Não, mosquitos transgênicos não são a causa do Zika nem da microcefalia

3
1198
Mosquito Aedes aegypti (Muhammad Mahdi Karim/Wikimedia Commons)

Até me surpreende o fato de eu precisar ter que escrever este artigo, mas, ao abrir o Facebook, me deparei com um compartilhamento da publicação da imagem do ponto 1. Normalmente, eu não me importaria, mas o número de pessoas que acreditam nisso e o nível de desinformação sobre o assunto é alarmante e assustador.

Aqui, vou tentar rebater algumas das anedotas que parecem estar se espalhando, bem como esclarecer alguns pontos.

1.“Usaram Aedes transgênicos, e agora ele transmite Zika, que causa microcefalia.”

Imagem postada em uma página de Facebook.
Imagem postada em uma página de Facebook.

Em 10/04/2014, foi aprovado no Brasil o uso de mosquitos transgênicos para o combate do Aedes aegypti, visando o controle da transmissão de dengue. Não demorou para algumas pessoas começarem a espalhar o medo sobre o assunto, afirmando que isso iria começar o apocalipse zumbi, que nem os próprios cientistas entendem como os transgênicos funcionam, e que os mosquitos iriam passar a transmitir AIDS e ebola (esse é o meu favorito). Agora, com o surto de Zika, estas mesmas pessoas bradam “bem que eu avisei”.

Os mosquitos transgênicos, no Brasil, foram usados em Piracicaba-SP, Juazeiro-BA, Pedra Branca-CE, e Jacobina-BA. Ceará e Bahia são os estados do Nordeste com menos relatos de microcefalia, e SP teve 21 casos de microcefalia ligadas ao Zika até agora. Os números não deveriam ser absurdamente altos nos estados em que os mosquitos foram soltos, ao invés dos outros? Principalmente SP, considerando o tamanho da população em relação a, por exemplo, Pernambuco, o estado com o maior número de casos de microcefalia? Além dessas cidades, a Malásia e as Ilhas Cayman foram locais de teste do mesmo mosquito. Os relatos de microcefalia e/ou Zika desses respectivos locais até agora são os seguintes: Nenhum relato de ambos na Malásia, o mesmo nas Ilhas Cayman.

(Ministério da Saúde)
(Ministério da Saúde)

A saber, entenda o mecanismo de ação do mosquito transgênico.

2. “Os Rockerfeller criaram e espalharam o vírus”

Esta é mais nova. Basicamente, algumas pessoas acreditam que o Zika vírus, que foi descoberto na década de 40, em um macaco da Uganda, é uma criação do Instituto Rockerfeller, pois eles vendem o vírus. O e-farsas publicou um excelente artigo sobre o assunto, vale a pena conferir.

Resumindo, eles fornecem, sim, o vírus para venda. Mas, a venda é destinada a laboratórios e cientistas que desejem realizar estudos com o objetivo de desenvolver curas ou vacinas. Não é qualquer um de nós que pode simplesmente comprar uma amostra do vírus, você precisa estar vinculado a uma instituição.

3. “Tudo bem. Os Rockerfeller podem não ter criado o vírus, mas eles com certeza o tornaram mais perigoso, pois o Zika nunca foi tão agressivo”

O Zika é um vírus. Isso significa que ele é extremamente suscetível a mutações.

Em um estudo realizado em 2014, cientistas encontraram evidências de que o vírus tinha passado por eventos de recombinação (apesar de isto não ser muito comum para os Flaviviridae, a família do Zika), algo que acontece naturalmente. Os pesquisadores acreditam que isto deu ao Zika, além de novos sintomas, algumas vantagens adaptativas, como a habilidade de utilizar mosquitos diferentes como vetores. Assim, o Zika se tornou – e vem se tornando ainda mais hoje em dia – um vírus de fácil transmissão e de sintomas bastante diversos.

4. “Mesmo assim, fazem décadas que o vírus foi descoberto, por que ainda não temos vacinas?”

Quando foi descoberto, o Zika foi amplamente desconsiderado, pois, quando conseguia infectar humanos, causava apenas alguns sintomas leves, porém irritantes, como febre moderada e manchas ocasionais por alguns dias, e depois sumia. Nunca se imaginou a magnitude que o vírus podia tomar em algumas décadas. Além disso, o primeiro surto de Zika, que ocorreu na ilha de Yap, foi apenas em 2007 (antes disso, só foram relatados 14 casos), e mesmo então o vírus se apresentava como um patógeno não muito sério. Ademais, os surtos anteriores ao atual não tiveram números tão grandes de relatos de infecções, o que dá a possibilidade de que foram tão poucos casos, que condições raras, como a síndrome de Guillain-Barré e microcefalia, não puderam ser observadas – ou simplesmente não foram associadas ao surto, por causa da baixíssima ocorrência -, não chamando a atenção necessária para o vírus.

Conclusão

O Zika já existe há muito tempo. Vírus passam por mutações naturalmente ao longo dos anos. Não tem nenhuma empresa do mal “preparando o terreno para o anticristo chegar”. É normal que, durante épocas difíceis, busquemos respostas fáceis e fantásticas, mas nós devemos nos ater aos fatos.

Caso tenha restado alguma dúvida sobre o vírus, confira este artigo que eu postei aqui há alguns dias – O que sabemos sobre o Zika

CONTINUAR LENDO