Humanos não apenas alteraram a aparência dos cães – nós também alteramos a estrutura de seus cérebros

Créditos: Getty Images / Oszkár Dániel Gáti.

Por Eva Frederick
Publicado na Science

Nos milhares de anos em que vivemos com cães, transformamos lobos temíveis em fofos apanhadores de frisbees que abanam a cauda e variam em tamanho, desde pequenos pomeranos até grandes dinamarqueses. Agora, um novo estudo com varredura cerebral em cães sugere que nosso impacto em nossos amigos caninos tem sido ainda mais profundo: nós mudamos a própria estrutura de seus cérebros.

“Este é realmente um trabalho novo e empolgante”, diz Daniel Horschler, psicólogo comparativo da Universidade do Arizona em Tucson, que estudou a evolução do cérebro de cães, mas que não estava envolvido no trabalho atual. “Os cães não tinham sido realmente estudados dessa forma antes”.

Para conduzir a pesquisa, Erin Hecht, neurocientista da Universidade Harvard (e cuidador de dois pastores australianos), e seus colegas reuniram uma biblioteca com exames de ressonância magnética de 62 cães de raça pura de 33 raças diferentes. Assim que ela viu as imagens alinhadas uma ao lado da outra, “você podia simplesmente ver os resultados olhando para você”, diz ela. Os cães, que incluíam bichon frisés, labradores retrievers e muito mais, tinham uma variedade de formas e tamanhos de cabeça. Contudo, nenhuma dessas coisas por si só poderia explicar a variação na estrutura dos cérebros dos cães.

Hecht e sua equipe identificaram seis redes de regiões cerebrais que tenderam a ser maiores ou menores de cão para cão e variavam em conjunto. O padrão levou Hecht a pensar que essas regiões provavelmente estavam trabalhando juntas em diferentes comportamentos. Ela se perguntou se as diferentes estruturas poderiam ser por causa das diferenças comportamentais entre as raças. O beagle pode farejar tumores cancerígenos em humanos e informar os médicos, por exemplo, e um border collie pode agrupar centenas de ovelhas (ou até perus) em um recinto com velocidade e agilidade notáveis.

Sua equipe analisou como as seis redes diferiam entre os cães com base nas características para as quais foram criadas, conforme definido pela American Kennel Club.

Cada uma das seis redes cerebrais se correlacionou com, pelo menos, uma característica comportamental, relatam os pesquisadores no Journal of Neuroscience. Boxers e dobermans – às vezes utilizados como cães policiais – mostraram diferenças significativas em relação a outras raças na rede que estavam ligadas à visão e ao olfato, por exemplo. Cães criados para lutas esportivas mostraram mudanças na rede que representam respostas de medo, estresse e ansiedade.

Hecht estava particularmente interessada nas diferenças entre os cães criados para a caça à vista e os que caçam por odor. Os cães especializados em caça por odor mostraram diferenças não nas regiões iniciais do cérebro que detectam cheiros, mas nas áreas mais sofisticadas que ajudam os cães a entenderem e comunicarem essas informações, o que fazia sentido para Hecht. “Eu já ouvi treinadores que trabalham com cães de caça dizerem que não é necessário treinar um cachorro para sentir o cheiro de algo”, diz ela. “Você só tem que treiná-los para denunciá-lo”.

Uma desvantagem de seu estudo, diz Hecht, é que todos os cães examinados foram cães de estimação, não cães de trabalho. “É incrível que possamos ver essas diferenças em seus cérebros, mesmo que eles não estejam desempenhando ativamente os comportamentos”.

Ela também diz que suas descobertas podem ter outras implicações. O fato de que estamos alterando tanto as espécies ao nosso redor que até afeta sua estrutura cerebral é “profundamente impactante”, diz Hecht. “Eu acho que é uma chamada para ser responsável sobre como estamos fazendo isso e como estamos tratando os animais que fizemos isso”.

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