Não, a física quântica não sugere que a realidade objetiva não existe

Imagem: Getty.

Sobre a notícia da BBC, publicada com o título de “Existe a realidade? O experimento que indica que, no nível quântico, não há fatos objetivos”, transcrevo o comentário do astrofísico relativístico e filósofo científico Gustavo Esteban Romero:


Fatos objetivos

O experimento não estabelece que não há “fatos objetivos”. Estabelece que certos fatos dependem do sistema de referência em que são medidos. Isso não é “subjetivo”, mas relativo. Na física clássica, a mesma coisa acontece quando uma propriedade tem um valor em relação a um sistema de referência e outro diferente em outro sistema. Relativo não é igual a subjetivo.

Acrescento também que não é verdade que na teoria quântica não há “fatos”. Um fato é uma mudança em uma propriedade. A equação dinâmica estabelece precisamente como as propriedades (representadas por operadores) evoluem ao longo do tempo. Se não houvessem fatos, não haveriam equações dinâmicas.

Emaranhamento quântico

No que diz respeito ao emaranhamento quântico, é uma consequência de que as equações da mecânica quântica são lineares e, portanto, vale para elas o princípio de superposição. As equações de Maxwell também o são, e é por isso que a luz pode se sobrepor para formar, por exemplo, um laser. Na eletrodinâmica, o que é superposto são as intensidades, mas na quântica são os estados. Um sistema pode ser visto como uma mistura de estados em um marco de referência e como um estado simples em outro. Isso não significa que não exista uma realidade subjacente. O sistema tem energia em todos os sistemas de referência.


Sobre o autor

Gustavo E. Romero tem doutorado em física pela Universidade Nacional de la Plata. Atualmente, é Professor Titular de Astrofísica Relativista na Faculdade de Ciências Astronômicas e Geofísicas da UNLP e Investigador Superior do CONICET, Argentina, com lugar de trabalho no Instituto Argentino de Radioastronomia, onde dirige o Grupo de Astrofísica Relativista e Radioastronomia (GARRA). Foi presidente da Associação Argentina de Astronomia, Professor Visitante das universidades de Paris VII, Barcelona, Karlsruhe, Gunagzhou, Hong Kong e UNAM, entre outras, assim como cientista convidado em mais de 20 instituições científicas ao redor do mundo. Publicou mais de 350 artigos de ciência e filosofia e 10 livros. Seus principais interesses acadêmicos se concentram na astrofísica relativista, na filosofia científica, na cosmologia, e no cinema. Vive na cidade de La Plata, Argentina.

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