Mais dois tipos de coronavírus podem infectar pessoas, sugerem estudos

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Uma imagem microscópica eletrônica de um novo coronavírus canino isolado de uma criança na Malásia com pneumonia e cultivado em células caninas. Créditos: Centro de Imagem Molecular e Celular / Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Agrícola de Ohio / Universidade de Ohio.

Por Anthony King
Publicado na Science

Oito crianças hospitalizadas com pneumonia na Malásia há vários anos apresentaram evidências de infecções por um novo coronavírus semelhante ao encontrado em cães, relata uma equipe de pesquisa essa semana. Apenas sete coronavírus eram conhecidos por infectar pessoas, o último sendo o SARS-CoV-2, o responsável pela pandemia de COVID-19. A descoberta desse provável novo patógeno humano, junto com o relato de um caso de um coronavírus que parece ter saltado de porcos para pessoas há muitos anos, poderia expandir significativamente quais membros da família viral representam outra ameaça global.

“Acho que quanto mais olharmos, mais descobriremos que esses coronavírus estão cruzando entre espécies em todos os lugares”, disse Stanley Perlman, virologista da Universidade de Iowa que não esteve envolvido no novo trabalho.

Os pesquisadores não ligaram definitivamente nenhum dos novos vírus a doenças humanas. E não há evidências de que os dois novos coronavírus possam ser transmitidos entre pessoas – cada infecção pode ter sido um salto isolado de um hospedeiro não humano para uma pessoa. Mas muitos pesquisadores temem que os vírus possam desenvolver essa habilidade em uma pessoa ou nos animais que eles normalmente infectam. Uma sequência completa do genoma do vírus encontrada em um paciente da Malásia, relatada essa semana no Clinical Infectious Diseases, revela uma quimera de genes de quatro coronavírus: dois coronavírus caninos previamente identificados, um conhecido por infectar gatos e o que parece ser um vírus de porco.

Este é o primeiro relatório sugerindo que um coronavírus canino pode se replicar em pessoas, e mais estudos serão necessários para confirmar a capacidade. Os pesquisadores cultivaram o vírus em células tumorais de cães, mas ainda não em células humanas.

Ao contrário do SARS-CoV-2 e de outros coronavírus humanos conhecidos, “não temos nenhuma evidência clara de que esta cepa de [coronavírus] em particular seja melhor adaptada a humanos por causa de sua estrutura spike”, disse a virologista veterinária Anastasia Vlasova, da Universidade Estadual de Ohio (OSU), em Wooster (EUA), autora principal do estudo. As infecções humanas por coronavírus caninos podem ocorrer “com uma frequência muito maior do que pensávamos anteriormente”, acrescenta ela. Este vírus em particular pode não ser transmitido entre pessoas, mas não temos certeza disso, alerta Vlasova.

As oito crianças cujas amostras de tecido foram estudadas por Vlasova e seus colegas viviam principalmente em casas tradicionais ou vilas na zona rural ou suburbana de Sarawak em Bornéu, onde provavelmente tiveram exposição frequente a animais domésticos e a vida selvagem. Elas estavam entre 301 pacientes com pneumonia hospitalizados durante 2017-18 e os pesquisadores examinaram suas amostras de nasofaringe – tecido da parte superior da garganta – para uma grande variedade de coronavírus humanos e não humanos.

Os diagnósticos hospitalares padrão para pneumonia ou outra doença respiratória não teriam detectado coronavírus de cães e gatos. Ninguém tinha procurado esses vírus em pacientes com essas doenças até recentemente. “Esses coronavírus caninos e felinos estão em todo o mundo”, disse Perlman.

Toda a nova sequência de vírus das amostras das crianças mais se assemelha a um coronavírus canino. No entanto, a sequência de sua proteína spike, que se liga aos receptores da célula hospedeira para iniciar uma infecção, está intimamente relacionada à sequência spike do coronavírus canino tipo I e a de um coronavírus suíno conhecido como vírus da gastroenterite transmissível (TGEV). E uma parte da proteína spike tem 97% de semelhança com a spike de um coronavírus felino.

É improvável que essa quimera tenha surgido de uma só vez, mas envolveu a repetição da reorganização genética entre diferentes coronavírus ao longo do tempo. “Este é um mosaico de várias recombinações diferentes, acontecendo continuamente, quando ninguém está olhando. E então bum, você tem essa monstruosidade”, disse o virologista Benjamin Neuman, da Universidade do Texas A&M, College Station (EUA).

O animal que realmente transmitiu o novo vírus às pessoas poderia ter sido um gato, porco, cachorro, “ou alguns carnívoros selvagens”, disse Vito Martella, virologista veterinário da Universidade de Bari, na Itália. Ele planeja examinar amostras fecais armazenadas de crianças italianas com gastroenterite aguda para ver se consegue encontrar algo semelhante.

Os pesquisadores já sabiam que três subtipos de coronavírus caninos se misturam facilmente com coronavírus felinos e suínos. “O que é mais surpreendente é que esses vírus [de animais] podem realmente causar doenças em uma pessoa”, disse Perlman, porque seria de se esperar que faltassem alguns dos genes importantes para uma adaptação adequada às pessoas.

Sete das oito crianças cujos tecidos abrigavam sequências do vírus eram menores de 5 anos, e quatro delas eram bebês, a maioria de grupos étnicos indígenas. Cada uma ficou hospitalizada por 4 a 7 dias e se recuperou.

Os cientistas dividem os coronavírus em quatro gêneros – alfa, beta, gama e delta – e o novo é um alfa. É o terceiro coronavírus alfa a infectar pessoas; os outros dois causam resfriados comuns, e a maioria das pessoas é exposta a eles no início da vida. Esse padrão pode explicar por que apenas crianças ficaram doentes com esse novo. Ralph Baric, um virologista da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill (EUA), sugere que os adultos podem ter alguma imunidade ao recém-descoberto coronavírus alfa por causa da exposição repetida aos outros dois.

Até agora, os coronavírus humanos mais perigosos – SARS-CoV-1, SARS-CoV-2 e MERS-CoV – são os betas. Os pesquisadores não viram os alfas desencadearem um surto de doenças graves em humanos, disse Neuman, “mas isso não parece muito consolador no mundo selvagem dos vírus”.

Em março, pesquisadores da Universidade da Flórida (EUA) relataram em uma pré-publicação do medRxiv a primeira evidência de um coronavírus delta advindo de porcos que infecta pessoas, no soro de três crianças haitianas que tiveram febre em 2014-15. Os pesquisadores transferiram amostras de soro para células de macaco e foram capazes de desenvolver vírus que combinavam, geneticamente, com coronavírus suínos conhecidos. (O trabalho foi submetido a uma revista revisada por pares.)

Antigamente, pensava-se que os coronavírus delta infectavam apenas pássaros. Então, em 2012, um coronavírus delta infectou suínos em Hong Kong. Ele “parece ter saltado de pássaros canoros”, disse a coronavirologista da OSU Linda Saif, que isolou o vírus em culturas de células suínas.

O mesmo vírus causou um grande surto de doença diarreica fatal em leitões nos Estados Unidos em 2014. Desde então, foi demonstrado que infecta linhagens celulares de humanos, porcos e galinhas; estudos de laboratório demonstraram que o vírus causa infecção persistente e doenças diarreicas quando colocado nas aves. “Se formou por conta própria, um vírus único que infecta espécies de aves e mamíferos”, disse Baric. “Não há nenhum outro coronavírus que eu conheça que possa fazer isso”.

Alguns virologistas rotularam o coronavírus delta de Hong Kong como uma ameaça de pandemia. O vírus haitiano difere consideravelmente e os virologistas querem testar crianças e adultos locais em busca de anticorpos. Se sua capacidade de infectar pessoas for confirmada, também pode ser vista como uma ameaça de pandemia, disse Saif.

Juntos, os dois relatórios apontam para a importância das doenças animais na saúde pública e a necessidade de vacinas contra o coronavírus para animais domésticos. “Esta pesquisa mostra claramente que mais estudos são desesperadamente necessários para avaliar questões críticas sobre a frequência de transmissão cruzadas entre espécies [por coronavírus] e o potencial de propagação entre humanos”, disse Baric.

Gregory Gray, da Universidade Duke (EUA), autor sênior do estudo do coronavírus quimérico da Malásia, também defende a vigilância entre pacientes com pneumonia em áreas conhecidas por serem focos de novos vírus ou lugares onde grandes populações de animais e humanos se misturam, como mercados de animais vivos e grandes fazendas. “Essas repercussões levam anos”, disse Gray. “Não é como nos filmes. Eles passam por diferentes etapas para infectar humanos”. Até o momento, as indicações são de que o vírus quimérico não evoluiu para se transmitir de forma eficiente entre as pessoas.