Há 15 anos, ufólogos brasileiros fugiam do desafio cético

Ademar Gevaerd, editor da revista UFO.

Publicado na Nave dos Loucos

Em 2004, ocorreu um episódio histórico para a ufologia brasileira. Tudo começou no dia 10 de setembro, quando um membro do conselho editorial da Revista UFO, publicação do Centro Brasileiro para Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV), desafiou Kentaro Mori, editor do Ceticismo Aberto, na época da Sociedade da Terra Redonda, um extinto grupo cético brasileiro. Começava então o embate entre ufólogos e céticos.

Desse embate, uma série de desafios ocorreu entre Mori e Ademar Gevaerd, presidente da CBPDV. Uma semana depois concordaram que a disputa deveria ser mediada por uma terceira parte. O grupo InterPsi, na época da PUC de São Paulo, foi convidado a cumprir essa tarefa e o coordenador do grupo, o psicólogo Wellington Zangari, enviou uma proposta de validação.

A comunidade ufológica, representada por Gevaerd, escolheria “um caso que, ao seu critério, ofereceria as melhores evidências da existência de vida inteligente fora da Terra”, apresentando a documentação relacionada.

Ela seria analisada pela comunidade cética, representada por Mori, além da comunidade científica, representada por 5 cientistas independentes “das principais universidades brasileiras (como a USP, a PUC-SP e a UNICAMP), de diferentes áreas de conhecimento, por estarem acostumados a avaliar objetivamente as evidências”. No dia 21, a proposta foi aceita por ambas as partes.

Entretanto, a avaliação durou pouco. Oito dias depois, Gevaerd simplesmente abandonou a disputa. Em uma mensagem enviada a todos os envolvidos, mencionou três motivos para desistir. “Não me sinto na obrigação de oferecer provas de que os OVNIs existem a quem quer que seja”, disse o ufólogo. “Não sou o representante exclusivo da ufologia brasileira” e “não tenho nenhum ânimo para fazer uma coisa como essa, e muito menos tempo”. Gevaerd foi incentivado a desistir por Carlos Reis, mediador da Revista UFO.

Incrivelmente, Reis, depois de afirmar que o desafio seria uma “perda de tempo”, escreveu uma mensagem: “Eu, você (Gevaerd) e muita gente também sabe que a ufologia é frágil, nós não trabalhamos com provas, mas apenas com indícios significativos de que estamos lidando com um fenômeno de natureza desconhecida. Apenas isso. Não podemos afirmar que existem extraterrestres, pois são apenas suposições, teorias, hipóteses, elucidações… Sabemos que a ufologia é muito mais do que a soma de suas partes, e não temos todas as partes, e as que temos não sabemos por onde começar a estudá-las… Então, para quê entrar nessa bobagem de desafio?”.

Zangari, da InterPsi, se declarou “absolutamente surpreso com o aviso do abandono… Assumir compromissos que envolvem pessoas nos obriga a ter atitudes menos impulsivas, seja para aceitar ou abandonar qualquer atividade. O compromisso da mediação envolve várias pessoas”. E continua: “Considero a atitude de abandono, nesse momento, imatura, irresponsável… De fato, ninguém era obrigado a nada, a não ser que tenha dado a sua palavra”.

Mori, representando a comunidade cética brasileira, fechou o episódio: “Entendemos que o Gevaerd não apenas rejeitou a proposta, mas também falhou em não assumir o seu erro”.

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