Noam Chomsky e a mídia

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1985

Por Ricardo Silas
Publicado no Bule Voador

Os donos dos meios de comunicação decidem o que você deve ou não saber nas propagandas e noticiários? A resposta é tão óbvia quanto a pergunta.

Noam Chomsky, considerado o Darwin da Linguística moderna e aclamado pelo The New York Times como o maior intelectual vivo, investigou se as interpretações que a grande imprensa faz da realidade são leais aos fatos. Manufacturing Consent (1988) foi a obra que reuniu análises e estudos institucionais sobre a formação ideológica dos meios de comunicação e a função social que eles desempenham. A mídia tem o propósito de tornar as pessoas mais responsáveis na tomada de decisão política e no desenvolvimento democrático da cidadania. Entretanto, segundo Chomsky, o que acontece é o inverso: indivíduos bem informados costumam ser uma pedra no sapato dos poderosos.

O controle da opinião das massas é um dos recursos mais utilizados em nossa sociedade. Na Guerra da Independência dos EUA, defensores das liberdades individuais e dos direitos civis, como Thomas Jefferson e outros, eram também favoráveis ao castigo físico para quem pensasse em trair a “ordem revolucionária” da época. Mesmo sendo a liberdade de expressão um dos princípios fundamentais do Iluminismo, as opiniões divergentes levaram ao Terror jacobino que se seguiu na Revolução Francesa. Embora tenham nos legado a formosura dos direitos humanos, as maiores revoluções da história recorreram a métodos quase sempre violentos para controlar o humor e os interesses do rebanho popular.

No entanto, à medida que as pessoas ampliam o conceito de liberdade, a sociedade se torna mais democrática e seus membros se sentem mais dispostos a impedir que o uso da força física ameace os direitos recém-conquistados. A punição corporal deu lugar a métodos mais sutis de doutrinação e controle do comportamento e da mente, ou, tal como dito por Noam Chomsky: “a propaganda está para a democracia assim como o cassetete está para a ditadura”. Quando os governados aprendem a valorizar a vida democrática, o controle da opinião se torna mais eficiente do que a força bruta. Basta examinar a teoria do pensamento liberal-democrático criada por Walter Lippman, na qual, em seu livro Public Opinion (1922), ele sugere que “os fatos mais importantes da vida política só podem ser compreendidos por uma classe de executivos ou uma elite especializada”, e que “é preciso afastar as manadas ignorantes dos assuntos de interesse público e privado”.

De acordo com Lippman, os controladores da mídia devem “fabricar um consenso” capaz de acalmar o rebanho desorientado que não faz outra coisa senão pisotear o processo político. Mediante o uso de sistemas de propaganda, a mídia formula uma agenda social, econômica e política que represente os interesses de megacorporações altamente lucrativas, apresentando ao senso comum uma visão de mundo incompleta e limitada sobre questões importantes. É necessário forjar uma realidade que não corresponda aos fatos objetivos para desviar a população dos assuntos prioritários. Na velocidade de propagação das informações, tanto nas redes sociais, nos ambientes jornalísticos e em outros veículos, devemos manter os olhos atentos para não confundirmos a opinião pública com a opinião publicada.

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