O mal é uma doença? O EI e a neurociência da brutalidade

É difícil entender como os nazistas, o Estado Islâmico e outros grupos radicais conseguiram tornar pessoas normais em assassinos brutais. Mas talvez a maldade seja uma doença – uma que podemos tratar.

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Navesh Chitrakar/Reuters

Por Laura Spinney
Publicado na New Scientist

Por que um adulto aparentemente normal sairia da faculdade para depois aparecer em um vídeo fazendo uma execução a sangue frio em nome da jihad? É um enigma sobre o qual estamos forçados a refletir desde que um grupo que se autodenomina Estado Islâmico do Iraque e da Síria declarou guerra aos infiéis. Mas 70 anos atrás nos perguntávamos algo parecido sobre guardas nazistas em campos de concentração – e, infelizmente, houve muitas oportunidades entre essas de ponderar sobre a questão.

O que transforma uma pessoa normal em um assassino? A ideia de que um ser humano civilizado pode ser capaz de atos barbáricos é tão estranha que frequentemente culpamos nossos instintos animais – as mais antigas e “primitivas” áreas do cérebro tomando controle e subvertendo as contrapartes mais racionais. Mas pensamentos mais recentes vão contra esta explicação de longa data. Os mesmos sugerem que pessoas executam atos brutais porque regiões superiores e mais desenvolvidas reagem exageradamente. Este conjunto de mudanças no cérebro envolvidas foi apelidado de Síndrome E – com o E significando “mal” (evil).

Em um mundo onde assassinatos por ideologias são abundantes, novas visões sobre este problema são extremamente necessárias. Mas reformular o mal como uma doença é controverso. Alguns acreditam que poderia ser usado para justificar atos hediondos ou dar a organizações extremistas uma receita para radicalizar mais jovens. Outros argumentam que isto nega a realidade que todos possuem o potencial interno para o mal. Defensores, de outro lado, dizem que se o mal realmente é uma patologia, a sociedade tem o dever de tentar diagnosticar indivíduos susceptíveis e reduzir o contagio. E se isso for possível, talvez possamos reverter a situação do radicalismo também.

O Massacre de Srebrenica foi o pior da Europa desde a Segunda Guerra Mundial. (Paolo Pellegrin/Magnum Photos)
O Massacre de Srebrenica foi o pior da Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
(Paolo Pellegrin/Magnum Photos)

Após a Segunda Guerra Mundial, o comportamento de guardas em campos de concentração nazistas se tornou objeto de estudo, com alguns pesquisadores os vendo como executores voluntários motivados por ideologias e outros, como apenas cumpridores de ordens. O debate foi reaquecido na década de 1990 durante o Genocídio de Ruanda e o massacre de Srebrenica, na Bósnia. Em 1996, um editorial da revista britânica The Lancet apontou que ninguém estava se referindo ao mal de um ponto de vista biológico. O neurocirurgião Itzhak Fried, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, decidiu enfrentar o desafio.

Em um artigo publicado em 1997, ele argumentou que a transformação de indivíduos não-violentos em assassinos é caracterizada por uma série de sintomas que sugerem uma condição comum, a qual ele denominou de Síndrome E. Ele sugeriu que esta é um resultado de uma “fratura cognitiva”, que ocorre quando uma área do cérebro mais superior, o córtex pré-frontal (CPF) – responsável por pensamentos racionais e tomada de decisões – para de focar em sinais de regiões mais primitivas do cérebro e se sobrecarrega.

Fried diz que a ideia atiçou a imaginação das pessoas porque ela sugere que possamos começar a definir e descrever esta falha básica da condição humana. “Assim como um grupo de sintomas como febre e tosse podem indicar pneumonia, definir quais sintomas que indicam esta síndrome pode significar que ela pode ser reconhecida em seus primeiros estágios.” Mas era uma teoria em busca de evidências. A neurociência tem percorrido um longo caminho desde então e, no começo desse ano, Fried organizou uma conferência em Paris para revisitar o conceito.

No nível mais fundamental, entender o porquê de pessoas matarem é entender sobre tomada de decisões, e neurocientistas presentes na conferência se basearam nisto. A teoria de Fried começa com a suposição de que pessoas naturalmente tem uma aversão a machucar os outros. Caso ele esteja correto, a parte superior do cérebro domina este instinto em pessoas com a Síndrome E. Como isso ocorre?

Estinne Koechlin, do Ecole Normale Superirure em Páris, foi capaz de lançar uma luz empírica nesse assunto por meio de observações de pessoas obedecendo regras que causavam conflitos com suas próprias preferências. Ele deixou voluntários dentro de um scanner cerebral e os deixaram escolher entre duas tarefas simples, guiados por experiências próprias para julgar qual seria mais compensadora financeiramente (pagando 6 ou 4 euros). Após um tempo, ele aleatoriamente inseriu regras: agora haveria um código de cores indicando qual das duas tarefas escolher e voluntários foram informados que, caso eles desobedecessem, não ganhariam nada.

Como esperado, eles seguiram a regra, mesmo quando isso significava escolher a tarefa que os recompensaria com um pagamento menor. Mas algo inesperado aconteceu, mesmo que ter que cumprir uma regra significaria uma decisão mais simples, os voluntários demoraram mais tempo para escolher, como fariam em situações de conflito. Nos exames cerebrais, tanto as regiões laterais e medianas do CPF se destacaram. A primeira é já conhecida de ser sensível a regras; a última recebe informação do sistema límbico, uma antiga parte do cérebro que processa estados emocionais, sensível a preferências inatas. Em outras palavras, quando seguindo a regra, pessoas ainda consideravam suas preferências pessoais, mas a atividade no lateral do CPF se sobrepunha.

Obviamente, escolher entre alguns euros é muito distante de escolher matar seres humanos. No entanto, Koechlin acredita que seus resultados mostram que nossos valores instintivos permanecem mesmo durante uma mudança de regra. “Regras não mudam valores, apenas comportamentos”, diz. Ele interpreta que partes do cérebro superior sobrepondo sinais vindo de áreas primitivas são reações naturais, e não patológicas. Caso a ideia de Fried esteja correta, este processo se sobrecarrega na Síndrome E, o que ajuda a explicar como que uma pessoa normal supera sua aversão a matar. A mesma neurociência pode ser a base de famosos experimentos conduzidos pelo psicólogo Stanley Milgram da Universidade de Yale na década de 1960, que revelou níveis extraordinários em que pessoas desobedeceram uma autoridade – até mesmo administrando o que eles achavam ser choques elétricos letais a estranhos.

Fried sugeriu que uma reação visceral ocorre quando uma pessoa mata pela primeira vez, mas alguns rapidamente se tornam dessensibilizados. E o instinto primário de não machucar outros pode ser superado mais facilmente quando pessoas estão “apenas cumprindo ordens.” Em um trabalho não publicado, Patrick Haggard, da University College London, tinha usado exames cerebrais para mostrar que isso é suficiente para nos sentir menos responsáveis por nossas ações. “Há algo sobre ser coagido que produz uma experiência diferente de controle”, ele diz, “como se as pessoas fossem capazes de subjetivamente distanciar-se deste evento desagradável que elas estão causando.”

No entanto, o que é alarmante sobre muitos relatos de assassinatos em massa, tanto contemporâneos e históricos, é que os perpetradores regularmente escolhem matar mesmo quando não são comandados. Em seu livro Ordinary Men, o historiador Christopher Browning conta o caso de uma unidade nazista chamada para reservar o batalhão policial 101. Nenhum membro desta unidade foi forçado a matar. Uma pequena minoria mataram por impaciência no começo, mas pode ser que sofriam de tendências sádicas ou psicopáticas. Porém, a grande maioria daqueles que hesitaram a matar no começo mudaram a postura e se tornaram tão cruéis como os outros. Browining os chamou de assassinos de “rotina”, como uma vez que começaram a matar, logo se tornou um habito.

Hábitos há muito tempo são considerados comportamentos irrefletidos e semiautomáticos em que a parte mais superior do cérebro não está envolvida. Isso parece apoiar a ideia de que o cérebro primitivo está no controle quando as pessoas aparentemente normais se tornam assassinos. Mas esta interpretação é contestada pela nova pesquisa da neurocientista Ann Graybiel do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Ela estuda pessoas com transtornos psiquiátricos comuns, tais como o vício e depressão, que, por conta disso, habitualmente tomam decisões ruins. Em situações de alto risco e ameaça, elas tendem a minimizar o custo com relação ao benefício e aceitar um nível não-saudável de risco. O trabalho de Graybiel sugere que a parte mais superior do cérebro tem a culpa.

Em uma série de experimentos, o seu grupo treinou ratos para adquirir hábitos – seguindo certos percursos em labirintos. Os pesquisadores então suprimiu a atividade de neurônios em uma área do CPF que bloqueia sinais provenientes de uma parte primitiva do cérebro chamada amígdala. Os ratos imediatamente mudaram seu comportamento em funcionamento – o hábito havia sido quebrado (PNAS, vol 109, pág. 18932). “A velha ideia de que o cérebro cognitivo não tem acesso avaliativo para o comportamento habitual, e que é além de seu alcance, é falsa”, diz Graybiel. “Ele tem o controle avaliativo a todo momento.” Isso é emocionante, diz ela, porque sugere uma maneira de tratar as pessoas com hábitos mal adaptativos, tais como transtorno obsessivo-compulsivo, ou mesmo, potencialmente, a Síndrome E.

O que fez a experiência possível é uma técnica conhecida como optogenética, que permite o uso da luz para regular a atividade dos neurônios geneticamente modificadas no CPF do rato. Isso não seria permitido em humanos, mas terapias cognitivas ou comportamentais, ou até drogas, podem conseguir o mesmo efeito. Graybiel acredita que pode até ser possível impedir que pessoas decidam matar, em primeiro lugar, orientando-as para longe do tipo de análise custo-benefício que as levaram, digamos, a planejarem uma explosão em um ônibus lotado. Em experiências separadas com ratos em situações de risco, sua equipe descobriu que uma diminuição na atividade optogenética em outra parte do sistema límbico que se comunica com o CPF, o corpo estriado, fizeram os ratos mais avessos ao risco: “Nós podemos apenas apertar uma válvula e alterar radicalmente seu comportamento”, diz ela (Cell, vol 161, pág. 1,320).

Crianças palestinas: como julgar quando o comportamento é de mal adaptação? (Shahid Aziz/EPA)
Crianças palestinas: como julgar quando o comportamento é de mal adaptação? (Shahid Aziz/EPA)

Se a sociedade iria perdoar essas intervenções é uma outra questão, como Graybiel reconhece. Se o lado terrorista de uma pessoa é mostrado por outro lado como “combatente da liberdade”, então quem deve definir o comportamento mal-adaptativo? Este argumento é reforçado pelo antropólogo Scott Atran, da Universidade de Michigan, que no início deste ano discursou perante o Conselho de Segurança da ONU sobre sua pesquisa relacionada a violência de motivação ideológica. “A Al-Qaeda e o EI argumentam que os ataques a Hiroshima e Nagasaki, sem levar em conta as baixas civis, são perversos”, diz ele.

Atran se opõe à ideia do mal patológico e outros compartilham seus escrúpulos. Para o psicólogo social Stephen Reicher, da Universidade de St Andrews, Reino Unido, o problema com a Síndrome E é que ela divide o mundo em “nós” e “eles”. Ela supõe que apenas pessoas com mentes defeituosas são capazes do mal, quando na verdade todos são, dado o contexto de certo (ou errado). Se quisermos fazer do mundo um lugar menos violento, diz ele, temos que considerar esse contexto. E que nos obriga a não considerar apenas o indivíduo, mas também o coletivo.

As notas que Milgram manteve durante suas famosas experiências estão sendo divulgadas, diz Reicher, porque elas mostram que as pessoas realmente exibiram toda a gama de respostas, de participação entusiástica à recusa por indecisão ansiosa. O que determinou a resposta de um indivíduo era se ele se identificava mais com o experimentador – a figura de autoridade – ou com a vítima. Ele acredita que a questão chave é como os autores de massacres definem a si mesmos – o grupo que eles se identificam e quem, individualmente, eles reconhecem como uma ameaça.

Isso faz sentido dado o que sabemos sobre o comportamento de grupo. Os humanos evoluíram como animais ultra-sociais, contando com membros de grupos para a sobrevivência. Nossa tendência a se agrupar é tão intensa que apenas adotar uma cor é o suficiente para nós se filiarmos com um estranho que ostenta a mesma cor. O neurocientista cognitivo Julie Grèzes, também da École Normale Supérieure, argumenta que pertencer até mesmo a um pequeno e efêmero grupo determina bastante o modo como percebemos os forasteiros. Sentimos menos empatia para com pessoas fora do nosso grupo e nós podemos literalmente desumanizar-los.

Baía de Guantánamo, Cuba, onde os detidos são mantidos "em quarentena". (Zuma Press/Eyevine)
Baía de Guantánamo, Cuba, onde os detidos são mantidos “em quarentena”. (Zuma Press/Eyevine)

Por tendermos a adotar as crenças e valores de qualquer grupo que identificamos, nossos grupos também influenciam a forma como nos comportamos em relação aos estrangeiros. “O que é verdadeiramente tóxico”, diz Reicher, “é uma construção de grupo que torna o genocídio um ato de virtude e interpreta os assassinos como os mais nobres entre nós.”

Mas os grupos podem ser uma força boa e civilizadora também. Na verdade, a resistência à violência também tende a ocorrer na forma de coletivos, como mostrado por três jovens dos EUA que impediram uma tentativa de assassinato de um atirador dentro de um trem francês em agosto. Tipos solitários, por outro lado, pode ser a presa mais fácil para aqueles defendendo o extremismo violento.

Aqui reside o yin e o yang do problema. Devemos realmente incentivar a associação de grupo, Reicher argumenta, porque pode ser a melhor proteção contra a convicção insalubre que somos mais virtuosos do que as pessoas fora do nosso grupo. Também devemos educar as pessoas para serem cautelosas com essas distinções morais de preto-ou-branco, ele diz.

Identificando os sintomas

Então onde isso nos deixa? Ambos Reicher e Atran acreditam que pesquisas futuras devem se concentrar menos em estudar os motivos das pessoas decidirem realizar atos extremos e mais sobre o que, em primeiro lugar, os atraem para organizações extremas. Falando na ONU, Atran argumentou que os jovens precisam de um sonho. Apelos à moderação nunca vão ser atraentes para os “jovens ansiando por aventura, para a glória e para significância”, disse ele.

Mas Fried incentiva que a neurociência tem reforçado a ideia da Síndrome E e ainda acredita que pode ser benéfico para pensar, em termos, sobre o que está acontecendo dentro do cérebro de um assassino. Além do mais, a dinâmica de grupo pode ajudar a explicar porque o CPF é a raiz do mal. Afinal, as partes recentemente desenvolvidas do cérebro respondem a regras precisamente porque as regras são essenciais para o bom funcionamento de grupos. A possibilidade de que esta resposta útil pode ir para lados mais radicais é talvez o preço que pagamos.

Fried não é um defensor do uso de drogas para tratar a Síndrome E. Em vez disso, ele acha que devemos usar nosso crescente conhecimento neurocientífico para identificar a radicalização logo no início, isolar os afetados e ajudá-los a mudar. “Os sinais e sintomas devem ser amplamente divulgados, de modo que as pessoas possam identificá-los”, diz ele. Quando se trata de prevenção, ele acha que a educação é possivelmente a chave. E nisso, pelo menos, ele concorda com seus detratores.

Sete sintomas do mal

A ideia de que o mal é uma doença baseia-se na observação de que assassinos em massa compartilham alguns traços comuns:

  • Violência repetitiva compulsiva
  • Crenças obsessivas
  • Dessensibilização rápida à violência
  • Estado emocional raso
  • Separação da violência das atividades cotidianas
  • A obediência a uma autoridade
  • Os membros do grupo se reconhecendo como virtuosos
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