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Por que a parapsicologia não pode se tornar uma ciência

Sessão espírita vitoriana com aparente levitação de mesa e indícios de truque físico.

Publicado por Mario Bunge na Behavioral and Brain Sciences (1987, vol. 10, nº 4, pp. 576-577), como comentário ao artigo de revisão de Ramakrishna Rao e John Palmer sobre parapsicologia.

Resumo: Neste ensaio, Mario Bunge argumenta que a parapsicologia não atende aos critérios de cientificidade, porque suas hipóteses centrais conflitam com conhecimentos consolidados da física, da psicologia e da neurociência, e também falham em oferecer resultados replicáveis de modo independente.

O cerne da brilhante acusação de Alcock contra a parapsicologia é que, após mais de um século de pesquisa, ela não conseguiu apresentar sequer um único indício sólido da existência de telepatia, precognição, telecinese ou qualquer outro suposto fenômeno paranormal. Isto é absolutamente verdadeiro, mas pode não convencer o empirista empedernido que acredita que pesquisas futuras, com métodos experimentais mais refinados, possam estabelecer a realidade de alguns dos alegados fenômenos parapsicológicos. Afinal, ele pode argumentar, os físicos não conseguiram detectar ondas gravitacionais mesmo meio século depois de terem sido previstas por Einstein e seus colaboradores. Por que as ondas psi não poderiam ser análogas?

Necessitamos, por conseguinte, de um argumento mais forte do que a mera falta de evidências positivas. Há ao menos quatro argumentos contra o empirista que está disposto a esperar por mais um século, e inclusive a ver parte do dinheiro de seus impostos investido em pesquisa parapsicológica.

O primeiro argumento é que a grande maioria dos parapsicólogos rejeita a possibilidade de estarem lidando com processos normais, ainda que atualmente desconhecidos, que eventualmente serão explicados pela física ou pela psicologia: eles insistem na paranormalidade dos fenômenos, bem como no caráter excepcional de sua disciplina. Por exemplo, afirmam que, diferentemente das interações físicas, que decaem com a distância, os fenômenos psi são independentes da distância. Assim, dois psíquicos poderiam conversar entre si com a mesma facilidade através do Atlântico ou através de uma mesa. Em outras palavras, os parapsicólogos não buscam explicações físicas do paranormal. De fato, eles nem sequer tentam explicar coisa alguma, limitando-se a afirmar a existência de fenômenos que não estão sendo investigados pela ciência normal e que não se pode esperar que sejam compreendidos dentro do arcabouço da ciência “normal”. A deles seria o estudo anômalo do anômalo. Portanto, tanto os crentes na percepção extrassensorial quanto os céticos concordam ao menos neste ponto: que não há nada a esperar de uma investigação científica dos fenômenos psi.

O segundo argumento é que os alegados fenômenos psi não estão apenas além dos fatos estudados pela ciência atual: eles são inconsistentes com certas descobertas básicas da ciência. Por exemplo, a telecinese é incompatível com as várias leis de conservação da energia, do momento linear e do momento angular. Com efeito, se a mente imaterial pudesse mover coisas materiais à distância, então a energia seria criada a partir do nada. (Neste caso, os psíquicos poderiam tomar o lugar das quedas d’água e dos combustíveis fósseis no acionamento de geradores elétricos.) E se a telepatia fosse possível, toda a psicologia fisiológica seria falsa, pois ela se baseia no pressuposto de que os fenômenos mentais são processos cerebrais. Com base neste pressuposto, é óbvio que a transmissão de pensamento sem um meio material é tão impossível quanto a digestão ou a respiração à distância (para mais argumentos nesta linha, ver Bunge 1980; Bunge & Ardila 1987).

O terceiro argumento foi fornecido involuntariamente por Broad (1949), um filósofo que acreditava firmemente na parapsicologia. Ele observou que a parapsicologia viola certos “princípios limitantes” básicos de todas as ciências. Por exemplo, a precognição envolve uma inversão da relação causal, já que os efeitos precederiam e produziriam suas causas. Ademais, se o futuro inexistente pudesse influenciar o presente, o nada seria causalmente eficaz. Algo semelhante ocorre com os outros tipos de alegados fenômenos paranormais: cada um deles viola ao menos um dos princípios filosóficos gerais (embora usualmente tácitos) que subjazem à pesquisa científica. Um desses princípios é que o mundo se compõe exclusivamente de coisas concretas (materiais) que se comportam de acordo com leis — que não existem objetos imateriais flutuando livremente, e que se algo parece anômalo, é apenas devido à nossa ignorância de suas leis. (Para detalhes sobre os fundamentos filosóficos da ciência, ver Bunge 1983.) Curiosamente, mesmo admitindo que tais princípios gerais da ciência são violados pela parapsicologia, Broad concluiu que, posto que a PES era um fato, a ciência deveria abandonar esses princípios. Mas então a ciência tal como a conhecemos teria de ser jogada ao mar. Quem, senão os anticientistas e pseudocientistas, está disposto a pagar um preço tão alto por um punhado de superstições antigas?

O quarto argumento provém da natureza sistêmica da ciência. Toda ciência genuína é membro de um sistema estreitamente articulado de campos de pesquisa que se sobrepõem parcialmente: não existem ciências isoladas. Em contrapartida, a parapsicologia não toma nada de empréstimo de outras ciências, em particular da psicologia e da neurociência, e tampouco contribuiu com algo para qualquer ciência. (Ela faz apenas algum uso da estatística matemática, mas os estatísticos raramente ficam satisfeitos com a maneira como os parapsicólogos manejam sua ciência.) Ademais, os parapsicólogos geralmente resistiram à sugestão de que sua disciplina fosse incorporada à psicologia, e muito menos à biopsicologia. (A psicanálise está, obviamente, no mesmo barco.) Dito de modo mais conciso: a parapsicologia não é um componente do sistema das ciências, e a maioria de seus praticantes não deseja que ela se torne um. Eles se sentem mais atraídos pelo fantasmagórico do que pelo material, e pelo misterioso do que por aquilo que pode ser explicado.

Finalmente, há duas razões pelas quais a analogia entre as supostas ondas psi e as ondas gravitacionais não pode ser usada para apoiar a pesquisa parapsicológica. Primeiro, as ondas gravitacionais foram descritas em termos exatos (a saber, como soluções das equações do campo gravitacional), enquanto as ondas psi foram apenas batizadas: ninguém conhece as equações que satisfazem, nem como poderiam ser geradas ou detectadas. Segundo, a predição da existência das ondas gravitacionais não é uma conjectura avulsa, e sim um membro de uma teoria científica sólida que foi confirmada em mínimos detalhes e que é coerente com o restante da física clássica. (A hipótese goza do respaldo indireto de aproximadamente 20 “efeitos” diferentes.) Por estas razões, vários experimentadores persistem em seus esforços para detectar essas ondas de energia extremamente baixa (portanto muito esquivas). Por outro lado, nenhum físico seria capaz de projetar um detector eficaz de ondas psi porque, por hipótese, tais “ondas” não transportam energia — embora, em violação das leis de conservação, supostamente causem movimentos à distância.

Em suma, a falta de evidência experimental firme para a percepção extrassensorial não é a única, nem sequer a característica mais importante da parapsicologia. O que é distintivo da parapsicologia, e decisivo para rejeitá-la, é que ela constitui um exemplo paradigmático de pseudociência (para mais sobre isto, ver Bunge 1982; 1985).

Referências

  • Alcock, J. E. (1981). Parapsychology: Science or magic? Pergamon.
  • Broad, C. D. (1949). The relevance of psychical research to philosophy. Philosophy, 24:291-309.
  • Bunge, M. (1980). The mind-body problem: A psychobiological approach. Pergamon.
  • Bunge, M. (1982). Demarcating science from pseudoscience. Fundamenta Scientiae, 3:369-88.
  • Bunge, M. (1983). Understanding the world. Reidel.
  • Bunge, M. (1985). Philosophy of science and technology, part 2: Life science, social science and technology. Reidel.
  • Bunge, M. & Ardila, R. (1987). Philosophy of psychology. Springer-Verlag.
Mario Bunge

Mario Bunge

Mario Bunge (1919-2020) foi físico e filósofo científico, sendo um dos pensadores de língua espanhola mais citados da história, de acordo com a revista Science. Foi membro honorário do Universo Racionalista. Concluiu seu doutorado em Física-matemática pela Universidade de La Plata, foi agraciado com cerca de 21 doutorados honoris causa e estudou Física Nuclear no Observatório Astronômico de Córdoba. Fundou a revista científico-filosófica Minerva em 1944. Foi professor de Física (1956-1958) e Filosofia (1957-1962) na Universidade de Buenos Aires, Argentina, e foi professor de Lógica e Filosofia (1962-2020) na Universidade McGill, em Montreal, Canadá. Em 1982, foi agraciado com o Prêmio Príncipe das Astúrias de Humanidades; em 1986, ganhou o Prêmio Konex na disciplina "Lógica y Teoría de la Ciencia"; em 2009, ganhou o Guggenheim Fellowship; em 2014, foi premiado com o prêmio Ludwig von Bertalanffy em "Complexity Thinking"; e, em 2016, recebeu o seu segundo Prêmio Konex, mas no campo de "Lógica y Filosofía de la Ciencia". Foi membro da American Association for the Advancement of Science (1984) e da Royal Society of Canada (1992). Foi autor de diversos artigos e livros como La edad del Universo (1955); Causalidad: el principio de causalidad en la ciencia moderna (1959); La ciencia, su método y su filosofía (1959); Ética y ciencia (1960); Intuición y ciencia (1962); El mito de la simplicidad (1963); La ciencia (1963); La investigación científica, su estrategia y su filosofía (1967); Los fundamentos de la física (1967); Teoría y realidad (1972); Filosofía de la física (1973); Semántica (1974); Tecnología y filosofía (1976); Epistemología (1980); El problema mente-cerebro (1980); Ciencia y desarrollo (1980); Materialismo y ciencia (1981); Economía y filosofía (1982); Lingüística y filosofía (1982); Controversias en física (1983); Intuición y razón (1986); Filosofía de la psicología (1987) e Mente y sociedad. Ensayos irritantes (1989). Além disso, o seu sistema filosófico está exposto em oito volumes que integram o seu Tratado de filosofía básica (1974-1989), intitulados respectivamente Sentido y referencia (1974); Interpretación y verdad (1974); El mobiliario del mundo (1977); Un mundo de sistemas (1979); Explorando el mundo (1983); Comprendiendo el mundo (1983); Filosofía de la ciencia y la tecnología (1985) e Ética: lo bueno y lo justo (1989).