O argumento non sequitur da visita extraterrestre

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Créditos: Billy Eduard Albert Meier.

“Somos pequenos bípedes, mas com sonhos gigantes”, poeta Diane Ackerman.

Voyager 1A ficção científica é algo fabuloso. Embora muita coisa do nosso atual cotidiano tenha sido inspirada a partir desse gênero, e ainda continua surgindo, muitas das elucubrações e previsões continuam sendo hipotéticas e apenas desejos. Infelizmente uma dessas é a viagem interestelar. É comum ler /escutar a seguinte frase (certamente com variantes, mas vale aqui para o exercício de ceticismo):

“O homem já mandou máquinas a outros planetas, portanto acredito que extraterrestres puderam ter nos visitado no passado.”

Pretendo mostrar que este argumento é fraco, ou pelo menos é um exagero concluir visitas extraterrestres a partir dessa comparação.

Inicialmente é necessário recordar algumas definições quando estamos nos referindo a distâncias cósmicas. Uma delas é o ano-luz. Fácil: é uma medida de comprimento (e não tempo) de valor aproximadamente de 10 trilhões de quilômetros (um trilhão = 1 seguido de 12 zeros). Portanto, dado as distâncias cósmicas, é natural que se use essa escala. Porém, alguns objetos estão bem pertos da Terra, e podemos utilizar submúltiplos do ano-luz (apenas com regra de três). Exemplo de distâncias:

Terra-lua: 1,25 segundos luz

Terra-Sol: 8 minutos-luz

Por exemplo, se o sol se apagasse nesse exato momento, demoraríamos 8 minutos para perceber isso. Isso porque a luz tem uma velocidade no vácuo de aproximadamente 300 000 Km/s. Uma das consequências do trabalho de Einstein foi demonstrar que nada no Universo viaja mais rápido que a luz. Viajar nessa velocidade significa que para ir até a lua demoraríamos 1,25 segundos. Entretanto não dispomos dessa tecnologia, e é por isso que a viagem até ao nosso satélite natural será mais demorada tanto quanto mais lenta for a velocidade da nossa espaçonave.

O planeta mais distante que conseguimos mandar uma sonda com o objetivo de pousar na superfície foi em Marte (embora a sonda Huygens tenha atingido o solo da lua Titã, mais longe que Marte, isso só ocorreu uma vez e enviou sinais por 90 minutos). O planeta vermelho dista da Terra em torno de 225 milhões de Km, o equivalente de 12,5 minutos-luz (é um valor médio, pois essa distância é variável e depende da órbita elíptica dos planetas). Uma grande façanha, sem dúvidas. Entretanto ainda estamos no quintal cósmico. O planeta Marte faz parte de nosso sistema solar, este que ainda conhecemos deveras pouco.

Nesse exato momento temos outra razão para se orgulhar da tecnologia humana. Refiro-me a sonda Voyager, o objeto mais veloz lançado ao espaço, que partiu da Terra há 35 anos e percorreu desde então 18,5 bilhões de Km, com uma média de velocidade de 17 Km/s (~ 61 000 Km/h).

Espera-se que nos próximos anos a sonda alcance o limite de nosso sistema solar. Uma comparação útil para entender melhor a monstruosidade das distâncias envolvidas em (futuras) viagens estelares pode ser realizada através dos dados da sonda Voyager 1. Os 18,5 bilhões de Km percorridos pela sonda correspondem a aproximadamente 17 horas-luz. Na prática, isso seria o equivalente a executar mais de 1.450.000 voltas em torno do planeta Terra (quase um milhão e 500 mil voltas). Sim, é bastante; porém perfeitamente crível dado o tempo de 35 anos que a sonda já foi lançada.

Ainda assim, o limite do sistema solar é uma distância desprezível comparada às distâncias estelares. Isso porque a distância da estrela mais próxima da Terra (próxima centauri) está a 4,2 anos-luz. Mantendo a comparação acima, viajar para esta estrela (e portanto visitar os planetas deste sistema) seria o equivalente a mais de 3 bilhões de voltas ao redor do planeta Terra. E o tempo para essa façanha? Considerando a velocidade média da Voyager, demoraria 73 mil de anos para se alcançar a próxima centauri. Esse tempo é gigantesco na escala humana; e para efeito de comparação considere que o comportamento moderno da nossa espécie foi atingindo há cerca de 50 mil anos.

Outra maneira de visualizar isso é comparar a distância da qual a sonda já percorreu até hoje, ou seja, 17 horas-luz e descontar de 4,2 anos-luz. Apenas para completar um ano-luz já seria necessária uma distância extra a percorrer de 8749 horas-luz (ou 9,4 trilhões de Km – equivalente a 730 milhões de voltas ao redor da Terra).

Vale salientar que não é somente a velocidade um fator decisivo. Uma viagem dessas exigiria uma quantidade imensa de energia. Nesse sentido, cálculos sugerem que mesmo se fosse disponível um reator de fusão nuclear (tecnologia do qual ainda não dispomos), seria necessária uma quantidade de combustível ao equivalente de mil navios supertanques, e ainda o tempo de viagem poderia ser reduzido para no máximo 900 anos. Isso motiva mais uma pergunta: como levantar a partir do solo uma massa tão gigantesca como esta? Outro interessante cálculo estima que para uma espaçonave viajar até a estrela mais próxima mantendo 70% da velocidade da luz (certamente uma façanha extraordinária, lembrando que a Voyager mantém a média de 0,005% da velocidade da luz) seriam necessários uma quantidade de energia igual a 2,6×1016 Joules. Na prática, isso significa o equivalente de toda energia elétrica produzida no planeta durante 100 mil anos, e ainda assim a viagem tomaria 6 anos.

Ainda é possível questionar independente de cálculos. Uma civilização extraterrestre deve, obviamente, ser tecnologicamente capaz de enviar sondas ao nosso planeta. Isso pressupõe não somente o aparecimento de vida em outro planeta, mas também que essa vida eventualmente tenha conseguido ter uma evolução tecnológica capaz de investigar o Universo e criar máquinas inteligentes. E mais, apenas o eventual surgimento de uma civilização tecnológica não garante que ela seja capaz de vencer a dificuldade das viagens interestelares.  E mesmo que consiga, dado a vastidão do Universo, é outro desafio que o alvo da visita seja necessariamente o planeta Terra. Além disso, mesmo se todos esses requisitos fossem fáceis de ocorrer no Cosmos, ainda temos que supor o interesse de uma civilização por investigar o Universo. Quem sabe esse desejo não seja algo intrínseco a própria natureza humana; uma espécie de busca antropocêntrica para amenizar a solidão e silêncio cósmico.

O fato de nossa espécie humana ter interesse de investigar outros mundos e, apesar de ainda estarmos engatinhando, de fato temos visitado outros lugares no Universo não segue disso que o mesmo deva acontecer com uma civilização extraterrestre. E se ela existe (acredito que sim, e nesse sentido encontro a defesa disso através do princípio da mediocridade ou, na linguagem de Barcelos, no pluralismo), deverá vencer uma dificuldade técnica monstruosa para poder levar à cabo viagens desse tipo. Isso tudo elimina com certeza absoluta a visita de extraterrestres (no passado ou futuro)? Certamente não. Mas torna este evento muito improvável, sobretudo quando as alegações de visitas no passado carecem de evidências. Portanto, defender que extraterrestres já nos visitaram deve ir muito além de alegações ou opiniões populares com fraca justificação. A forte adesão pela vontade que algo tivesse acontecido não garante que de fato tenha ocorrido. E para avaliar isso devemos encaminhar nossa observação a um escrutínio que seja apoiado nas razões pelas quais deveríamos acreditar em algo.

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