O efeito Einstein: as pessoas confiam mais em besteiras se pensam que um cientista as disse

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Albert Einstein em 1947.

Por Conor Feehly
Publicado na ScienceAlert

A descontinuidade é a antítese da inspiração. A complexidade do tempo presente parece exigir um desvelamento de nossas esperanças se quisermos sobreviver. Esta vida é nada menos que uma osmose florescente de compreensão mítica. Parece besteira? É porque é.

Essas declarações foram geradas usando o New Age Bullshit Generator, um algoritmo que combina palavras da moda no campo da Nova Era e palavras aparentemente intelectuais para criar frases que soam profundas.

Uma equipe internacional de pesquisadores recentemente apresentou às pessoas algumas ‘mentiras pseudoprofundas’ criadas pelo gerador para ver se elas achavam as declarações mais críveis se viessem de um cientista ou se viessem de um guru espiritual.

No total, 10.195 participantes de 24 países responderam perguntas relacionadas à suposta credibilidade das declarações; também foram questionados sobre seus próprios graus de religiosidade.

Os resultados sugerem que as pessoas geralmente acham as declarações mais críveis se vierem de um cientista quando comparadas às atribuídas à um guru espiritual, com 76% dos participantes classificando a besteira do ‘cientista’ na média ou acima da escala de credibilidade, em comparação com 55% com a do ‘guru’.

Tradução livre do lero-lero atribuído ao ‘cientista’ inexistente Edward K. Leal: “Sim, é possível exterminar as coisas que nos confrontam, mas não sem esperança ao nosso lado. Turbulência nasce na lacuna onde a transformação foi excluída. É no processo de evolução que estamos reenergizados”. Créditos: Hoogeveen et al., Nat. Hum. Behav., 2022 / New Age Bullshit Generator.

Além disso, os indivíduos que pontuaram alto em religiosidade ainda mostraram preferência pela afirmação do cientista em relação ao guru espiritual; no entanto, foi uma pontuação relativamente manor do que a amostra geral. Indivíduos religiosos também deram julgamentos de maior credibilidade aos gurus em comparação com a amostra geral, mas ainda foram inferiores aos do cientista.

Os autores acham que seus resultados podem estar relacionados ao que foi anteriormente chamado de “efeito Einstein”, onde fontes confiáveis ​​de informação recebem o benefício da dúvida por causa da credibilidade social que possuem.

“De uma perspectiva evolutiva, a deferência a autoridades confiáveis, como professores, médicos e cientistas, é uma estratégia adaptativa que permite o aprendizado cultural e a transmissão de conhecimento eficazes. De fato, se a fonte for considerada um especialista confiável, as pessoas estarão dispostas a acreditar nas afirmações dessa fonte sem entendê-la completamente”, afirmaram os pesquisadores.

Em outras palavras, os conceitos que Einstein podia compreender estavam fora do grau de intelectualidade da maioria das pessoas e, portanto, um certo nível de confiança de que ele sabe do que está falando deve ser concedido.

No entanto, em alguns casos, a equipe sugere que declarações incompreensíveis de fontes confiáveis ​​podem ser apreciadas não somente apesar da sua incompreensibilidade, mas por causa dela, demonstrada na fala de alguns líderes espirituais – podemos chamar isso de ‘efeito Guru’.

Uma interpretação ligeiramente diferente dos resultados argumenta que a credibilidade do que alguém está dizendo e quem eles são dependem de fatores individuais e culturais, como a ideologia política e a visão de mundo do observador.

“Na ausência de meios para avaliar racionalmente uma afirmação e uma fonte confiável de informações, as pessoas provavelmente inferem credibilidade com base em crenças sobre o grupo ao qual a fonte pertence (por exemplo, ‘conservadores’, ‘cientistas’). Nesse processo, similaridades entre a visão de mundo da própria pessoa e a do grupo da fonte pode servir de indicador para ser uma fonte benevolente e confiável”, observaram os autores.

Pesquisas anteriores descobriram que os cristãos exigem menos evidências para alegações religiosas (a eficácia da oração para curar doenças) do que para alegações científicas (a eficácia de medicamentos para curar doenças). Além disso, os cristãos evangélicos são mais propensos a aceitar declarações que se opõem às suas visões pessoais quando as visões são atribuídas a um líder religioso interno em comparação a um líder religioso externo.

Tradução livre do lero-lero atribuído ao guru inexistente Saul J. Adrian: “Nós estamos sendo chamados para explorar o cosmos em si como uma relação entre a fé e a empatia. Nós devemos aprender como guiar vidas autênticas na face da desilusão. É no aprimoramento que somos guiados”. Créditos: Hoogeveen et al., Nat. Hum. Behav., 2022 / New Age Bullshit Generator.

No estudo atual, os autores optaram por contrastar ‘cientista’ com ‘guru espiritual’ em vez de ‘líder religioso’, porque queriam ter certeza de selecionar uma autoridade que não fosse específica de nenhuma religião em particular, uma vez que o estudo estava acontecendo em diversos países.

“Enquanto religiosidade e espiritualidade são construções sobrepostas, mas não intercambiáveis, a religiosidade autorrelatada tem sido positivamente associada à crença em fenômenos espirituais como destino, energia espiritual e um universo conectado. Consequentemente, esperávamos que a religiosidade estivesse associada ao aumento da receptividade para as besteiras de uma autoridade espiritual”, disseram os autores.

Embora haja variação entre as culturas em relação a quem é considerado a fonte de informação mais confiável, os autores apontam que, em algum momento do passado, os cientistas ultrapassaram os líderes espirituais e religiosos como as principais fontes confiáveis ​​de informação, pelo menos em termos de explicações para fenômenos no mundo físico.

Não é nenhum segredo que as informações provenientes de um cientista são consideradas confiáveis ​​hoje, com uma série de campanhas publicitárias e políticas em todo o mundo atraindo cientistas para validar seus próprios produtos e ideias. Felizmente, os cientistas e a ciência em geral encorajam uma boa dose de ceticismo quando grandes afirmações são feitas.

O estudo foi publicado na Nature Human Behavior.