Um guia de campo para o pensamento crítico

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Créditos: Pexels / Pixabay.

Por James Lett
Publicado na Skeptical Inquirer

Tradução de Misael Braz Gomes

Há hoje muitas razões para a popularidade de crenças paranormais nos Estados Unidos da América, incluindo: (1) a irresponsabilidade dos meios de comunicação de massa, que se aproveitam do gosto do público por bobagens; (2) a irracionalidade da cosmovisão americana, que apoia afirmações infundadas tais como a vida após a morte e a eficácia do polígrafo; e (3) a ineficiência da educação pública, que geralmente fracassa ao não ensinar habilidades essenciais de pensamento crítico aos estudantes. Como professor universitário estou especialmente preocupado com o terceiro problema. A maioria dos calouros e segundanistas de minhas turmas simplesmente não sabem como tirar conclusões razoáveis a partir das evidências. Durante o ensino médio eles foram, no máximo, ensinados o que pensar; poucos sabem como pensar.

Na tentativa de sanar esse problema em minha faculdade, desenvolvi um curso eletivo intitulado “Antropologia e o Paranormal”. O curso analisa a gama completa de crenças paranormais na cultura americana contemporânea, desde a precognição e psicocinese até canalizações e criptozoologia e tudo o que houver no meio e além, incluindo astrologia, óvnis e criacionismo. Ensino aos estudantes muito pouco sobre teorias antropológicas e menos ainda sobre terminologias antropológicas. Em vez disso, tento comunicar-lhes a essência da perspectiva antropológica ao ensinar-lhes indiretamente os conceitos fundamentais do método científico. Faço isso ensinando-lhes como avaliar evidências. Lhes dou seis regras simples a seguir quando estão refletindo sobre qualquer alegação e, então, lhes mostro como aplicar essas seis regras à análise de qualquer alegação paranormal.

As seis regras de raciocínio evidencial são minha própria destilação e simplificação do método científico. Para que os estudantes se lembrem facilmente dessa meia-dúzia de diretrizes, cunhei um acrônimo para elas: ignorando as vogais, as letras na palavra “FiLCHeRS” representam as seguintes regras: Falseabilidade, Lógica, Completude, Honestidade, Replicabilidade e Suficiência. Digo a meus alunos: apliquem essas regras às evidências fornecidas para apoiar qualquer afirmação e ninguém poderá passar-lhes a perna. Vocês estarão blindados contra embustes.

Falseabilidade

Deve ser possível conceber evidências que provariam a alegação como sendo falsa.

Pode soar paradoxal, mas para que qualquer afirmação seja verdadeira, ela deve ser falseável. A regra de falseabilidade garante que caso a alegação seja falsa, as evidências prová-la-ão como sendo falsa; e se a alegação for verdadeira, as evidências não a refutarão (nesse caso, a alegação poderá ser provisionalmente aceita como verdadeira até que se produzam evidências que a refute). A regra de falseabilidade, em resumo, afirma que evidências são importantes, e assim sendo, é fundamentalmente a primeira e mais importante regra de raciocínio evidencial.

A regra de falseabilidade é essencial por essa razão: se nada concebível poderia jamais refutar a alegação, então as evidências que sim existem não importariam; seria até mesmo inútil analisar as evidências porque já se saberia a conclusão – a alegação é invulnerável a qualquer evidência possível. Isso não significaria, entretanto, que a alegação é verdadeira; em vez disso, significaria que a alegação é desprovida de sentido.  As coisas assim o são porque é impossível – logicamente impossível – que qualquer alegação seja verídica independentemente do que ocorra. Você sempre será capaz de conceber, para toda alegação verdadeira, evidências que a tornaria falsa – em outras palavras, uma vez mais, toda alegação verdadeira é falseável.

Por exemplo, a afirmação autêntica de que a expectativa de vida dos seres humanos é menor que 200 anos é falseável; seria falseada se um único ser humano vivesse até os 200 anos. Similarmente, a afirmação verídica de que a água congela a 0oC é falseável; seria falseada se a água congelasse a, digamos, 2oC. Cada uma dessas afirmações é firmemente estabelecida como um “fato” científico, e não esperamos que qualquer uma delas seja algum dia falseada; entretanto, o que trato de dizer é que qualquer uma delas poderia ser. Qualquer afirmação que não possa ser falseada seria desprovida de qualquer conteúdo proposicional; isto é, não faria uma asserção factual – seria, em vez disso, um enunciado emotivo; uma declaração de como o orador se sente em relação ao mundo. Afirmações não falseáveis são sim capazes de transmitir informações, mas o que descrevem é a orientação de valores do orador. Elas não transmitem absolutamente nada de uma natureza factual e, portanto, não são nem verdadeiras nem falsas. Afirmações não falseáveis são destituídas de proposições inteligentes.

A regra de falseabilidade pode ser violada de duas principais maneiras – em outras palavras, é possível fazer alegações não falseáveis de duas formas. A primeira variedade de afirmações não falseáveis é a alegação não declarada: uma afirmação que é tão ampla ou vaga que não possui nenhum conteúdo proposicional. A alegação não declarada é basicamente ininteligível e, consequentemente, desprovida de sentido. Considere, por exemplo, a alegação de que cristaloterapeutas podem usar pedaços de quartzo para restaurar a estabilidade e a harmonia à energia espiritual de uma pessoa. O que significa ter energia espiritual desestabilizada? Como tal condição é reconhecida e diagnosticada? Quais evidências provariam que a energia espiritual de alguém foi ou não estabilizada pela aplicação da cristaloterapia? A maioria dos prodígios da Nova Era consistem, na verdade, de alegações igualmente não declaradas que se dissolvem completamente quando expostas ao solvente da racionalidade.

A vantagem da alegação não declarada é que praticamente qualquer evidência que pudesse ser apresentada poderia ser julgada como congruente com a alegação, e por essa razão é especialmente popular entre paranormalistas que alegam ter poderes de precognição. Jeane Dixon, por exemplo, prognosticou que 1987 seria um ano “repleto de mudanças” para Caroline Kennedy. Dixon também prognosticou que Jack Kemp “enfrentaria graves desavenças com o restante do seu partido” em 1987 e que “o narcoterrorismo mundial” seria “desencadeado pelos czares dos narcóticos” no mesmo ano. Ela revelou, além disso, que Dan Rather “poderia [ou não] ser hospitalizado” em 1988, e que o “maior problema” de Whitney Houston em 1986 seria “equilibrar sua vida pessoal e sua carreira.” A alegação não declarada se resume a uma afirmação que pode ser traduzida como “O que será, será.”

A segunda variedade de afirmações não falseáveis, que é ainda mais popular entre paranormalistas, envolve o uso de múltiplas saídas, isto é, uma inexaurível série de desculpas para justificar a evidência que pareceria falsear a alegação. Os criacionistas, por exemplo, alegam que o Universo não tem mais que 10.000 anos. Assim o fazem apesar do fato de podermos observar estrelas que estão a bilhões de anos-luz da Terra, o que significa que a luz deve haver deixado essas estrelas há bilhões de anos, o que prova que o Universo deve ter bilhões de anos. Como, então, os criacionistas respondem ao falseamento de sua alegação? Sugerindo que Deus deve haver criado a luz já no caminho desde aquelas distantes estrelas no momento da criação há 10.000 anos. Nenhuma evidência concebível poderia refutar tal alegação.

Exemplos adicionais de múltiplas saídas sobejam nos domínios do paranormal. Seguidores de óvnis, quando confrontados com a falta de confiáveis evidências físicas ou fotográficas que reforçariam suas alegações, apontam para uma “conspiração governamental” secreta que está supostamente impedindo a publicação de provas que sustentariam seu argumento. Curandeiros parapsíquicos dizem que podem curar-lhe se você possuir fé o suficiente em seus poderes paranormais. Os que alegam ter poderes psicocinéticos afirmam poder entortar colheres com a mente, contanto que não estejam expostos a vibrações negativas de observadores céticos. Leitores de tarô podem prever seu destino se seu desejo por conhecimento for sincero. As múltiplas saídas significam, para todos os efeitos, “Cara eu ganho, coroa você perde”.

Lógica

Qualquer argumento proposto para corroborar qualquer tese deve ser sólido.

Um argumento é considerado “válido” se sua conclusão segue necessariamente de suas premissas; é “sólido” se é válido e se todas suas premissas são verdadeiras. As leis da lógica assim governam a validez da conclusão. Embora filósofos hajam codificado e designado as várias formas de argumentos válidos, não é necessário especializar-se em lógica formal para aplicar regras de inferência de modo consistente e correto. Um argumento inválido pode ser reconhecido pelo simples método de contraexemplo; se você pode conceber uma única ocasião imaginável na qual a conclusão não seguiria necessariamente das premissas mesmo se as premissas forem verdadeiras, então o argumento é inválido. Considere, por exemplo, o seguinte silogismo: Todos os cães têm pulgas; Xavier tem pulgas; logo, Xavier é um cão. Esse argumento é inválido porque um único felino infestado de pulgas chamado Xavier proporcionaria um contraexemplo eficaz. Se um argumento é inválido, então não pode ser, por definição, sólido. Entretanto, nem todos os argumentos válidos são sólidos. Considere este exemplo: Todos os cães têm pulgas; Xavier é um cão; logo, Xavier tem pulgas. Esse argumento não é sólido, mesmo que seja válido, porque a primeira premissa é falsa: Nem todos os cães têm pulgas.

Determinar se um argumento válido é sólido é frequentemente problemático; saber se dada premissa é verdadeira ou falsa quase sempre requer conhecimento adicional sobre a alegação, o que pode exigir uma investigação empírica. Não obstante, se o argumento passa por esses dois testes – se for tanto válido como sólido – então, a conclusão pode ser aceita com convicção.

As leis da lógica são frequentemente violadas por pseudocientistas. Erich von Däniken, que por si só popularizou a mitologia dos antigos astronautas nos anos 70, escreveu muitos livros nos quais expunha argumentos inválidos e inconsistentes com uma entorpecente regularidade (confira Omohundro 1976). Em Eram os Deuses Astronautas? ele era até mesmo capaz de apresentar argumentos que eram tanto logicamente inválidos como factualmente inexatos – em outras palavras, argumentos duplamente inconsistentes. Por exemplo, von Däniken argumenta que o mapa-múndi elaborado por Piri Reis (almirante turco do século XVI) era tão “espantosamente preciso” que somente poderia haver sido elaborado com imagens de satélite. Não só o argumento é inválido (qualquer número imaginável de técnicas além das imagens de satélite poderia resultar em um mapa “espantosamente preciso”), mas a premissa é simplesmente equivocada – o mapa de Piri Reis, na realidade, contém muitas falhas óbvias (confira Story, 1977).

Completude

O conjunto de evidências proporcionado como base para qualquer alegação deve ser abrangente – isto é, todas as evidências disponíveis devem ser consideradas.

Por razões óbvias, nunca é aceitável levar em consideração apenas as evidências que respaldem a teoria e descartar as evidências que a refutem. Essa regra é clara, inegável e requer poucas explicações ou justificativas. Apesar disso, é uma regra frequentemente violada por proponentes de alegações paranormais e por aqueles que professam crenças no paranormal.

Por exemplo, proponentes da teoria do biorritmo gostam de citar acidentes aéreos que ocorreram em dias quando o piloto, copiloto e/ou o navegador estavam passando por fases criticamente más em seus ciclos intelectuais, emocionais e/ou físicos. As evidências levadas em conta pelos apologistas do biorritmo, entretanto, não incluem o número ainda maior de acidentes aéreos que ocorreram quando os tripulantes passavam por fases boas ou neutras em seus ciclos biorrítmicos. (Hines 1988:160). Similarmente, quando as pessoas acreditam que Jeane Dixon tem habilidades precognição porque prognosticou  a vitória de George Bush em 1988 (o que ela fez, dois meses antes das eleições, quando todos os cientistas sociais, especialistas em mídia e cidadãos comuns prognosticavam o mesmo), elas normalmente ignoram as milhares de previsões feitas por Dixon que fracassaram em materializar-se (como a derrota de Kennedy em 1960, o início da Terceira Guerra Mundial em 1958, e a morte de Fidel Castro em 1969). Se você está disposto a ser seletivo quanto às evidências que leva em consideração, você poderia concluir, logicamente, que a Terra é plana.

Honestidade

As evidências apresentadas como base para qualquer alegação devem ser analisadas sem autoengano.

A regra de honestidade é um corolário à regra de Completude. Após haver examinado o conjunto completo de evidências, será preciso ser honesto consigo sobre o resultado dessa análise. Se o peso das evidências contradiz a alegação, então é necessário que você abandone a crença em tal alegação. O contrário também é, indubitavelmente, lógico.

A regra de honestidade, assim como a regra de completude, é frequentemente violada tanto por defensores como adeptos de crenças paranormais. Os parapsicólogos violam essa regra quando concluem que fenômenos parapsíquicos são simplesmente elusivos, mesmo que inúmeros testes subsequentes fracassem em replicar resultados inicialmente positivos de tais fenômenos. (Aplicando a navalha de Occam, a conclusão mais honesta seria que o resultado positivo original deve ter sido uma coincidência.) Os crentes no paranormal violam essa regra quando concluem, após observar um indivíduo com supostos poderes parapsíquicos entortar sorrateiramente uma colher com as mãos, que ele trapaceia somente algumas vezes.

Na prática, a regra de honestidade normalmente se resume a uma injunção contra a quebra da regra de falseabilidade através do uso de uma saída múltipla. Entretanto, é mais do que isso: a regra de honestidade significa que você deve aceitar a obrigação de deduzir uma conclusão racional uma vez que haja analisado todas as evidências. Se o peso esmagador de todas as evidências falseia sua crença, você deve concluir, então, que ela é falsa, e você deve encarar as implicações dessa conclusão com franqueza. Perante evidências extraordinariamente negativas, neutralidade e agnosticismo não são melhores que credulidade ou fé. Negação, tergiversação, racionalização e todos outros mecanismos conhecidos de autoengano constituem violações da regra de honestidade.

Ao meu ver, somente essa regra invalidaria praticamente a disciplina inteira de parapsicologia. Após mais de um século de pesquisas acadêmicas sistemáticas, a hipótese de fenômenos parapsíquicos continua completamente infundada e sem substância; como observa Ray Hyman (1985:7), parapsicólogos “fracassaram em apresentar qualquer evidência consistente de paranormalidade capaz de resistir a um escrutínio científico aceitável”. Tudo parece indicar que o número de parapsicólogos que respeitam a regra de honestidade é ínfimo comparado ao número dos que se iludem. Eric Dingwall (1985:162), investigador veterano de fenômenos parapsíquicos, resumiu sua extensa experiência com pesquisas parapsicológicas com a seguinte observação: “Após sessenta anos de experiência e familiaridade com a maioria dos parapsicólogos proeminentes daquela época, acho que não seria capaz de citar os nomes de meia dúzia do que poderia considerar estudantes imparciais que desejavam honestamente buscar a verdade”.

Replicabilidade

Se as evidências para sustentar qualquer alegação tem como base resultados experimentais, ou se as evidências que dão suporte a uma alegação poderiam ser logicamente explicadas como coincidências, então é necessário que as evidências sejam replicadas em testes ou experimentos subsequentes. 

A regra de replicabilidade oferece uma garantia contra a possibilidade de erros, fraudes ou coincidências. Um único resultado experimental nunca é adequado por si só, esteja tal experimento relacionado à produção de fusão nuclear ou à existência de habilidades telepáticas. Qualquer experimento, por mais bem planejado e executado que seja, sempre estará sujeito à possibilidade de preconceitos implícitos e erros não detectados. A regra de replicabilidade demanda que observadores independentes sigam os mesmos procedimentos e obtenham os mesmos resultados, o que é uma maneira eficaz de corrigir erros ou preconceitos, mesmo que tais erros ou preconceitos continuem permanentemente ocultos. Se os resultados experimentais são produto de fraude deliberada, a regra de replicabilidade garantirá que o experimento seja eventualmente realizado por pesquisadores honestos.

Se o fenômeno em questão puder ser possivelmente o produto de uma coincidência, então o fenômeno deve ser replicado antes que a hipótese de coincidência possa ser rejeitada. Se a coincidência for de fato a explicação para o fenômeno, então o fenômeno não será duplicado nos testes subsequentes e a hipótese de coincidência será confirmada; não obstante, se coincidência não for a explicação, então o fenômeno poderá ser duplicado e outra explicação que não a coincidência deverá ser buscada. Caso eu consiga predizer corretamente qual número tirarei no meu próximo lance de dados, você deve exigir que eu duplique tal façanha antes de admitir que meu prognóstico foi outra coisa além de uma coincidência.

A regra de replicabilidade é regularmente violada por parapsicólogos, que possuem um grande apreço pela interpretação equivocada de coincidências. O famoso “médium detetive” Gerard Croiset, por exemplo, supostamente solucionou inúmeros crimes desconcertantes e localizou centenas de pessoas desaparecidas em uma carreira que durou 5 décadas, dos anos 40 até sua morte em 1980. A verdade é que a vasta maioria dos vaticínios de Croiset eram vagos, não falseáveis ou estavam simplesmente equivocados. Dado o fato de que Croiset fez milhares de predições durante sua vida, não é de surpreender que tenha conseguido um ou dois acertos por casualidade. Apesar disso, o falecido parapsicólogo holandês Wilhelm Tenhaeff aproveitou-se desses “raríssimos casos de êxito” para argumentar que Croiset havia conseguido demonstrar poderes parapsíquicos (Hoebens 1981a: 130). Essa foi uma clara violação da regra de replicabilidade e não poderia ter sido considerada como evidência das habilidades parapsíquicas de Croiset mesmo que esses “raríssimos casos de êxitos” tivessem sido verídicos. (Na realidade, muitos dos dados de Tenhaeff eram fraudulentos – confira Hoebens 1981b.)

Suficiência

As evidências proporcionadas como fundamento para qualquer alegação devem ser adequadas para estabelecer a veracidade de tal alegação, com as seguintes estipulações: (1) o ônus da prova para qualquer alegação recai sobre aquele que faz tal afirmação, (2) afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias, e (3) evidências baseadas em autoridades e/ou depoimentos serão sempre inadequadas para qualquer alegação paranormal.

O ônus da prova recai sempre sobre aquele que faz uma afirmação pela simples razão de que a ausência de evidências que a refute não é o mesmo que a presença de evidências que a comprove. Essa regra é frequentemente violada por proponentes de alegações paranormais quando declaram que, uma vez que suas alegações não foram refutadas, elas foram, portanto, confirmadas. (Entusiastas da ufologia, por exemplo, argumentam que, uma vez que céticos não têm conseguido explicar todos os avistamentos de óvnis, alguns avistamentos devem ser espaçonaves extraterrestres.) Considere as implicações desse tipo de raciocínio: se afirmo que Adolf Hitler está são, salvo e morando na Argentina, como você poderia refutar minha afirmação? Já que essa afirmação é logicamente possível, o melhor que você poderia fazer (na ausência de evidências forenses inequívocas) seria demonstrar que tal afirmação é altamente improvável – mas isso não a refutaria. O fato de você não puder provar que Hitler não está vivendo na Argentina, entretanto, não significa que eu provei que ele sim está. Somente significa que provei que ele poderia estar – mas isso significaria muito pouco; possibilidade lógica não é o mesmo que realidade comprovada. Se a ausência de evidências refutadoras fosse prova suficiente de uma alegação, então poderíamos “provar” qualquer coisa que imaginássemos. Acreditar em algo deve ser baseado não somente na ausência de evidências refutadoras, mas na presença de evidências ratificadoras. É dever de quem faz a afirmação fornecer evidências ratificadoras.

Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias pela óbvia razão de equilíbrio. Se afirmo que na última terça-feira choveu por dez minutos durante minha viagem ao trabalho, seria compreensível que você aceitasse tal afirmação como verídica baseando-se em meu relato. Mas se afirmo que fui abduzido por extraterrestres que me levaram até o lado oculto da Lua para que me fizessem experimentos médicos bizarros, seria compreensível que você exigisse evidências mais significativas. A evidência ordinária de meu depoimento, embora aceitável para afirmações ordinárias, não é aceitável para as extraordinárias.

Na verdade, depoimentos são sempre inadequados para qualquer alegação de fenômenos paranormais, seja ele proporcionado por uma autoridade ou pessoa leiga, pela simples razão de que um ser humano pode mentir ou cometer erros. A abundância de qualificações que possua um indivíduo, inobstante sua área de atuação, não é uma salvaguarda contra a falibilidade humana, e qualificações não inibem incentivos para mentir; portanto, as credenciais, a instrução e experiência de um indivíduo não podem, por si mesmas, ser consideradas evidências suficientes para determinar a autenticidade de uma alegação. Ademais, a sinceridade de uma pessoa não outorga nada à credibilidade de seu depoimento. Mesmo que um sujeito diga o que sinceramente acredita ser a verdade, sempre cabe a possibilidade de que esteja enganado. A percepção humana é um exercício seletivo, sujeito a crenças, contexto, expectativas, estados emocionais e bioquímicos e uma miríade de variáveis adicionais. A memória é infamemente problemática, suscetível a uma série de adulterações, supressões, substituições e acréscimos. Consequentemente, o depoimento que preste um indivíduo sobre o que lembra haver visto ou escutado deve sempre ser considerado como somente provisoriamente e aproximadamente preciso; quando um indivíduo fala sobre o paranormal, seu relato nunca deve ser considerado, por si só, como evidência fiável. As chances e até mesmo as probabilidades de equívoco são demasiado altas (Confira Connor, 1984).

Conclusão

As primeiras três regras do FiLCHeRS – falseabilidade, lógica e completude – são todas regras logicamente necessárias para o raciocínio evidencial. Para que tenhamos convicção na veracidade de uma alegação, seja ela de um evento normal ou paranormal, tal alegação deve possuir significado proposicional, e as evidências apresentadas como base devem ser coerentes e abrangentes.

As últimas três regras do FiLCHeRS – honestidade, replicabilidade e suficiência – são todas regras pragmaticamente necessárias para o raciocínio evidencial. Considerando que seres humanos são frequentemente:

  • motivados a racionalizar;
  • a mentir para si mesmos;
  • a ocasionalmente mentir para os outros;
  • suscetível a erros e
  • detentores de percepção e memórias não confiáveis.

Devemos exigir que as evidências apresentadas como base para qualquer alegação factual sejam:

  • substanciais;
  • inequívocas;
  • pertinentes;
  • analisadas sem autoengano e
  • cuidadosamente examinadas para evitar falhas e fraudes.

O que digo a meus estudantes, então, é que podem e devem aplicar as regras FiLCHeRS para analisar as evidências proporcionadas para qualquer alegação apresentada. Se a alegação for reprovada em qualquer um desses seis testes, deve ser então rejeitada; mas se passar por todos eles, então é lícito que seja depositada nela uma confiança considerável.

Passar por todos os seis testes não garante, naturalmente, que a alegação seja verdadeira (a análise de todas as evidências disponíveis hoje, não garante que não haverá novas evidências refutadoras disponíveis amanhã), mas garante que você possua boas razões para crer nela. Garante também que você vendeu a aceitação de uma ideia por um preço justo, e que não lhe passaram a perna.

Ser um adulto responsável significa aceitar o fato de que quase todo nosso conhecimento é provisional e significa aceitar isso com alegria. Pode ser que amanhã você deva mudar de ideia, se as evidências assim o justificarem, e você deve estar disposto e preparado para fazê-lo. Isso é, basicamente, o significado de ceticismo: acreditar se, e somente se, as evidências assim o justificarem.

Referências