O coronavírus está no ar. No entanto, as nações estão focando muito nas superfícies

A contaminação por coronavírus através de superfícies é extremamente rara. A Organização Mundial da Saúde e as agências nacionais de saúde pública precisam esclarecer seus conselhos.

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Uma equipe desinfetando o Grande Teatro Qintai em Wuhan, China, em janeiro. Créditos: Xia Junjun / VCG / Getty Images.

Publicado na Nature

Um ano após o início da pandemia, as evidências agora são claras. O coronavírus SARS-CoV-2 é transmitido predominantemente pelo ar – por pessoas falando e expirando grandes gotículas e pequenas partículas chamadas aerossóis. Pegar o vírus através de superfícies – embora plausível – parece ser raro.

Apesar disso, alguns órgãos de saúde pública ainda enfatizam que as superfícies representam uma ameaça e devem ser desinfetadas com frequência. O resultado é uma mensagem pública confusa quando uma orientação clara é necessária de como priorizar os esforços para evitar a propagação do vírus.

Em sua orientação pública mais recente, atualizada em outubro passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aconselhou: “Evite tocar em superfícies, especialmente em locais públicos, porque alguém com COVID-19 poderia ter tocado antes. Limpe as superfícies regularmente com desinfetantes padrão”. Um representante da OMS disse à Nature em janeiro que há evidências limitadas de transmissão do coronavírus através de superfícies contaminadas conhecidas como fômites. Mas eles acrescentaram que os fômites ainda são considerados um possível modo de transmissão, citando evidências de que o RNA do SARS-CoV-2 foi identificado “nas proximidades de pessoas infectadas com o SARS-CoV-2”. E embora os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos digam em seu site que a transmissão de superfície “não é considerada uma forma comum de disseminação da COVID-19”, também afirma que a “desinfecção frequente de superfícies e de objetos tocados por várias pessoas são importantes”.

Essa falta de clareza sobre os riscos dos fômites – em comparação com o risco muito maior representado pela transmissão pelo ar – tem sérias implicações. Pessoas e organizações continuam a priorizar esforços de desinfecção bastante caros, quando poderiam colocar mais recursos para enfatizar a importância das máscaras e investigar medidas para melhorar a ventilação. Este último será mais complexo, mas pode fazer mais diferença.

A Autoridade de Trânsito Metropolitano da cidade de Nova York, sozinha, estima que seus custos anuais de saneamento relacionados a COVID-19 ficarão perto de US$ 380 milhões entre hoje e 2023. No final do ano passado, a autoridade pediu ao governo federal dos EUA um conselho sobre se deveria focar exclusivamente em aerossóis. Foi dito para se concentrar em fômites também, e até agora foi direcionado mais recursos para a limpeza de superfícies do que para o combate aos aerossóis.

Agora que todos concordaram que o vírus é transmitido pelo ar, em gotículas grandes e pequenas, os esforços para prevenir a disseminação devem se concentrar em melhorar a ventilação ou instalar purificadores de ar rigorosamente testados. As pessoas também devem ser lembradas de usar máscaras e manter uma distância segura. Ao mesmo tempo, agências como a OMS e o CDC precisam atualizar suas orientações com base no conhecimento atual. A pesquisa sobre o vírus e a COVID-19 avança rapidamente, de modo que as agências de saúde pública têm a responsabilidade de apresentar informações claras e atualizadas que forneçam o que as pessoas precisam para manter a si mesmas e outras seguras.