Nova parte do corpo é encontrada escondida nos pulmões

As células recém-descobertas ajudam a manter um sistema respiratório saudável.

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Pesquisadores descobriram uma nova célula nunca antes vista nos pulmões humanos, que desempenha um papel vital no funcionamento do sistema respiratório. Crédito: Shutterstock.

Por Harry Baker
Publicado na Live Science

Cientistas descobriram um novo tipo de célula escondida dentro das delicadas e ramificadas vias dos pulmões humanos. As células recém-descobertas desempenham um papel vital para manter o sistema respiratório funcionando corretamente e podem até inspirar novos tratamentos para reverter os efeitos de certas doenças relacionadas ao tabagismo, de acordo com um novo estudo.

As células, conhecidas como células secretoras das vias aéreas respiratórias (SVAR), são encontradas em pequenas vias ramificadas conhecidas como bronquíolos, que são pontilhadas com alvéolos, os pequenos sacos aéreos que trocam oxigênio e dióxido de carbono com a corrente sanguínea. As novas células SVAR são semelhantes às células-tronco – células que podem se diferenciar em qualquer outro tipo de célula do corpo – e são capazes de reparar células de alvéolos danificadas e se transformar em novas.

Os pesquisadores descobriram as células SVAR depois de várias frustrações com as limitações de confiar nos pulmões de camundongos como modelos para o sistema respiratório humano. No entanto, devido a certas diferenças entre os dois, os cientistas tiveram dificuldades para preencher algumas lacunas de conhecimento sobre os pulmões humanos. Para entender melhor essas diferenças em nível celular, a equipe coletou amostras de tecido pulmonar de doadores humanos saudáveis ​​e analisou os genes dentro de células individuais, que revelaram as células SVAR anteriormente desconhecidas.

“Já se sabe há algum tempo que as vias aéreas do pulmão humano são diferentes das do camundongo”, disse o autor sênior Edward Morrisey, professor da Faculdade de Medicina Perelman da Universidade da Pensilvânia (EUA), especializado em sistemas respiratórios, à Live Science. “Mas as tecnologias emergentes só recentemente nos permitiram amostrar e identificar tipos de células únicos”.

A equipe também encontrou células SVAR em furões, cujos sistemas respiratórios são mais semelhantes aos humanos do que os dos camundongos. Como resultado, os pesquisadores suspeitam que a maioria dos mamíferos de tamanho igual ou maior provavelmente terá células SVAR em seus pulmões, disse Morrisey.

As células SVAR têm duas funções principais nos pulmões. Primeiro, elas secretam moléculas que mantêm o revestimento fluido ao longo dos bronquíolos, ajudando a evitar o colapso das pequenas vias aéreas e maximizando a eficiência dos pulmões. Em segundo lugar, elas podem atuar como células progenitoras para células alveolares tipo 2 (AT2), um tipo especial de alvéolos que secretam um produto químico que é usado em parte para reparar outros alvéolos danificados. (Uma célula progenitora é uma célula que tem a capacidade de se diferenciar em outro tipo de célula, semelhante à forma como as células-tronco se diferenciam em outras células.)

“As células SVAR são o que chamamos de progenitores facultativos”, disse Morrisey. “O que significa que agem como células progenitoras e também têm papéis funcionais importantes na manutenção da saúde das vias aéreas”. Isso significa que as células SVAR desempenham um papel vital na manutenção de pulmões saudáveis, acrescentou.

Uma célula SVAR (esquerda) se transforma lentamente em uma célula AV2 (direita) em cultura. Crédito: Penn Medicine News.

Os pesquisadores acreditam que as células SVAR podem desempenhar um papel fundamental em doenças relacionadas ao tabagismo, como a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). A DPOC é o resultado da inflamação das passagens das vias aéreas dentro dos pulmões, que pode ser causada pelo tabagismo e, ocasionalmente, pela poluição do ar, de acordo com a Mayo Clinic. A inflamação das vias aéreas dificulta a absorção adequada de oxigênio suficiente pelos pulmões; como resultado, a DPOC apresenta sintomas semelhantes aos da asma. A DPOC também pode levar ao enfisema, no qual os alvéolos são destruídos permanentemente, e a bronquite crônica, uma tosse intensa e duradoura, geralmente acompanhada de excesso de catarro. Todos os anos, mais de 3 milhões de pessoas em todo o mundo morrem de DPOC, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.

Em teoria, as células SVAR devem prevenir, ou pelo menos aliviar, os efeitos da DPOC reparando os alvéolos danificados. No entanto, os pesquisadores suspeitam que fumar pode danificar, ou mesmo destruir completamente, as novas células, levando ao aparecimento de doenças como a DPOC.

Os pacientes com DPOC geralmente recebem medicamentos anti-inflamatórios ou oxigenoterapia para aliviar seus sintomas. No entanto, estas são apenas soluções temporárias e não fazem nada para reverter os danos pulmonares. As células SVAR podem ser usadas para melhorar os tratamentos ou até mesmo curar a DPOC, se os pesquisadores puderem aproveitar adequadamente as propriedades regenerativas dessas células.

“Nós realmente não sabemos se esta descoberta pode levar a uma cura potencial para a DPOC ainda”, disse Morrisey. “No entanto, como a DPOC é uma doença sobre a qual sabemos muito pouco, qualquer nova perspectiva deve ajudar o campo a pensar em novas abordagens terapêuticas que possam levar a melhores tratamentos”.

O estudo foi publicado na revista Nature.