra mumificada sugerem que ela foi morta por chicotadas – uma técnica comumente usada para matar cobras.

MicroTC mostrando uma cobra egípcia mumificada. Crédito: Universidade de Swansea.

Um pedaço de resina endurecida foi encontrado dentro da abertura de sua garganta, apontando para a natureza complexa e altamente ritualizada do processo de mumificação. Johnston disse que isso tem paralelos com o procedimento de abertura da boca visto em múmias humanas e no touro Ápis.

Quanto ao pássaro, provavelmente é um pequeno falcão conhecido como francelho euroasiático. A varredura microTC permitiu aos pesquisadores fazer medições precisas de seus ossos, permitindo a identificação das espécies. Ao contrário dos outros dois animais estudados, suas vértebras não estavam quebradas.

Com esse experimento concluído, os arqueólogos devem agora estar motivados a realizarem varreduras microTC em outras múmias e, possivelmente, outros espécimes nos quais os detalhes estão ocultos e quando a análise destrutiva não é ideal. E, como mostra esse novo estudo, a arqueologia, que busca compreender o passado, é continuamente impulsionada por inovações modernas.