Introdução à Filosofia da Biologia

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A biologia possui importância crescente na nossa vida cotidiana através das biotecnologias, sejam por antibióticos, pesticidas, bebidas alcoólicas, combustíveis, variedades vegetais melhoradas por engenharia genética (transgenia) etc. A filosofia da biologia é uma disciplina de interesse crescente, que se consolidou entre o final dos anos 60 e começo dos 70, como um ramo da filosofia da ciência. Ela toma como objeto de análise os pressupostos metodológicos e problemas conceituais da biologia.

Podemos encontrar antecedentes dessa disciplina nas reflexões de Aristóteles sobre os seres vivos, nas obras de filósofos e biólogos, como Georges Louis Leclerc, Immanuel Kant, George Cuvier, Etienne Geofroy St. Hilarie, Charles Lyell, William Whewell. Trata-se no fim das contas, de responder a perguntas: O que é a vida? O que são os genes? Eles influenciam na nossa conduta? Em que consiste exatamente a evolução por seleção natural? É incompatível a sua aceitação com a manutenção da crença em Deus? A ciência pode explicar tudo o que é relevante ao ser humano usando apenas princípios físico-químicos?  Como se encaixa em tudo isso, a mente humana?

O desenvolvimento da disciplina significou uma mudança no quadro de questões que ocupavam agenda da filosofia da ciência centrada na física, no século XX. As questões dominantes da filosofia da biologia, não diz respeito a especificidade do método científico frente a outras formas de obter conhecimento, as características distintivas das teorias cientificas, com atenção especial a sua estrutura formal. Mas sim, aos aspectos que estão ligados à própria investigação biológica, como o conceito de espécie e de adaptação, a discussão sobre a possibilidade de um progresso através da Evolução, a determinação das unidades ou níveis em que age a seleção natural, o problema de validade cientifica da sociobiologia.

No entanto, ela também se preocupa com problemas que envolvem outras disciplinas cientificas, como o clássico problema do papel do azar frente a necessidade de evolução da vida, a legitimidade do reducionismo, a cientificidade das explicações teológicas, o significado dos termos “informação”, “código”, “mensagem”, “tradução” e outros relacionados à genética, a origem evolutiva da mente e da conduta moral etc.

Mas o que a biologia tem a oferecer a filosofia? E o que a filosofia tem a oferecer a biologia? O desenvolvimento da biologia tem sido muito útil para resolver alguns tópicos que prevalecem na discussão filosófica cientifica. O desenrolar da Teoria Sintética da Evolução nos anos 20 e 30, que integra a genética mendeliana ao darwinismo, proporcionou a biologia uma sólida base teórica e conceitual, cuja utilidade foi estendida a outras disciplinas. Esses avanços geraram problemas conceituais e metodológicos de relevância tanto para o biólogo, como para o filósofo. Determinados problemas da biologia são suscetíveis a um enfoque interdisciplinar e as ferramentas analíticas e conceituais dos filósofos tem mostrado ser de grande utilidade. Pode se dizer que esses problemas são tão biológicos como filosóficos.

Como é o caso por exemplo, do problema do determinismo frente ao livre arbítrio, ou se cabe atribuir a certos processos naturais uma direção com um fim. Por outro lado, há certos aspectos que são filosóficos, como tratar da distinção precisa entre classes e indivíduos para determinar se as espécies biológicas são um ou outro. A biologia também pode beneficiar-se da discussão dos problemas empíricos conceituais da filosofia, como o problema das unidades da seleção natural, da possibilidade da redução das explicações biológicas a explicações pertencentes a biologia molecular, da bioquímica ou da genética, da explicação da conduta altruísta, ou em que medida as ideias recentes da biologia são compatíveis com a teoria sintética da evolução. A isso tem-se que acrescentar o interesse que pode ter o biólogo na elucidação das características próprias da biologia como ciência, assim como sua estrutura lógica e de quanto testável são suas teorias.

É comum vermos por aí a separação entre filosofia e ciência, como dois ramos distintos do conhecimento que para muitos, não se intercalam. Porém, quando os filósofos da biologia se ocupam desses assuntos, suas contribuições têm servido para o próprio avanço teórico da biologia.

Referências:

  • DIÉGUEZ, A., La vida bajo escrutinio. Una introducción a la filosofía de la biologia, 2012.
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