Nossas florestas estão no caminho de atingir um ponto crítico nas mudanças climáticas até 2050, alertam cientistas

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Floresta da Suíça. Créditos: Shan Shihan / Moment / Getty Images.

Por Marlowe Hood
Publicado na ScienceAlert

Florestas e outros ecossistemas terrestres hoje absorvem 30 por cento da poluição de CO² da humanidade, mas o rápido aquecimento global poderia transformar esses “sumidouros” naturais em “fontes” de carbono em poucas décadas, abrindo outra frente assustadora na luta contra as mudanças climáticas, disseram pesquisadores bastante preocupados.

Os negacionistas climáticos geralmente descrevem o CO² como “alimento vegetal”, sugerindo que o aumento das emissões de gases de efeito estufa será compensado por um aumento maciço no crescimento das plantas.

Mas o novo estudo mostra que a partir de um determinado limite de temperatura – que varia de acordo com a região e a espécie – a capacidade das plantas de absorver CO² diminui.

De acordo com as tendências atuais de emissão de gases de efeito estufa, as plantas em metade do ecossistema terrestre do globo podem começar a liberar carbono na atmosfera mais rápido do que o sequestram até o final do século, relataram pesquisadores nesta semana no Science Advances.

Ecossistemas que armazenam mais CO² – especialmente florestas tropicais e boreais – podem perder mais de 45% de sua capacidade de absorver carbono em meados do século, descobriu uma equipe liderada por Katharyn Duffy da Universidade do Norte do Arizona (EUA).

“A previsão de temperaturas mais altas associadas ao elevado CO² pode degradar a absorção de carbono pela terra”, relata o estudo, baseado não em modelagem, mas em dados coletados ao longo de um período de 25 anos.

A falha em levar isso em consideração leva a uma “superestimativa grosseira” do papel que a vegetação da Terra pode desempenhar na redução do aquecimento global, alertaram os pesquisadores.

“O ponto crítico da temperatura da biosfera terrestre não está no final do século ou depois, mas nos próximos 20 a 30 anos”.

A chave para entender como isso pode acontecer é a diferença entre fotossíntese e respiração, dois processos químicos essenciais para a vida das plantas que respondem de maneiras diferentes ao aumento das temperaturas.

Tirando energia da luz solar, as plantas absorvem dióxido de carbono por meio de suas folhas e da água do solo, produzindo açúcar para impulsionar o crescimento e oxigênio, que é liberado no ar.

Isso é a fotossíntese, que só pode acontecer quando há luz do dia.

Por outro lado, a transferência de energia para as células por meio da respiração – com o CO² excretado como resíduo – ocorre 24 horas por dia.

Ponto crítico

Para descobrir se existe uma temperatura a partir da qual os ecossistemas terrestres começariam a absorver menos CO², Duffy e sua equipe analisaram os registros de uma rede de observação global, chamada FLUXNET, de 1991 a 2015.

O FLUXNET basicamente rastreia o movimento do CO² entre os ecossistemas e a atmosfera.

Eles descobriram que a fotossíntese global atinge seu pico em certas temperaturas, dependendo do tipo de planta, e depois diminui.

As taxas de respiração, no entanto, aumentam em todos os tipos de ecossistemas sem parecer atingir um limite máximo.

“Em temperaturas mais altas, as taxas de respiração continuam a subir em contraste com as taxas de fotossíntese em declínio acentuado”, concluiu o estudo.

Se a poluição do carbono continuar descontrolada, essa divergência poderá reduzir a absorção de CO² pela metade já em 2040.

“Estamos entrando rapidamente em regimes de temperatura em que a produtividade da biosfera cairá precipitadamente, colocando em questão a viabilidade futura dos sumidouros de terra”, concluíram os pesquisadores.

As descobertas também questionam a integridade de muitos compromissos nacionais sob o Acordo de Paris – conhecidos como contribuições nacionalmente determinadas, ou NDCs, na sigla em inglês – para reduzir os gases de efeito estufa.

“Estes dependem fortemente da absorção de carbono pela terra para cumprir as promessas”, apontam os autores.

O estudo observa que limitar o aquecimento global abaixo de dois graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, a meta fundamental do tratado climático de Paris de 2015, “permite níveis próximos aos atuais de produtividade da biosfera, preservando a maioria das absorções de carbono da terra”.

A Terra aqueceu pelo menos 1,1 °C até agora e atualmente está a caminho de aquecer mais dois a três graus até o final do século, a menos que as emissões sejam rápida e drasticamente reduzidas.

Em 2019, um campo de futebol com árvores primárias e antigas foi destruído nos trópicos a cada seis segundos – cerca de 38.000 quilômetros quadrados ao todo, de acordo com dados de satélite.