Mercúrio é um planeta com cauda. Veja como isso é possível

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É um meteoro? É um cometa? Não, é Mercúrio! (Créditos: Jeff Baumgartner/Universidade de Boston)

Traduzido por Julio Batista
Original de Michelle Starr para o ScienceAlert

Os planetas do Sistema Solar se parecem muito com uma família. Júpiter é o pai mandão, mantendo todos na linha. Urano e Netuno são os gêmeos legais que só andam um com o outro. A Terra é o supernerd esforçado. Plutão é a ovelha negra. E Mercúrio tem uma cauda. Não, pera…

Sim. Quase como um grande e velho cometa, ele tem uma cauda fluindo a milhões de quilômetros de distância do planeta, brilhando com uma tênue luz laranja-amarelada.

Tudo graças à posição do planeta: Mercúrio é o planeta mais interno do nosso Sistema Solar. Está a menos da metade da distância de nossa estrela do que a Terra, uma distância média de 58 milhões de quilômetros.

A essa distância, o pequeno mundo denso e rochoso é constantemente banhado pela radiação solar e fustigado pelo vento solar.

“Aqui está Mercúrio e sua cauda de sódio em 4 de junho através de um refrator de 60 mm e um filtro passa-banda de 589,3/1,0 nm. A estrela identificada no canto inferior esquerdo é HIP 31650”, divulgou o estudante de ciências planetárias Qiсһеng Ζһаng em seu Twitter. (Créditos: Qiсһеng Ζһаng/Twitter)

Pelo fato de Mercúrio ter uma massa tão baixa – cerca de 5,5% da massa da Terra -, ele não é um planeta particularmente forte, gravitacionalmente falando. Nem seu campo magnético é particularmente forte: apenas 1% do da Terra.

Portanto, o planeta não tem o que poderíamos razoavelmente chamar de atmosfera. Em vez disso, ele tem uma fina exosfera composta principalmente de átomos de oxigênio, sódio, hidrogênio, hélio e potássio, influenciada pelo vento solar e pelo bombardeio de micrometeoroides. Essa exosfera está gravitacionalmente ligada ao planeta, mas muito difusa para se comportar como um gás.

Toda essa descrição para dizer que a superfície de Mercúrio tem pouca proteção contra a radiação solar e o vento solar.

Sabemos que a radiação solar exerce pressão. Nós até aproveitamos essa pressão para impulsionar uma espaçonave equipada com uma vela, de forma um pouco parecida com o vento impulsionando navios à vela. Essa pressão de radiação é o que dá aos cometas suas caudas.

À medida que os cometas se movem perto do Sol, o gelo dentro deles começa a se sublimar, levantando poeira ao escapar do corpo do cometa. A pressão da radiação solar empurra essa poeira em uma longa cauda, enquanto o gás é moldado pelos campos magnéticos embutidos no vento solar; é por isso que as caudas dos cometas sempre fluem para longe do Sol – não é o movimento que produz a cauda, ​​mas sua proximidade com a estrela.

Mercúrio tem gelo, mas não é disso que sua cauda é feita. O ingrediente principal são os átomos de sódio; estes brilham quando ionizados pela radiação ultravioleta do Sol, em um processo semelhante ao que impulsiona as auroras da Terra.

Como resultado, o planeta tem a aparência de um cometa, com uma cauda que foi observada fluindo a quase 3,5 milhões de quilômetros de distância do planeta.

“10 nov. 2020: Isso não é um cometa, mas a cauda do nosso planeta próximo Mercúrio “visto” do meu quintal. Esta imagem empilhada foi exposta através de um filtro de sódio feito sob medida. O horizonte é da primeira exposição”, divulgou o astrofotógrafo Dr. Sebastian Voltmer em seu Twitter. Na foto, é possível ver a estrela binária Espiga (Spica). (Créditos: Dr. Sebastian Voltmer/Twitter)

Vênus, ocasionalmente, quando o vento solar sopra na direção certa, tem uma estrutura semelhante a uma cauda de oxigênio ionizado. Os cometas podem ter sódio em suas caudas. A lua de Júpiter, Io, é rica em sódio. E a Lua da Terra, despida e desprotegida do vento solar, também tem uma cauda de sódio, embora não seja tão grande ou exuberante como a de Mercúrio.

Mas a cauda de Mercúrio é especial por outro motivo. Ao estudá-lo em momentos diferentes durante a órbita do planeta, podemos aprender sobre as variações sazonais na exosfera de Mercúrio e como eventos como erupções solares e ejeções de massa coronal afetam o pequeno planeta.

A cauda de sódio de Mercúrio, registrada em 8 de julho de 2020 por Andrea Alessandrini. (Créditos: APOD Bot/Andrea Alessandrini/Twitter)

Como caudas de sódio foram encontradas principalmente associadas a corpos rochosos, a identificação de sódio em sistemas ao redor de outras estrelas poderia nos ajudar a rastrear exoplanetas rochosos e avaliar sua habitabilidade potencial.

É um belo exemplo de como os planetas podem ser muito diferentes uns dos outros – cada planeta do Sistema Solar, até mesmo Urano e Netuno, tem suas próprias idiossincrasias. Cada um é um indivíduo raro e precioso; aprender como e o porquê é um passo em direção à uma maior compreensão dos planetas e sistemas planetários do Universo maior.