Publicado por Mario Bunge na Neuroscience and Social Science.
Resumo: Os objetivos deste artigo são (a) enfatizar dois pontos que foram abundantemente esclarecidos pelos neurocientistas contemporâneos da cognição social e afetiva, e (b) assinalar a natureza filosófica desses pontos. São eles: (a) todos os processos mentais são processos cerebrais, e (b) visto que todos os humanos pertencem a vários sistemas sociais, sua vida mental só pode ser compreendida pela psicologia social. Este ponto é bastante atual, diante da recente ressurreição da cosmovisão naturalista ingênua, segundo a qual tudo a nosso respeito, incluindo a linguagem e a ordem social, é natural e cai dentro do domínio da biologia (por exemplo, Chomsky 1995, Buss 2004, Pinker 2003). Por último, observarei que a principal diferença entre as fases clássica e contemporânea dessa ciência é que, enquanto o objetivo da primeira era descrever o psicossocial, hoje em dia também desejamos compreendê-lo. Ou seja, desejamos desvelar os mecanismos psicossociais, como, por exemplo, o efeito negativo da exclusão social sobre os processos neuroimunes. Este objetivo mais ambicioso sugere fundir a biopsicologia com as ciências sociais, em vez de isolá-la ou tentar reduzi-la à zoologia ou à sociologia. Tal apelo à fusão deveria desencorajar toda conversa sobre neuropolítica e similares, pois a ciência social trata de grupos sociais, não de indivíduos isolados, enquanto a psicologia, seja individual ou social, trata de indivíduos socialmente inseridos. Como disse o filósofo espanhol José Ortega y Gasset há um século: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo esta última não salvarei a mim mesmo”.
1. Quão natural é a natureza humana?
Embora o nome oficial de nossa espécie seja Homo sapiens sapiens, alguns preferiram Homo faber, coquens [cozinheiro], loquens, adorans, bellator [guerreiro], ludens [jogador] ou crudelis. Outros ainda optam pelo animal autodomesticado, problematizador, possuidor de alma, político, imitação de Deus, ou mesmo, como disse o televangelista Billy Graham, “somos criaturas caídas vivendo em um mundo caído”.
Esse famoso homem de Deus não mencionou as cooperativas de desamparados, como crianças abandonadas, que se organizam em cooperativas autogeridas para ganhar a vida nas grandes cidades do terceiro mundo. Embora existam muitos gatos ferais nas cidades, houve apenas duas crianças ferais bem documentadas: Kaspar Hauser e Victor de Aveyron, ambas no início do século XIX.
Quando abandonadas, as crianças tendem a se juntar, ajudar-se mutuamente e sobreviver catando e coletando, separando e vendendo lixo, como milhares de crianças vêm fazendo nas encostas do morro do Corcovado no Rio de Janeiro. Elas são marginais, mas se recusam a ser totalmente excluídas da sociedade. São certamente oprimidas, mas não caídas no sentido teológico, pois podem se levantar, escalar montanhas e sobreviver mediante trabalho duro e solidariedade.
Sem dúvida, todo ser humano normal é um animal social, título de um manual clássico de psicologia social (Aronson 2011). Contudo, há dezenas de espécies de organismos sociais, entre elas bactérias que se agrupam, colônias de corais, abelhas, suricatos e gorilas. Talvez o animal autodomesticado seja um nome melhor, pois abrange vários dos apelidos listados anteriormente. Adicionalmente, sugere que todas as disciplinas que nos estudam são biossociológicas, e não biológicas (naturalismo), espirituais (idealismo), morais (Hume) ou humanas, como se as outras ciências fossem inumanas.
O qualificador biossociológico nos convida a fundir todas as disciplinas que lidam com as pessoas, da zoologia, neurociência, demografia e epidemiologia à antropologia, sociologia e historiografia. O mesmo qualificador nos adverte a não tentar contornar o social saltando do cérebro individual para as transações econômicas, como se estas fossem processos individuais como digerir e contemplar o umbigo. E o qualificador social em “neurociência cognitiva e afetiva” enfoca o aspecto neural do comportamento social, do amor e do jogo ao comércio e à guerra. O mesmo qualificador em “evolução biossocial” nos recorda que, porque os humanos se autodomesticam, a evolução humana tem sido tanto artefatual quanto natural desde o momento em que a primeira ferramenta e a mais antiga norma social foram elaboradas (ver Trigger 1998, Richerson & Boyd 2005).
Sentir amor ou ódio são atos pessoais, mas o casamento e o comércio são sociais. Da mesma forma, enquanto matar é biológico, o assassinato é social. Na verdade, todo comportamento humano, exceto coçar a própria cabeça, é social em alguma medida, porque ocorre em um contexto social, afeta outros e deixa marcas no ambiente bem como no cérebro do ator.
Que a sociabilidade contribui grandemente para nos definir, a nós e a outros animais, é óbvio pelo modo como a exclusão social nos prejudica e pela repulsa que a sociopatia causa na maioria das pessoas. Assim, o autismo é uma doença grave, o confinamento solitário um castigo severíssimo e inclusive uma forma de tortura, e a surdez uma incapacidade dolorosa porque isola os indivíduos ainda mais do que a cegueira ou a mudez. Tampouco a privação do contato social prejudica apenas as pessoas. Filhotes criados em gaiolas se desenvolvem em adultos anormais, e macacos-prego famintos preferem a companhia de coespecíficos ao alimento.
Em suma, os humanos e outros animais sociais podem experimentar dor social além da dor física, e os componentes de angústia de ambas as formas de dor parecem ser uma função da região dorsal do córtex cingulado anterior, a ponte entre os sistemas sensoriais e a ínsula (Lieberman e Eisenberger 2006).
Para os humanos, a sociabilidade é muito mais do que o gregarismo: ser social envolve elaborar ou manter sistemas sociais ou “círculos” de vários tipos. E os sistemas sociais humanos são mais do que cardumes, bandos, manadas ou outros grupos de coespecíficos: envolvem inventar, observar ou alterar normas de conduta e instituições como ajuda mútua, trabalho em equipe, escolarização e outros. Tais instituições emergiram e evoluíram para defesa, resolução de conflitos, produção e comércio. Lutamos pela sobrevivência, mas cooperamos pela coexistência, e no processo elaboramos e revisamos códigos de conduta que não estão codificados em nossos genomas (Bowles & Gintis 2011). Que tais normas sociais são elaboradas e eventualmente reformadas ou descartadas, em vez de gravadas em nossos genomas, é sugerido pelo fato de que algumas delas nos prejudicam em vez de nos ajudar a viver. Basta pensar nas “leis” dietéticas, na venda de filhas para pagar dívidas, no assassinato de honra, na escravidão e no nacionalismo agressivo.
Quando as instituições sociais falham, como nos casos de agressão não provocada e roubo de terras ou pessoas, costuma-se dizer que os agressores se comportam selvagemente, embora a ideia de que todos os primitivos são violentos tenha sido tão desacreditada quanto o mito do bom selvagem. A competitividade, supostamente um traço masculino inato, depende do tipo de sociedade: nas sociedades matrilineares é mais pronunciada nas mulheres do que nos homens (Gneezy, Leonard & List 2009). Da mesma forma, a bondade e a maldade são aprendidas, não inatas. Ao nascer não somos nem bons nem maus. Contudo, nascemos com a capacidade de aprender a nos tornar pessoas boas ou más. A desconcertante variedade de normas sociais entre sociedades e ao longo do tempo mostra que “a maior parte do comportamento humano não está sob controle genético direto” (Harris 1979: 136).
O inatismo não é resultado de pesquisa científica, e sim uma ideologia frequentemente usada para desculpar a escravidão, o racismo, a misoginia e até a evasão de impostos escolares. Em suma, o escravo nato de Aristóteles, o criminoso nato de Lombroso, o linguista nato de Chomsky, o agressor nato de Pinker e a cientista no berço de Gopnik são apenas fantasias, bem como desculpas para não investigar como as potencialidades se desenvolvem em atualidades, ou fracassam em fazê-lo.
Por exemplo, só recentemente aprendemos que, diferentemente de todos os outros animais, os humanos não têm instinto reprodutivo: temos de aprender, por imitação e por tentativa e erro, como fazer bebês (Wunsch & Brenot 2004). Ademais, o sexo é um fardo para a maioria das mulheres porque elas não aprenderam que alcançar o clímax requer estimulação do clitóris. Em outras palavras, a sexualidade plena, que é instintiva ou natural em todos os outros animais, é parcialmente aprendida nos humanos. É por isso que nas sociedades pré-industriais o conhecimento sobre o mecanismo de reprodução esteve envolto em mito. Em resumo: a natureza humana só floresce em sociedade, desde que a ideologia dominante o permita.
Como Marx disse, nós fazemos a sociedade, e a sociedade nos faz. Contudo, pace Marx, a sociedade não sente nem pensa “através de nós”, porque ela é desprovida de cérebro. Portanto, embora devamos distinguir os indivíduos de seus nichos sociais, não devemos separá-los, ainda que só seja porque mesmo organismos humildes como as minhocas constroem seus próprios nichos, embora nem sempre de forma adaptativa.
Circunstâncias sociais adversas podem nos adoecer de várias maneiras. Por exemplo, a solidão e a exclusão social forçada devido a discriminação, subordinação arbitrária, insegurança econômica, desemprego ou acesso restrito a serviços de saúde pública podem causar ansiedade, estresse, depressão, fobia social, transtornos alimentares e inclusive doenças cardíacas e autolesão (ver Marmot et al. 1978).
O status socioeconômico é, portanto, uma variável etiológica chave. E, como uma equipe interdisciplinar e internacional de uma dúzia de pesquisadores descobriu recentemente, entre os macacos, que são parentes evolutivos próximos dos nossos, “a subordinação social por si só é suficiente para alterar a função imunológica mesmo na ausência de variação no acesso a recursos, cuidados de saúde ou comportamentos de risco à saúde” (Snyder-Mackler et al. 2016: 1041). Em resumo: quanto mais baixo o status social, maior a probabilidade de adoecer.
Não é de admirar que a migração possa ser profundamente desestabilizadora, e que muitos dos pacientes de psicólogos clínicos sofram da “síndrome do coração partido” após a viuvez. O desenraizamento prejudica as pessoas tanto quanto as árvores. Basta pensar nos refugiados de perseguições, limpeza étnica e guerra. Eles sofrem não apenas de privações biológicas, mas também de abandonar seus habituais “círculos” ou sistemas sociais. O mesmo vale para os desempregados, que perdem não apenas seu estilo de vida e autorrespeito, mas também seus contatos tranquilizadores com seus antigos colegas. Os cortes nos serviços sociais, em particular na saúde pública, têm um efeito semelhante. Por exemplo, a longevidade dos britânicos diminuiu significativamente sob o chamado governo neoliberal de Margaret Thatcher (ver Wilkinson & Pickett 2010).
O trabalho dos neurocientistas é descobrir os sistemas e processos neurais envolvidos em sentir, planejar ou controlar processos sociais, isto é, cadeias de eventos que afetam outras pessoas. Por exemplo, eles podem desejar descobrir se uma ação particular foi livre (espontânea) ou compelida por um estímulo externo, bem como os subsistemas cerebrais ativados ou inibidos durante essa ação (Hebb 1949). O resultado de tal estudo pode ser usado para projetar e implementar normas de conduta e instituições que visem a estimular ou desestimular ações desse tipo. Em geral, devemos aprender antes de agir.
Aprendemos não nos retirando da sociedade, e sim nos mesclando com outros, imitando alguns deles, sendo ensinados e discutindo em famílias, escolas, gangues, locais de trabalho e outros sistemas sociais, tanto formais quanto informais. Estudar e inventar são individuais, mas a educação e a inovação são sociais.
Ademais, a aprendizagem social depende do tamanho do grupo. Com efeito, aprender tarefas simples pode ser alcançado imitando um especialista, mas a invenção e transmissão de tarefas complexas requer grupos sociais que tenham alcançado uma massa crítica, bem como uma liderança imbuída da capacidade e coragem de abandonar tradições estéreis e abraçar e nutrir avanços de vários tipos, de novos usos de ferramentas conhecidas a regimes sociais mais eficientes ou mais justos. A presença de tais condições favorece a renovação e a acumulação cultural, enquanto sua ausência leva à estagnação, decadência ou até mesmo ao colapso (Henrich 2016). Quanto mais, melhor.
Os tópicos mais populares na neurociência cognitiva e afetiva social recente são a aprendizagem social, o autorreconhecimento, a autorreflexão, o autoconhecimento, o autocontrole, os processos autoiniciados e os déficits correspondentes (ver Ibáñez 2007). O estudo da reflexão sobre a própria experiência atual levou a um estudo mais detalhado do CPFM (BA10), o córtex pré-frontal medial (ver Lieberman 2007). Esta é a região do CPF que é desproporcionalmente maior nos humanos do que em outros primatas.
Por esta razão, um reducionista biológico poderia propor chamar-nos de batens, ou possuidores da região BA10. Mas os reducionistas sociológicos poderiam então argumentar que nossa espécie merece ser conhecida como Homo credulus, já que é preciso doutrinação para adorar deuses cruéis e confiar em políticos enganosos. Os animais selvagens não são enganados tão facilmente porque não estão presos na armadilha da ideologia e da publicidade.
Além disso, pesquisas recentes lançaram sérias dúvidas sobre a existência de uma parte particular do cérebro humano encarregada da sociabilidade (Singer 2012). Aparentemente, quase todo o nosso cérebro é social, ainda que uma região se especialize em sentir a dor nociceptiva (a própria), outra na dor empática, e assim por diante. No cérebro humano, a localização combina-se com a coordenação (Bunge 2010: 166 ss). É por isso que o sistemismo, e não o individualismo ou o holismo, é a abordagem correta (Bunge 1979).
2. Uma fórmula para os tipos de atividade mental
O tamanho anômalo da região BA10 nos humanos, mencionado acima, está relacionado à importância dos processos internamente focados em comparação com os externamente focados. Essas diferenças podem ser comprimidas na fórmula M = S + B + SB + BS + BSB, onde M designa a intensidade da atividade mental, S a da resposta automática a estímulos externos, e B a do processo mental controlado espontâneo.
As combinações dos dois tipos principais de processo são SB (exo-endo) e BS (endo-exo). SB representa a construção mental ou deliberação moral viesada pelo ambiente, enquanto BS representa a ação viesada por processos intelectuais ou morais. A privação sensorial pode ser simbolizada como S = 0, enquanto B = 0 representa o estado de tábula rasa. Tipicamente, os psicólogos sociais sociológicos enfatizam os processos SB, enquanto os psicólogos sociais psicológicos focam nos processos BS. Entretanto, ambas as tendências tendem a tratar B como uma caixa preta: apenas os inclinados neurocientificamente entre eles ousam abrir a caixa e buscar os circuitos neurais específicos que executam as operações mentais em questão. A seção seguinte contém alguns exemplos de cada uma das quatro categorias.
Uma vez que nenhuma das variáveis em questão está bem definida, a fórmula anterior é até agora apenas um recurso mnemônico e dispositivo heurístico. Ainda assim, ela também resume todo um projeto de pesquisa: o de definir adequadamente as três variáveis. Em particular, B seria presumivelmente definido em termos de parâmetros como frequência de disparo neuronal e plasticidade sináptica.
Uma função adicional da mesma fórmula é que ela encapsula as duas principais alternativas clássicas à abordagem atual: B = 0 ou behaviorismo, e S = 0 ou a doutrina da mente sobre a matéria (ou causação descendente). (Na neurociência cognitiva, causação descendente significa ou córtex cerebral afetando o resto do corpo, ou sociedade afetando o indivíduo.)
A primeira escola é a de Tomás de Aquino, Hume, Condillac, Mill, Watson, Skinner e Vigotsky, enquanto a segunda ou escola internalista é a de Platão, Agostinho, Berkeley, Maine de Biran, Freud, Merleau-Ponty, Eccles, Popper, Chomsky e Pinker. Os concomitantes filosóficos dessas tendências são o empirismo com externalismo, e o espiritualismo com internalismo, respectivamente.
Lamentavelmente, a maioria dos historiadores da filosofia repete a ideia de que a fórmula “Nada há no intelecto que não tenha estado previamente nos sentidos” foi inventada pelos empiristas britânicos, em particular Bacon, Locke e Hume. Para começar, longe de ser nova, o referido princípio era sustentado por todos os escolásticos pertencentes à escola aristotélico-tomista. Em segundo lugar, Bacon afirmou explicitamente que, longe de se parecerem com formigas, que apenas juntam o que encontram, os humanos se parecem com abelhas, na medida em que transformam em mel e cera o pólen que recolhem. Em terceiro lugar, Locke reconheceu que o conhecimento matemático não deriva das impressões sensoriais, razão pela qual alguns especialistas em Locke o chamaram de racioempirista. Apenas Hume foi um empirista radical, como mostra sua rejeição das teorias de Newton, que iam muito além das aparências. E, por causa de suas opiniões monárquicas e racistas, ele ficou muito atrás da franja radical do Iluminismo francês (ver Israel 2014).
Claramente, a neurociência cognitiva e afetiva social não se encaixa em nenhuma das tendências filosóficas tradicionais, pois situa a cognição e a emoção no cérebro, e coloca o cérebro em seu contexto social. Assim, a percepção é sensível à pressão social, mas é um processo cerebral. Os experimentos clássicos de Donald Hebb sobre privação sensorial, e os de Jean Piaget sobre a natureza construtiva da memória, da aprendizagem e do pensamento, apoiam a visão atual do cérebro como uma tábula rasa ao nascer, porém subsequentemente como um órgão criativo, sempre pronto a ler, ler mal ou ignorar estímulos externos, bem como a imaginar ideias dos mais variados graus de abstração. Qualquer pessoa que tenha sofrido alucinações causadas por um derrame dará testemunho da assustadora inventividade de um cérebro livre de controles ambientais.
Conjecturou-se que cada tipo de processo mental é executado por uma circuitaria neural de seu próprio tipo (Bunge 1980). Os processos automáticos, tais como os reflexos incondicionados, as sensações proprioceptivas, saborear alimentos, adormecer e despertar, ocorreriam em sistemas neurais cujos componentes celulares são mantidos unidos por conexões sinápticas “rígidas”, ou melhor, elásticas, algumas das quais são inatas. Em contraste, os sistemas neurais plásticos seriam aqueles onde ocorrem os processos controlados, ou, no jargão criptodualista do momento, “mediariam” os padrões aprendidos.
Grosso modo, Automático = Inato, e Controlado = Aprendido. No entanto, a distinção automático/controlado não é uma dicotomia, pois alguns processos automáticos são plásticos. Por exemplo, as crianças podem ser treinadas para controlar seus movimentos intestinais, algo que os chimpanzés não conseguem. Até mesmo o tronco encefálico, um órgão cerebral filogeneticamente muito antigo, é plástico. Com efeito, o reflexo optocinético, que estabiliza as imagens na retina à medida que o animal navega em seu ambiente, pode aprender a se ajustar a mudanças ambientais drásticas, como o confinamento em uma gaiola (Liu et al. 2017).
Tornou-se costume dizer dos órgãos cerebrais que eles medeiam ou subsidiam suas funções específicas, como em “neurônios do tronco encefálico medeiam (ou subsidiam) comportamentos motores inatos”. Outro favorito é “substrato neural”, como em “os substratos neurais da autoconsciência”. Mas se o órgão A faz B, não se deveria dizer que A “medeia” B, nem que A “subsidia” B, pois não há intermediários entre órgãos e suas funções, e estas últimas não gratificam seus órgãos. Ordinariamente dizemos que as mãos agarram, não que elas “medeiam” ou “subsidiam” o agarrar. Falar de mediação ou subsídio na neurociência cognitiva é má ciência e má gramática, além de uma tentativa de disfarçar o dualismo psiconeural.
Outra expressão bastante popular é “instanciar”. Na verdade, o sistema visual vê e o auditivo ouve, assim como as pernas fazem o caminhar e os pulmões a respiração. Da mesma forma, é errado dizer que as pernas são os “correlatos” anatômicos do caminhar: as pernas simplesmente caminham, ainda que, obviamente, controladas pelos centros motores, começando pelo cerebelo. Nenhuma dessas partes do corpo é um meio para um fim ou meta, e nenhuma delas instancia (exemplifica) uma generalização. A linguagem direta é sempre preferível ao circunlóquio.
Para entender um processo devemos descobrir o que ele é e onde ocorre. As técnicas de imageamento cerebral ajudam a resolver este último problema, mas para enfrentar o primeiro problema os neurocientistas devem mobilizar todas as técnicas fisiológicas e bioquímicas elaboradas desde a Revolução Científica, junto com as bioquímicas inventadas desde o início do século XIX.
Por exemplo, para descobrir o mecanismo do isolamento social, e portanto o da reinserção social, verificou-se necessário seguir a trajetória das moléculas de dopamina entrando e saindo do núcleo dorsal da rafe no tronco encefálico, a cúspide da medula espinhal (Matthews et al. 2016). Por sua vez, o desvelamento dessa trajetória envolve as técnicas eletrofisiológicas inventadas em meados do século XIX por Emil Du Bois Reymond. Este declarado materialista e ateu iniciou sua carreira científica estudando peixes elétricos, um assunto que a maioria dos administradores acadêmicos de mentalidade corporativa consideraria pouco promissor e, portanto, indigno de apoio: eles nunca ouviram falar de conexões ocultas ou eventos não antecipados.
3. Amostra aleatória de descobertas
Listemos algumas descobertas típicas da neurociência cognitiva social, um exercício que deve enfatizar o quanto a abordagem neuro do mental e do comportamento contribui para transformar a caixa preta psicológica em uma caixa translúcida que nos permite espiar seus mecanismos.
1. Processos espontâneos. Processos espontâneos ou autoiniciados são aqueles que ocorrem sem nenhum insumo externo. Sentir uma dor de cabeça, sonhar, ter uma ideia súbita e exercer o livre arbítrio são exemplos familiares de processos deste tipo. Presumivelmente, eles não são localizados ou, melhor, podem ocorrer em diferentes regiões cerebrais. Ademais, embora esses processos não estejam vinculados a estímulos, a maioria deles, em particular a autoconsciência, o orgulho, a vergonha e os desejos de ter sucesso e de ser bem considerado, provavelmente foram aprendidos no curso de interações sociais. Em todo caso, eles violam o esquema estímulo-resposta e tampouco são “computados”, de modo que são contraexemplos tanto ao behaviorismo quanto à psicologia computacional ou do processamento de informação.
2. Processos automáticos. As percepções e sentimentos brutos, bem como os reflexos condicionados, são os exemplos mais conhecidos desta categoria. Os cães de Pavlov que salivavam ao ouvir o toque de um gongo que costumava acompanhar a entrega de comida, e o estudo de Skinner dos pombos que dançavam quando seus recipientes de sementes eram preenchidos, foram amplamente vulgarizados, mas apenas tão tarde quanto a primeira metade do século XX.
Apenas os filósofos mecanicistas, de Descartes a La Mettrie, argumentaram que todos os animais não humanos são autômatos insensíveis. Margaret Mead afirmou que os samoanos não sentem emoção alguma, mas ninguém compartilhou essa extravagância. Alguns filósofos atuais, a saber, os defensores da psicologia computacional ou do processamento de informação, como Hilary Putnam e Jerry Fodor, adotaram a mesma visão, embora substituindo o autômato mecânico, como o engenhoso pato de Vaucanson, pelo computador eletrônico.
A visão computacional do mental está em desacordo com os fatos bem conhecidos de que os computadores só funcionam quando alimentados com algoritmos, que as emoções são notoriamente indisciplinadas, e que a vida social evoca emoções como empatia, medo, compaixão, amor e ódio, todas as quais ocorrem em redes neurais que envolvem a amígdala, um órgão subcortical que provavelmente emergiu muito antes do neocórtex, e cujo volume se correlaciona com o tamanho e a complexidade da rede social (Bickart et al. 2011). Em geral, enquanto a tendência dos aparelhos eletrônicos pessoais é a miniaturização, o tamanho do neocórtex vem aumentando com o tamanho do grupo (Dunbar 2009). Em todo caso, a visão computacional do mental ignora os fatos elementares de que a espontaneidade e a criatividade são tão improgramáveis quanto as emoções.
A detecção de novidades é outro tema de pesquisa contemporânea, que envolve não apenas psicólogos mas também roboticistas. Entre os animais inferiores, um indício de novidade é um sinal de perigo, portanto uma fonte de medo e um aviso para fugir ou congelar. Em contraste, entre os humanos e outros vertebrados superiores, a novidade provoca curiosidade bem como cautela, e às vezes motiva a investigação, que pode angariar novo conhecimento.
Atualmente acredita-se que o hipocampo é o principal detector de novidades nos humanos. Em todo caso, estamos nos aproximando de aprender por que alguns animais são neofílicos enquanto outros são neofóbicos. O eventual impacto desta pesquisa sobre a psicologia política deveria ser óbvio, desde que não nos esqueçamos de que os interesses estabelecidos, que escapam à neurociência, contribuem poderosamente para moldar as atitudes políticas. É por isso que seria tolo engajar-se em neuropolítica.
3. Processos controlados. A imitação é um dos processos mentais mais bem estudados desde o livro outrora popular de Gabriel Tarde sobre o pensamento grupal (1890). A pesquisa sobre imitação recebeu um impulso súbito quando Giacomo Rizzolatti e colegas (2004) da Universidade de Parma descobriram os neurônios-espelho no córtex parietal inferior do macaco. Desde então, sistemas neuronais semelhantes foram localizados em humanos e em algumas aves. Esses estudos confirmaram a hipótese de que símios e outras espécies possuem uma “teoria da mente”, o nome equivocado que David Premack e Guy Woodruff (1978) deram à capacidade de imputar sentimentos e crenças a outros. Um equivalente aproximado é a Verstehen ou compreensão empática que Wilhelm Dilthey imputava aos estudiosos das matérias sociais.
Obviamente, é errado chamar de teoria a capacidade de entender a mente dos outros. Até agora, é apenas uma habilidade à espera de uma teoria. E não é óbvio que seja realmente necessário um sinônimo para “empatia”. O que está claro é que a habilidade em questão não é leitura da mente, e sim “leitura”, ou melhor, interpretação de indicadores externos ou comportamentais de processos mentais. É óbvio que tais estudos não apenas enriqueceram a psicologia animal, mas também aumentaram nosso respeito pelos macacos e cães domésticos, bem como nossa admiração pela atribuição de empatia aos animais não humanos por Darwin.
Investigações posteriores das fontes neurais da empatia usando imageamento por ressonância magnética funcional revelaram a participação de muito mais do que neurônios-espelho. Com efeito, a compreensão espontânea, intuitiva ou pré-analítica das mentes alheias é tão importante nas transações sociais, que nos humanos ela envolve nada menos que cinco “áreas” cerebrais (Preston & de Waal 2002).
Ademais, a empatia é tão forte nos macacos, que eles podem passar fome para evitar choques elétricos em coespecíficos. Os bebês humanos também dão sinais de angústia quando veem ou ouvem outros bebês em angústia. O nível de angústia diminui com a idade, mas em compensação a disposição para ajudar outras crianças aumenta. O valentão da escola inspira medo, mas não faz amigos.
Reconhecidamente, os sensacionais experimentos de Stanley Milgram (1963) pareciam mostrar que a maioria dos homens gosta de ver outros sendo torturados. Entretanto, este não era o ponto de Milgram: o que ele mostrou é que o medo da autoridade pode sobrepujar o sentimento de solidariedade. Um ponto semelhante foi feito pela enormemente bem-sucedida peça e filme alemão “O capitão de Köpenick” (1931, 1956), em que um humilde sapateiro se disfarça de oficial prussiano e, enquanto marcha por uma pequena cidade, junta um séquito crescente que toma a Prefeitura e “confisca” o dinheiro de seu cofre. A ideia é, obviamente, que o bom cidadão alemão do início do século XX estava ansioso por obedecer a comandos de indivíduos que pareciam ocupar altos cargos. Poderia algo semelhante acontecer hoje em Washington DC?
Finalmente, não esqueçamos que os processos B para S podem ser exagerados ao ponto de delírios de grandeza. A fórmula de Berkeley “Ser é ser percebido” é um exemplo disso, pois submete o mundo inteiro ao sujeito percipiente. O construcionismo social é uma versão recente desse delírio, pois considera tudo o que é social como um produto do ego (ver Bunge 1999). Por exemplo, de acordo com o “modelo social da deficiência”, esta última é “inteira e exclusivamente social” (Oliver 1996).
Assim, até mesmo a tetraplegia e a síndrome de Down seriam apenas criações de nossas mentes e, sendo construções sociais em vez de condições médicas, o remédio para elas seria uma transformação radical da sociedade, isto é, esperar que isso aconteça em vez de tentar ajudar agora mesmo, por exemplo mediante próteses cerebrais que traduzam pensamentos em ações, ou ensinando habilidades manuais a jovens com retardo. Felizmente, Anastasiou e Kauffman (2013) desabilitaram esse rebento derrotista do construcionismo social.
4. Processos exo-endo. A religiosidade é um caso clássico do tipo SB. O best-seller de Lucien Lévy-Bruhl (1922) foi a primeira, ainda que fracassada, tentativa de caracterizar o que ele chamou de “mentalidade primitiva” e de explicá-la como uma adaptação ao ambiente imaginado de nossos ancestrais remotos. As especulações dos recentes psicólogos evolutivos foram muito mais detalhadas, e foram ridicularizadas por Telmo Pievani (2014).
Surpreendentemente, a primeira investigação científica da correlação entre religiosidade e saúde societal nas democracias prósperas foi publicada apenas recentemente (Paul 2005). Ela descobriu que “os Estados Unidos são quase sempre a mais disfuncional das democracias desenvolvidas, às vezes espetacularmente, e quase sempre pontuam mal”, ao mesmo tempo em que é a nação mais religiosa e também a mais inclinada a rejeitar a biologia evolutiva e outras conquistas científicas. Em contraste, Japão, Escandinávia e França são as nações mais seculares do Ocidente, e ao mesmo tempo algumas das menos desiguais.
A pesquisa orientada por dados é outra instância de um processo de pensamento iniciado por uma observação impactante do ambiente, isto é, que colide com a sabedoria recebida ou simplesmente preenche uma lacuna em nosso corpo de conhecimento. O produto final deste processo também é conhecido como uma descoberta casual ou achado de sorte.
Na verdade, há um elemento de sorte, boa ou má, mesmo na observação ou experimento mais cuidadosamente projetado, pois estamos sempre fadados a perder alguma variável ou outra. Adicionalmente, convém ter em mente a sábia observação de Louis Pasteur, de que “a sorte favorece apenas a mente preparada”. Por exemplo, os antigos astrônomos-astrólogos chineses observaram e admiraram Eta Carinae, essa estrela variável extremamente brilhante, mas apenas recentemente se soube que ela é na verdade composta de duas estrelas com uma massa total de cerca de 100 massas solares, e que suas explosões colossais resultam de reações nucleares em seu interior.
5. Processos endo-exo. Todas as escolhas e decisões racionais livres, bem como as ações resultantes, são processos espontâneos ou autoiniciados no CPF. Uma das experiências mais familiares deste tipo é o livre arbítrio, isto é, a volição não controlada por estímulos externos, como quando, após consideração cuidadosa, seguimos um curso de ação congruente com nossos princípios morais, mesmo que percebamos que é provável que nos prejudique. Os casos recentes mais notáveis deste tipo foram os monges budistas que atearam fogo a si mesmos para protestar contra a invasão americana do Vietnã.
A pesquisa científica guiada por hipóteses pertence a esta categoria. Com efeito, os projetos deste tipo são respaldados não apenas pelos pressupostos filosóficos habituais, como realismo e inteligibilidade, mas também por conjecturas específicas, como a possível ligação da molécula que está sendo investigada com receptores especiais na membrana da célula-alvo. Tal especificidade assumida guia a pesquisa, que então é tudo menos uma busca errática por tentativa e erro.
Presumivelmente, concussões, derrames e outras lesões cerebrais severas, bem como déficits em neurotransmissores devido à desnutrição ou consumo excessivo de álcool, traduzem-se em sintomas mentais ou comportamentais anormais, desde apatia e déficits de memória recente até baixo rendimento escolar e políticas e ações políticas desastrosas.
Uma investigação pioneira da forte correlação negativa entre desnutrição e espessura cortical anormalmente fina, e o correspondente baixo rendimento escolar de crianças mexicanas carentes (Cravioto et al. 1966), foi reveladora. Estudos muito posteriores (por exemplo, Lipina 2016, Gabrieli & Bunge 2017) corroboraram essa descoberta e acrescentaram precisão numérica: por exemplo, crianças em distritos escolares de alta pobreza pontuam quatro níveis abaixo dos pares nos distritos mais ricos. O trabalho do Conselho Científico Nacional dos EUA sobre a Criança em Desenvolvimento, iniciado nos anos 1990, não apenas fez contribuições adicionais para nossa compreensão da dependência do desenvolvimento cerebral em relação ao status socioeconômico. Também confirmou a variabilidade da natureza humana, bem como o papel da ciência na detecção de questões sociais e na elaboração de políticas sociais para resolvê-las (Navarro e Muntaner 2014).
6. Processos exo-endo-exo. Além dos processos unidirecionais listados acima, temos laços do tipo SBS. Um caso óbvio deste tipo é o grito de “gol” que expressa a alegria sentida ao assistir a um gol marcado por nosso time de futebol. Seu duplo, o Schadenfreude, é social e moralmente muito diferente da alegria saudável, mas presumivelmente envolve os mesmos sistemas neurais além do vocal.
Outro caso familiar de um laço SBS é o chamado teorema de Thomas. Este se resume na fórmula “As pessoas não reagem aos fatos, e sim ao modo como percebem os fatos”. Por exemplo, frequentemente compramos mercadorias, ou votamos em políticos, cuja “imagem” foi fabricada por agências de publicidade que embelezaram o produto em questão. Em outras palavras, algumas de nossas ações são movidas por crenças falsas, e às vezes supomos que outros também são enganados de maneira semelhante.
Até recentemente, pensava-se que esta capacidade de imputar crenças falsas a outros é específica dos humanos e, além disso, que emerge apenas após o quarto ano de vida. Trabalho recente da equipe de Michael Tomasello (Krupenye et al. 2016) sugere que bebês mais jovens, bem como três espécies de grandes símios, podem antecipar que coespecíficos agirão guiados por crenças falsas. Esta descoberta também sugere que a distinção tácita entre verdade e falsidade tem vários milhões de anos, em vez de ser uma invenção filosófica recente. Tanto pior para o slogan brutal de Nietzsche: “Deixe a vida ser, e deixe a verdade perecer”.
Por último, examinemos brevemente a crença popular de que “incursões crônicas e rixas caracterizam a vida em estado de natureza” (Pinker 2011). Esta opinião, enunciada pela primeira vez há quatro séculos por Thomas Hobbes, e popularizada nos anos recentes por psicólogos evolutivos de poltrona, foi desafiada por antropólogos como Fry e Söderberg (2013), que estudaram 21 bandos de forrageadores móveis distribuídos por quatro continentes. Eles concluíram que “a maioria dos incidentes de agressão letal pode ser apropriadamente chamada de homicídios, uns poucos de rixa, e apenas uma minoria de guerra”.
Conclusão
Em conclusão, o cérebro símio é altamente social, e algumas regiões dele são mais suscetíveis do que outras a estímulos sociais. Mas, como os experimentos de privação sensorial de Hebb nos anos 1950 mostraram, o cérebro desperto trabalha espontaneamente o tempo todo mesmo na ausência de estimulação externa, embora tenda a alucinar. O cérebro normal interage com seu ambiente imediato bem como com o restante do organismo. Esta descoberta sugere que a psicologia é uma ciência biossociológica, e não um capítulo da zoologia, como quer o biologismo, ou uma ciência puramente social, como imaginou o sociologismo. De fato, a tendência recente na psicologia é em direção à fusão ou convergência, e não à independência, e muito menos à simples redução. O que estamos vendo na psicologia contemporânea é a redução ontológica (do mental ao neural) junto com a integração disciplinar, exatamente o que William James (1890) havia prenunciado.
Agradecimentos
Agradeço a Agustín Ibáñez (INECO) por seus comentários críticos, bem como a María-Julia Bertomeu (Filosofia, Universidad Nacional de La Plata), Verónica Bunge Vivier (Ecologia, Conacyt, México DF), Iris Mauss (Psicologia, UCA, Berkeley) e Ignacio Morgado (Neurobiologia, Universidad Autónoma de Barcelona), pela ajuda com as referências.
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