O mundo pós-humano

Um bate-papo com o historiador Yuval Harari sobre o fim do trabalho, o individualismo e a espécie humana.

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Athit Perawongmetha / Reuters

Publicado na The Atlantic

Fome, epidemias e guerra. Estas três coisas têm sido as desgraças da história humana. Mas hoje, na maioria dos países é mais provável que as pessoas morram por comer demais do que comer muito pouco, mais provável que morram de velhice do que uma grande epidemia e mais provável que cometam suicídio do que morrerem em uma guerra.

Com fome, epidemias e guerra em declínio – ao menos por agora – a humanidade vai voltar seu foco em atingir imortalidade e felicidade permanente, de acordo com o novo livro Homo Deus de Yuval Harari. Nas outras palavras, nos transformarmos em deuses.

Sua obra anterior de Harari, Sapiens, foi uma destemida história da espécie humana. Seu novo livro é outra aventura alucinante, que mistura filosofia, história, psicologia e futurismo. Nós conversamos recentemente sobre suas predições mais audaciosas. Esta conversa foi editada para melhor clareza e concisão.


Derek Thompson: Em Homo Deus você prediz o fim do trabalho, o fim do individualismo liberal e, até mesmo, o fim da humanidade. Vamos pegar um por um.

Primeiramente: trabalho. Você tem um modo inteligente e assustador de olhar para as implicações políticas da automação em massa. No fim do século XIX, França, Alemanha e Japão ofereceram assistência médica gratuita para seus cidadãos. Seu objetivo não era estritamente fazer as pessoas felizes, mas sim para fortalecer o potencial de suas indústrias e seus exércitos. Em outras palavras, bem-estar social era necessário porque pessoas eram necessárias. Mas você faz a temida pergunta: O que acontece com o bem-estar social em um futuro onde o governo não precisa mais de pessoas?

Yuval Harari: É um cenário muito assustador. E não é ficção científica. Isso já está acontecendo.

A razão para criar todos estes sistemas de serviços sociais para o povo era para sustentar exércitos fortes e economias fortes. Agora os exércitos mais avançados não precisam de [tantas] pessoas. O mesmo pode acontecer na economia civil. O problema é a motivação: e se o governo perde a motivação para ajudar a população?

Na Escandinávia a tradição do Bem-estar Social é tão impregnada que possivelmente eles irão continuar a fornecer assistência mesmo para os cidadãos inúteis. Mas o que dizer da Nigéria, África do Sul e China? Eles são incentivados a fornecer serviços principalmente na esperança de promover a prosperidade, [que exige] ter uma grande base de cidadãos saudáveis e inteligentes. Mas tire isso e você pode ter um país com uma elite que não se importa com a população.

Thompson: O último ponto é interessante, porque, na Europa e Estados Unidos, o oposto parece mais verdadeiro: a população não se importa, ou acha que não precisa, com a elite. Isso é parte de como tivemos Trump e o Brexit. Agora também tem estas reações da direita radical contra o establishment que percorre por toda a Europa. Por que isso está acontecendo agora?

Harari: Esta é a grande pergunta. Eu não previ isso vindo. Não é minha especialidade analisar a situação política nos EUA ou Europa. Mas se você olhar para a condição objetiva de saúde e coisas do tipo, a maioria das pessoas nos Estados Unidos e Europa Ocidental têm melhores condições do que costumavam ter. Mas elas sentem que estão sendo deixadas de lado e perdendo poder. E elas têm medo que suas crianças tenham uma vida pior do que elas têm hoje. Eu acho que estes medos possam ser justificados. Mas eu não acho que o antídoto vai funcionar. Trump não ajudará os eleitores do Alabama a recuperar seu poder.

a felicidade da maioria das pessoas depende de suas expectativas, não de suas condições

Thompson: Americanos podem ser mais ricos e mais educados do que eram uma geração anterior, com melhores cuidados médicos e opções de entretenimento superiores, mas o fato do progresso não parece importar. A narrativa é tudo que importa. E a narrativa vitoriosa de Trump era que as cidades dos Estados Unidos estavam caindo aos pedaços e “só eu posso corrigi-las”.

Harari: [Os americanos brancos sem curso superior] são uma classe em declínio dentro de um poder em declínio. Os EUA estão perdendo poder em comparação com o resto do mundo, e dentro dos EUA, os eleitores Trump estão perdendo seu status. Mesmo que eles estejam experimentando melhores condições, a narrativa que é dominante na maioria das pessoas conta uma história de declínio, que diz que o futuro será pior do que o presente. E a felicidade da maioria das pessoas depende de suas expectativas, não de suas condições.

Thompson: Digamos que o futuro para a maioria das pessoas é uma renda básica universal, maravilhosas drogas psicodélicas e videogames de realidade virtual. As pessoas não passam fome. Eles não são miseráveis. Mas eles também param de lutar. As virtudes de Walt Disney (“Desafie você mesmo! Faça uma aventura!”) são sacrificadas para viver permanentemente dentro de um entretenimento no estilo Disney. É utopia ou distopia?

Harari: A maioria dos filósofos vão dizer que a sua hipótese é uma distopia. Um mundo muito pior.

Mas você poderia argumentar é que as pessoas já passam a maior parte de suas vidas em jogos virtuais. A maioria das religiões são jogos virtuais sobrepostos à realidade da vida. Faça aquilo, e há uma punição. Faça isso, e você ganha pontos extras. Não há nada na realidade que corresponda a tais regras. Mas você tem milhões de pessoas jogando esses jogos de realidade virtual. Então, qual é a diferença entre uma religião e um jogo de realidade virtual?

Recentemente eu fui caçar Pokémon com meu sobrinho. Estávamos andando pela rua e um bando de crianças se aproximaram de nós. Eles também estavam caçando Pokemon. Meu sobrinho e essas crianças entraram em uma pequena briga porque estavam tentando capturar as mesmas criaturas invisíveis. Isso foi estranho para mim. Mas esses Pokémons eram muito reais para as crianças.

E então isso me atingiu: Isto é análogo ao conflito entre Israel e Palestina! Você tem dois lados lutando por algo que eu não consigo ver. Eu olho para as pedras das construções em Jerusalém e eu só vejo pedras. Mas cristãos, judeus e muçulmanos que olham para as mesmas pedras veem uma cidade santa. É a imaginação deles, mas eles estão dispostos a matar por isso. Essa é a realidade virtual, também.

Sua hipótese também levanta uma profunda questão filosófica: Qual é o significado da vida? Historicamente, os filósofos investigaram questões que eram interessantes para apenas uma pequena porcentagem da humanidade.

Thompson: Certo. “Qual é a maneira ideal de buscar a felicidade?” não é um questionamento útil quando toda uma região está morrendo de epidemia.

Harari: Sim, mas uma vez que você está livre de se preocupar com fome e epidemias, isso se torna uma pergunta muito mais prática: Qual é o significado da vida? Se você projeta um carro auto dirigível, você deve planejar algoritmos éticos no caso de eles estar prestes a bater em uma criança. Deve arriscar ferir o pedestre ou o passageiro? Isso é, de repente, uma questão muito prática. Filosofia, outrora um sistema arcaico, torna-se central quando nos preocupamos com a morte e a miséria de forma generalizada.

Thompson: Tudo bem, vamos passar do fim do trabalho para o fim do individualismo.

Você tem uma bela maneira de resumir o relacionamento dos seres humanos com a autoridade. Primeiro, acreditamos que a autoridade veio dos deuses. Mas essa crença deu lugar ao liberalismo moderno, que nos diz que a autoridade vem dos indivíduos. A democracia diz que o poder vem dos eleitores, não de divindades. O capitalismo diz que o consumidor sempre tem razão, não a Bíblia. Os comerciantes dizem que a beleza reside no olho do espectador, não em formas platônicas.

Mas você tem uma predição alarmante de que os seres humanos vão se fundir com os computadores, algoritmos e dispositivos bioquímicos que tornam nossas vidas melhores. Vamos ceder nossa autoridade e identidade aos dados e à inteligência artificial. Que invenção ou inovação no mundo agora é o melhor exemplo deste futuro?

Harari: Eu gosto de começar com as coisas simples. Olhe para os aplicativos GPS, como Waze e Google Maps. Cinco anos atrás, você ia a algum lugar no seu carro ou a pé. Você se guiava com base em seu próprio conhecimento e intuição. Mas hoje todo mundo está cegamente seguindo o que Waze está dizendo. A habilidade básica de navegarem sozinhos foi perdida. Se algo acontecer com o aplicativo, estarão completamente perdidos.

Esse não é o exemplo mais importante. Mas está no caminho do que estamos falando. Você define um ponto no mapa, e você confia no algoritmo. Talvez o ponto seja a sua carreira. Talvez seja a decisão de se casar. Mas você confia no algoritmo ao invés de sua própria intuição.

A invenção mais importante que está se espalhando agora são sensores biométricos. Eles se tornarão bastante comuns. Os seres humanos consultarão seus dados biométricos para determinar como viver. Este sensores são realmente interessantes e assustadores, porque nós não estaremos mais no comando da nossa identidade. Iremos terceirizar nossas decisões executivas para leituras biométricas de nossos sinais neuroquímicos para decidir como viver.

Thompson: Aqui vai como eu entendo essa ideia. É o futuro, e estou com fome em uma noite de sexta-feira. Eu penso: “Eu gostaria de frango frito”. Então eu consulto minha IA assistente, que pode ler meus sinais bioquímicos e prever minhas futuras emoções, que me diz: “Na verdade, Derek, uma salada de frango vai te fazer mais feliz”. Então eu como salada.

Em uma base de caso a caso, esta tecnologia me parece maravilhosa. Está me fazendo muito mais saudável e feliz. A tecnologia está me livrando dos erros naturais da má compreensão dos meus futuros desejos e necessidades. Mas ao mesmo tempo, meu “eu” desapareceu, porque eu terceirizei minha identidade para um analista bioquímico.

Harari: Exatamente.

Neste cenário, veremos que as decisões não vêm de uma alma mística, mas de processos biológicos no cérebro. No passado, não conseguíamos reunir os dados e analisá-los. Assim você poderia imaginar que existia uma alma mística, transcendental dentro de você que faz estas decisões. De uma perspectiva prática era uma estimativa bastante boa. Mas, uma vez que você combina uma melhor compreensão dos processos bioquímicos no corpo com o poder computacional de big data, acontece uma verdadeira revolução, porque esta noção tradicional de livre arbítrio não faz mais sentido prático e você pode ter algoritmos que tomam melhores decisões do que um indivíduo humano.

Thompson: Isso é fascinante, porque agora acho que esses algoritmos estão me deixando mais próximo de mim mesmo. Se uma pulseira fitness me incentiva a correr mais ou um algoritmo de entretenimento descobre uma música que eu amo, eu fico mais feliz. E eu prefiro estar feliz.

Mas ao mesmo tempo, minhas decisões foram reduzidas a sinais cerebrais e leitores de sinais cerebrais. “Eu” não sou especial, nem sagrado, nem mesmo indivíduo. Eu sou apenas uma embarcação para um monte de sinais que são lidos melhor por um computador. Não há espaço para “mim” nessa combinação.

Harari: O que realmente acontece é que o seu “eu” se desintegra. Não é que você compreenda melhor seu verdadeiro eu, mas você acaba percebendo que não existe um verdadeiro eu. Há apenas uma conexão complicada de conexões bioquímicas sem um núcleo. Não há voz autêntica que viva dentro de você.

Você já assistiu Divertida Mente (Inside Out, em inglês)? Para mim, esse foi o ponto de inflexão na compreensão da cultura popular sobre a mente. Durante décadas, a Disney nos vendeu a fantasia individualista liberal: Não ouça seus vizinhos ou governo, basta seguir seu próprio coração. Mas então, em Divertida Mente, você vai dentro desta menininha Riley, e você não encontra um “eu” ou uma identidade central. O que o filme mostra para as crianças e seus pais é que Riley é um robô sendo manipulado por processos químicos dentro de seu cérebro. O ponto cataclísmico da história é quando você percebe que nenhuma das emoções dentro dela é o seu verdadeiro eu. No começo você se identifica com Joy, mas o momento crítico vem quando você percebe que nenhuma dessas emoções é o verdadeiro eu de Riley. É um equilíbrio entre as diferentes emoções.

E eu acho que isso é o que vai acontecer cada vez mais e mais em um nível geral. A própria ideia de um indivíduo que existe, que tem sido tão preciosa para nós, está em perigo.

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