Há uma ligação estranha entre os dentes e a evolução da gravidez

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Uma série de crânios hominídeos. (Créditos: Tesla Monson/Museu de História Natural e Cultural da Universidade de Oregon/CENIEH)

Traduzido por Julio Batista
Original de Tessa Koumoundouros para o ScienceAlert

Os bebês humanos acumulam muito crescimento nos nove meses entre a concepção e o nascimento para dar a eles e a seus cérebros complexos e carnudos uma chance de sobrevivência.

Nunca ficou claro como a evolução concedeu aos humanos uma taxa de crescimento pré-natal comparativamente rápida.

Dado o quão crítico é o crescimento do cérebro para o desenvolvimento humano inicial, e o tamanho da cabeça, por sua vez, influencia o tamanho de nossas mandíbulas, pesquisadores suspeitaram que os dentes podem conter algumas informações valiosas sobre a gravidez de nossos ancestrais.

Os dentes começam a se formar por volta das 6 semanas de gestação, mas não desenvolvem suas camadas externas endurecidas até o segundo trimestre. A partir daí, as camadas em crescimento podem guardar registros de sua história de vida, desde o desmame até a atividade sexual.

“Os restos dentários são as partes mais abundantes no registro fóssil”, explicou a paleobióloga Leslea Hlusko, do Centro Nacional de Pesquisas para a Evolução Humana da Espanha (CENIEH), tornando os dentes um candidato ideal para desvendar esses mistérios biológicos, se uma relação entre eles e o processo em questão pode ser estabelecida.

Ultrassom de um ser humano com 26 semanas de gestação. (Créditos: Tesla Monson/CENIEH)

A pesquisa anterior da equipe em primatas descobriu que o crescimento mais lento de um animal no período de gestação está ligado à falta de desenvolvimento do terceiro molar, então Hlusko, o paleoantropólogo Tesla Monson da Universidade de Washington Ocidental (EUA), e seus colegas mediram as proporções entre o comprimento do terceiro e primeiro molar em espécies de primatas ainda vivas hoje, para obter o tamanho molar relativo.

Eles descobriram que a taxa de crescimento pré-natal, o tamanho da cabeça e o tamanho molar relativo de fato seguiram o mesmo padrão em todos esses primatas. Então, eles usaram esse padrão estabelecido para mergulhar em nossa história evolutiva, analisando fósseis de primatas que abrangem entre 6 milhões e 12.000 mil anos atrás, cobrindo 13 espécies de hominídeos.

Australopiteco juvenil, australopiteco adulto, chimpanzé adulto, chimpanzé juvenil e Homo erectus adulto (centro). (Créditos: Tesla Monson/Museu de História Natural e Cultural da UO/CENIEH)

Tanto os restos cranianos quanto os dentais indicam que as taxas de crescimento pré-natal aumentaram nos últimos 6 milhões de anos. Juntamente com a pelve fossilizada e a anatomia da cabeça, essas descobertas sustentam a teoria de que longas gestações semelhantes às humanas evoluíram nas últimas centenas de milhares a milhões de anos, durante o Pleistoceno.

Como os primatas passaram a andar sobre duas pernas no início do Plioceno, cerca de 5,333 milhões de anos atrás, sinais dos quais começaram a ser visíveis no Australopithecus e no Ardipithecus, suas taxas de crescimento pré-natal eram ainda mais semelhantes aos macacos vivos hoje, do que ao nosso.

Mas pela evolução do Homo erectus no início do Pleistoceno, cerca de 2.580.000 anos atrás, houve uma mudança definitiva, que também se refletiu em sua anatomia pélvica.

“A mudança da anatomia pélvica, o volume endocraniano e as taxas de crescimento pré-natal previstas fornecem linhas independentes de evidência que sustentam a gravidez e o nascimento semelhantes aos humanos modernos evoluindo no Pleistoceno nas espécies posteriores do Homo, antes do surgimento do Homo sapiens”, escreveram a equipe em seu paper.

Essas mudanças coincidem com expansão das pastagens e das populações de herbívoros, o que pode ter fornecido ao gênero Homo os recursos extras necessários para alimentar o aumento do tamanho neonatal e o maior investimento materno.

Os avanços nas ferramentas que também ocorreram nessa época podem ser um reflexo do tamanho crescente do cérebro de nosso ancestral, bem como da provável evolução da caça em grupo, que por sua vez teria fornecido ainda mais recursos.

“Esse ciclo de feedback pode, por sua vez, ter permitido a evolução de cérebros ainda maiores e maior capacidade craniana nos Homo posteriores, levando ao H. sapiens“, concluiu a equipe.

Esta pesquisa foi publicada no PNAS.