O mundo de Giordano Bruno

Na imagem, o filósofo Giordano Bruno.

Há 415 anos (17 de fevereiro 1600), um frade dominicano chamado Giordano Bruno foi queimado na fogueira por heresia. Apenas uma semana antes, a cerca de 1.300 km de distância, no mesmo mês e ano, Johannes Kepler estava chegando em Praga a pedido de Tycho Brahe, e percorrendo o “portal” que levou à descoberta das leis do movimento planetário e, eventualmente, a descoberta de inúmeros novos mundos.

Porque há um único espaço em geral, uma única vasta imensidão que podemos livremente chamar de vácuo; Nele inúmeros globos como este em que vivemos e crescemos. Este espaço declaramos ser infinito, uma vez que nem a razão, conveniência, possibilidade, senso de percepção, nem a natureza atribui a ela um limite. Nele contém uma infinidade de mundos do mesmo tipo que o nosso. [1]

— Giordano Bruno

Uma breve história

Giordano Bruno (1548 – 17 de fevereiro de 1600), foi um frade dominicano italiano, filósofo, matemático, poeta e astrólogo. [2] Ele é celebrado por sua teorias cosmológicas, que foi ainda mais longe do que o modelo de Copérnico, propondo que as estrelas eram sóis apenas distantes cercados por seus próprios planetas, e, além disso, a possibilidade de que esses planetas poderia até mesmo existir vida (a posição filosófica conhecida como pluralismo cósmico). Ele também insistiu que o Universo é na verdade infinito, tendo, portanto, nenhum corpo celeste em seu “centro”.

Em 1593, Bruno foi julgado por heresia pela Inquisição romana sob as acusações de negação de várias doutrinas católicas centrais (incluindo a Trindade, a divindade de Cristo, a virgindade de Maria, e Transubstanciação). O panteísmo de Bruno também foi um motivo de grande preocupação. [3] A Inquisição considerou-o culpado, e em 1600 ele foi queimado na fogueira, em Roma. Depois de sua morte, ele ganhou fama considerável. No início do século XX, os pensadores começaram a vê-lo como um mártir para a ciência, [4] embora os estudiosos destacam que as opiniões astronômicas de Bruno foram, no máximo, um componente menor das crenças teológicas e filosóficas que o levaram ao seu julgamento. [5][6][7] Bruno ainda é considerado um marco na história do pensamento livre e para o futuro das ciências emergentes. [8][9][10]

A historiadora Frances Yates argumenta que Bruno foi profundamente influenciado pela astrologia árabe, neoplatonismo, hermetismo renascentista e pelo deus egípcio Thoth. [11] Outros estudos de Bruno concentraram-se em sua abordagem qualitativa para a matemática e sua aplicação dos paradigmas espaciais da geometria para a linguagem. [12]

O filme de Giordano Bruno

Um filme histórico sobre a vida e morte de Giordano Bruno que foi produzido em meados dos anos 70. [13]

Referências

[1] BRUNO, Giordano. On the Infinite Universe and Worlds. 1584.

[2] Bruno foi um filósofo e matemático, mas não é considerado um astrônomo pela comunidade astronômica moderna como não há registro dele ter realizado observações físicas, como temos de Brahe, Kepler e Galileu. POGGE, Richard W. http://www.astronomy.ohio-state.edu/~pogge/Essays/Bruno.html 1999.

[3] Birx, Jams H.. “Giordano Bruno”. The Harbinger, Mobile, AL, November 11, 1997. “Bruno was burned to death at the stake for his pantheistic stance and cosmic perspective.”

[4] LABRIOLA, Arturo. Giordano Bruno: Martyrs of free thought no. 1

[5] YATES, Frances. Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, Routledge and Kegan Paul, 1964, p. 450

[6] CROWE, Michael J., The Extraterrestrial Life Debate 1750–1900, Cambridge University Press, 1986, p. 10, “[Bruno’s] sources… seem to have been more numerous than his followers, at least until the eighteenth- and nineteenth-century revival of interest in Bruno as a supposed ‘martyr for science.’ It is true that he was burned at the stake in Rome in 1600, but the church authorities guilty of this action were almost certainly more distressed at his denial of Christ’s divinity and alleged diabolism than at his cosmological doctrines.”

[7] FRANK, Adam. The Constant Fire: Beyond the Science vs. Religion Debate, University of California Press, 2009, p. 24, “Apesar de Bruno ter sido um pensador brilhante cujo trabalho se destaca como uma ponte entre o pensamento antigo e moderno, sua perseguição não pode ser vista apenas à luz da guerra entre ciência e religião.”

[8] GATTI, Hilary (2002). Giordano Bruno and Renaissance Science: Broken Lives and Organizational Power. Ithaca, New York: Cornell University Press. pp. 18–19. Retrieved 21 March 2014. “For Bruno was claiming for the philosopher a principle of free thought and inquiry which implied an entirely new concept of authority: that of the individual intellect in its serious and continuing pursuit of an autonomous inquiry… It is impossible to understand the issue involved and to evaluate justly the stand made by Bruno with his life without appreciating the question of free thought and liberty of expression. His insistence on placing this issue at the center of both his work and of his defense is why Bruno remains so much a figure of the modern world. If there is, as many have argued, an intrinsic link between science and liberty of inquiry, then Bruno was among those who guaranteed the future of the newly emerging sciences, as well as claiming in wider terms a general principle of free thought and expression.”

[9] MONTANO, Aniello (24 November 2007). Antonio Gargano, ed. Le deposizioni davanti al tribunale dell’Inquisizione. Napoli: La Città del Sole. p. 71. “In Rome, Bruno was imprisoned for seven years and subjected to a difficult trial that analyzed, minutely, all his philosophical ideas. Bruno, who in Venice had been willing to recant some theses, become increasingly resolute and declared on 21 December 1599 that he ‘did not wish to repent of having too little to repent, and in fact did not know what to repent.’ Declared an unrepentant heretic and excommunicated, he was burned alive in the Campo dei Fiori in Rome on 17 February 1600. On the stake, along with Bruno, burned the hopes of many, including philosophers and scientists of good faith like Galileo, who thought they could reconcile religious faith and scientific research, while belonging to an ecclesiastical organization declaring itself to be the custodian of absolute truth and maintaining a cultural militancy requiring continual commitment and suspicion.”

[10] BIRX, James (11 November 1997). “Giordano Bruno”. Mobile Alabama Harbinger. Retrieved 28 April 2014. “Pra mim, Bruno é o mártir supremo tanto do livre pensamento como da investigação crítica… os escritos críticos de Bruno, que apontaram a hipocrisia e intolerância no seio da Igreja, juntamente com a sua personalidade tempestuosa e comportamento indisciplinado, facilmente o fizeram uma vítima da intolerância religiosa e filosófica do século XVI. Bruno foi excomungado pelas igrejas católica, luterana e calvinista por suas crenças heréticas. A hierarquia católica considerou-o culpado de infidelidade e por muitos outros erros, assim como os crimes graves de heresia… Bruno estava a caminho da fogueira por sua postura panteísta e perspectiva cósmica.”

[11] The primary work on the relationship between Bruno and Hermeticism is Frances Yates, Giordano Bruno and The Hermetic Tradition, 1964; for an alternative assessment, placing more emphasis on the Kabbalah, and less on Hermeticism, see Karen Silvia De Leon-Jones, Giordano Bruno and the Kabbalah, Yale, 1997; for a return to emphasis on Bruno’s role in the development of Science, and criticism of Yates’ emphasis on magical and Hermetic themes, see Hillary Gatti, Giordano Bruno and Renaissance Science, Cornell, 1999.

[12] Alessandro G. Farinella and Carole Preston, “Giordano Bruno: Neoplatonism and the Wheel of Memory in the ‘De Umbris Idearum'”, in Renaissance Quarterly, Vol. 55, No. 2, (Summer, 2002), pp. 596–624; Arielle Saiber, Giordano Bruno and the Geometry of Language, Ashgate, 2005.

[13] O filme de Giordano Bruno é considerado uma das grandes obras do cinema italiano dos anos 70. Com direção precisa de Giuliano Montaldo (Sacco e Vanzetti), o roteiro mostra um dos episódios mais polêmicos da história: o processo e a execução do filósofo e matemático italiano Giordano Bruno (1548-1600), queimado na fogueira pela Inquisição por causa de suas crenças contrárias aos dogmas da Igreja Católica.

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Graduando em Filosofia (2014) pela Universidade de Franca (UNIFRAN); estágio de iniciação científica em Microbiologia com enfoque em Astrobiologia (2016) pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP); estudante da disciplina de Filosofia da Mecânica Quântica de pós-graduação (2016) pela Universidade de São Paulo (USP); experiência na área de Divulgação Científica com enfoque em Ciências Planetárias (Astronomia e Astrobiologia) e Ciências Cognitivas (Neurociência e Psicologia); fundador da Organização Universo Racionalista (UR); colaborador do Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade (IERFH); membro-estudante da Rede Brasileira de Astrobiologia (RBA). Tem interesse nas áreas de Astronomia, Astrobiologia, Biologia Evolutiva, Física, Filosofia da Ciência, História da Ciência, Microbiologia, Neurociência, Psicobiologia e Sociologia da Ciência. Abaixo, segue o endereço do currículo na plataforma Lattes.

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2 Comentários em "O mundo de Giordano Bruno"

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Amigo
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Boa, vou divulgar nos grupos do caso Bruno Borges vai atrair muita gente para o site.

Felipe
Visitante

Dame Frances Amelia Yates, É historiadora, não historiador…
Fora isso, gostei do texto.

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