Investigando o poder da oração

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Enquanto houver religião, haverá preces e orações. Afinal, o que seria do conceito de religar o indivíduo ao divino sem uma via de contato espiritual?

Na mão de oportunistas, fé é negócio lucrativo. No entanto, quando sincera, ela tem o poder de impelir o Criador do Universo a tomar parte de assuntos mundanos, que incluem desde queixas banais até cultos de louvor e gratidão aos céus. Alguns teólogos defendem o sentimento ecumênico de que orar o Pai Nosso ou a surat al-fatiha é capaz de unir o espírito humano ao mesmo ser superior. Ou seja, tanto faz se prosternar aos deuses gregos ou a Jeová, o mais importante é ter um soberano a quem servir. Isso pressupõe que todas as culturas religiosas, até as mais conflituosas e díspares, são produtos de uma única e inescrutável verdade universal.

Mas a estrada para o sobrenatural é íngreme e repleta de contradições. Nenhum cristão ou hindu se preocupa em visitar Jerusalém para orar a Deus no Muro das Lamentações, como freneticamente fazem os judeus. Os católicos, por exemplo, colecionam santos esculturais que intercedem por seus fieis, algo que os evangélicos vilipendiam e consideram demoníaco. Preocupam-se com o deus do vizinho só para insultá-lo, jamais para prestar-lhe honra e glória. Experimente soltar ladainhas numa mesquita cheia de jihadistas: talvez eu esteja enganado, mas nem todos os anjos do paraíso salvarão seu lindo pescoço.

Não sabemos se o trono celestial está vazio ou ocupado por Alá, Marduk ou Brahma, – eu, por exemplo, posso apostar que não existe trono nenhum –, mas é fato curioso que a prece sirva também como fonte de panaceia para bilhões de pessoas ao redor do mundo. Afirmar que a oração tem poderes de cura mágica é algo que chama a atenção da medicina. Quantas vidas poderiam ser salvas se clamássemos socorro à divindade certa? Isso encorajou centenas de cientistas a investigarem se existe alguma relação de causa e efeito entre uma prece e o estado de saúde do paciente que a recebe. A maior e mais rigorosa pesquisa já realizada – que custou cerca de 2,4 milhões de dólares – foi coordenada por Herbert Benson, cardiologista e diretor do Mind/Body Medical Institute, no Massachusetts. Em um teste duplo-cego, Benson analisou o quadro clínico de quase 1800 pessoas que estavam sob tratamento cardiológico de ponte de safena, dividindo-as em três grupos: no grupo A, os participantes foram informados de que receberiam orações intercessoras vindas de diversas instituições religiosas. Os membros do grupo B, sem saberem de nada vezes nada, também foram contemplados. Somente o grupo o C não recebeu o amparo espiritual relacionado à pesquisa. Orações voluntárias de familiares e amigos, que certamente aconteceram, estiveram foram de controle.

O resultado da pesquisa, publicado em 2006 no American Heart Journal, revelou que o grupo C, aquele que não foi alvo da fé alheia, sofreu 1% a menos de complicações clínicas do que a marca de 52% dos integrantes do grupo B. A verdadeira surpresa foi que 59% dos pacientes do grupo A, que sabiam estar sendo alvo de milhares de orações, tiveram um número maior de problemas pós-cirúrgicos. Os pesquisadores concluíram o seguinte: “a oração de intercessão não teve efeito sobre a recuperação livre de complicações da revascularização do miocárdio, mas a certeza de receber a oração de intercessão foi associada a uma maior incidência de complicações”. Ora, se existe um ser onisciente, onipresente e onipotente ouvindo os clamores que ecoam na Terra, esperaríamos que as curas milagrosas tivessem um efeito mais grandioso do que geralmente costumamos ver. Poderiam dizer que, caso o quadro clínico dos pacientes fosse gripe, tudo teria dado certo.

Demonstrada a ineficácia da oração, muitos cristãos se puseram na defensiva, insinuando que o poder da fé está além do alcance da ciência e da estatística, ou que, por razões misteriosas, Deus atende ao chamado de uns e se indispõe a ajudar outros. A relação pacífica entre fé e ciência começa a desabar quando as descobertas científicas não coincidem com os interesses das crenças religiosas. Se por um lado Deus nos impede de mensurar a influência das preces na vida prática, por outro ele sugere que devemos acreditar nas coisas sem ter bons motivos, ou pelos motivos errados. Eis uma péssima ideia para um cético e um livre-pensador.

Em sua obra O dicionário do diabo, Ambrose Bierce definiu a oração como “o pedido de que as leis da natureza sejam suspensas em benefício do solicitante; ele mesmo sendo confessadamente não merecedor”. Christopher Hitchens teve a mesma acidez e perspicácia quando disse que “o homem que reza acredita que deus dispôs as coisas todas erradas, mas também acha que pode instruir deus sobre como corrigir tudo”, e que as rezas parecem “cópias de um servo suplicante diante do monarca mal-humorado”. Há quem reconheça que suplicar a Deus não substitui a medicina, mas oferece esperança e conforto aos moribundos a definhar nos leitos de hospitais. Entretanto, isso não garante nenhum resultado positivo e tampouco torna a fé o único recurso capaz de consolar a dor humana. Chega de alimentar o medo da morte com superstições.

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