Os humanos modernos saíram do continente africano 50 mil anos antes do que se pensava, indicam fósseis

Um pedaço de maxilar encontrado em Israel é o fóssil humano mais antigo que foi encontrado fora do continente africano. Os ossos, pertencentes a um Homo sapiens que viveram entre 200.000 e 175.000 anos atrás, indicam que nossas espécies deixaram a África e começaram a conquistar o resto do mundo muito antes do que se pensava anteriormente. Vários pesquisadores espanhóis participaram do estudo.

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Imagem: Rolf Quam.

Por Adeline Marcos
Publicado na SINC

A caverna de Misliya em Israel, um dos locais pré-históricos que se localizam no Monte Carmelo, escondeu os ossos humanos mais antigos encontrados fora da África. Os registros fósseis encontrados até agora indicavam que o Homo sapiens aventurou-se para fora do continente africano há cerca de 100 mil anos. Mas a nova descoberta pode ajudar a compreender uma parte da história da evolução humana.

De acordo com os três métodos independentes de datação que foram usados, o fóssil tem entre 200.000 e 175.000 anos de idade.

Uma grande equipe internacional de cientistas, liderada pela Universidade de Tel Aviv em Israel, descobriu um pedaço do maxilar superior contendo vários dentes que pertenciam a um dos primeiros Homo sapiens que deixaram a África. De acordo com os três métodos independentes de datação que foram usados, o fóssil tem entre 200.000 e 175.000 anos de idade.

O estudo, publicado na Science no dia 25, sugere que os humanos começaram a conquistar o mundo cerca de 50 mil anos antes do que se pensava anteriormente.

“Nos textos clássicos sobre a evolução humana relata-se que a história de nossa espécie é uma história bastante recente e exclusivamente africana. No entanto, a descoberta de Misliya revela que a história da origem do H. sapiens e, acima de tudo, a sua exitosa dispersão e conquista do planeta começou há pelo menos 60 mil anos”, diz María Martiñón-Torres ao Sinc, coautora do trabalho e diretora do Centro Nacional de Pesquisa sobre Evolução Humana (CENIEH).

Embora as características do maxilar pertençam aos humanos modernos, existem também características e padrões encontrada em outras espécies humanas, como neandertais ou outros grupos. “Um dos desafios neste estudo foi identificar as características em Misliya que são encontradas apenas em seres humanos modernos. Estes são os traços que fornecem o indício mais claro da espécie que representa o fóssil de Misliya”, diz Rolf Quam, co-autor e pesquisador da Universidade de Binghamton (EUA).

A equipe, que também contou com a participação de Juan Luis Arsuaga do Centro UCM-ISCIII de Evolução e Comportamento Humano e José María Bermúdez de Castro do CENIEH, entre outros pesquisadores espanhóis, comparou a anatomia do fóssil de forma “detalhada e exaustiva” com o de uma grande amostra de fósseis europeus, africanos e asiáticos dos últimos dois milhões de anos.

Mandíbula fossilizada encontrada na caverna de Misliya. (Créditos pela imagem: Israel Hershkovitz)
Maxilar fossilizado encontrada na caverna de Misliya. (Imagem: Israel Hershkovitz)

“Esta comparação foi feita através da análise de características e medidas convencionais, mas também através da análise de forma tridimensional graças à aplicação de técnicas de imagem, como a microtomografia axial computadorizada. A conclusão é que a morfologia do fóssil encontrado em Israel é claramente moderna e está fora da variabilidade de neandertais e outros homininos arcaicos”, explica Martiñón-Torres.

Caçadores saindo da África

Além dos fósseis, os cientistas encontraram ferramentas de pedra perto do sítio que foram construídas de acordo com uma técnica muito sofisticada chamada Levallois. É a primeira associação conhecida desta tecnologia com fósseis de humanos modernos nesta região, de modo que os pesquisadores relacionam a presença dessa técnica com a chegada do Homo sapiens nesta área.

O uso dessas ferramentas indica que os habitantes da caverna de Misliya eram hábeis caçadores de grandes presas.

O uso dessas ferramentas indica que os habitantes da caverna de Misliya eram hábeis caçadores de grandes presas, controlavam a produção de fogo e tinham em sua posse um kit de ferramentas de pedra típico do Paleolítico Inferior, semelhante aos encontrados juntos com os primeiros humanos modernos da África.

“Cerca de 180 mil anos atrás, havia uma população em Israel com uma anatomia e cultura semelhante à dos primeiros humanos modernos da África. É uma população de caçadores de grandes presas, como uros e gazelas, com ferramentas sofisticadas e controle perfeito do fogo”, ressalta o diretor da CENIEH.

Embora os fósseis mais antigos do Homo sapiens tenham sido encontrados no sítio de Jebel Irhoud (Marrocos), para os pesquisadores, as rotas migratórias que os humanos modernos usaram para sair da África e o período da migração são fundamentais para entender a evolução de nossa espécie.

Nesse sentido, a região do Oriente Médio representa um importante caminho para migrações de hominídeos durante o Pleistoceno. Esta área foi ocupada em tempos diferentes por humanos modernos e neandertais.

Localização das ferramentas e fósseis encontrados em Misliya (200,000-175,000 anos) e Jebel Irhoud (315,000 anos). [Créditos: Rolf Quam/Universidade Binghamton]
Localização das ferramentas e fósseis encontrados em Misliya (200,000-175,000 anos) e Jebel Irhoud (315,000 anos). [Imagem: Rolf Quam/Universidade Binghamton]

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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