O pensamento perigoso de Nietzsche em defesa da escravidão

Artistas, adolescentes e diversos defensores da liberdade o veneram como o profeta da libertação total. Mas Nietzsche não achava que todos deveriam ser livres. Martin A Ruehl revela um aspecto perturbador e politicamente incorreto do grande filósofo.

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Nietzsche acreditava que novas formas de sofrimento e exploração eram necessárias para tornar a civilização europeia novamente grande. Crédito: Gustav Schultze.

Por Martin A. Ruehl
Publicado no The Independent

Ele considerava suas próprias opiniões “inoportunas” e se autodenominava “o último alemão antipolítico”. Em sua autobiografia Ecce Homo, marcada pela exaltação de seus heróis, ele afirmou que “nasceu postumamente”. Os estudiosos e admiradores de Nietzsche aceitaram essas declarações sem se importar de fato o que elas significavam. Para eles, ele é um filósofo muito a frente de seu tempo, totalmente desvinculado dos assuntos sociopolíticos de sua época.

Quando Friedrich Nietzsche glorifica a guerra, a dominação e a crueldade, eles dizem que ele está falando de uma luta “espiritual” e da supressão impiedosa de tudo o que é fraco ou “ressentido” dentro de nós. Um crítico franco do nacionalismo alemão, Nietzsche estava em total desacordo, segundo eles, com as ideologias políticas prevalentes e as preocupações da época.

Mas uma nota em seus artigos não publicados, conhecido como Nachlass, lança dúvidas sobre essas leituras apolíticas. Em um tópico redigido em 1884, ele condena os movimentos emancipatórios que transformaram as sociedades ocidentais no século XIX. Nietzsche enumera seus objetos com nítido desdém: mulheres, escravos, trabalhadores, “os enfermos e os corruptos”. O fragmento deixa poucas dúvidas de que seu autor considera a emancipação desses grupos um erro desastroso que vai agravar o “nivelamento do homem europeu” e a decadência da cultura europeia contemporânea.

Nietzsche atribui a demanda moderna de democratização à retórica do Iluminismo e, especialmente, ao conceito “sedutor” de bondade humana universal proposto por Jean-Jacques Rousseau. Ele considera o fanatismo moral de Rousseau responsável não apenas pela Revolução Francesa, mas por praticamente todas as políticas igualitárias e humanitárias desde então.

Quando se volta para a emancipação dos escravos, no entanto, Nietzsche menciona outro nome: “Senhora Stowe”. Ele está se referindo a Harriet Beecher Stowe, autora do famoso romance antiescravista A Cabana do Pai Tomás, publicado pela primeira vez em 1852 e traduzido para o alemão no mesmo ano.

O romance antiescravista de Harriet Beecher Stowe, A Cabana do Pai Tomás (Uncle Tom’s Cabin, em inglês), representava, para Nietzsche, falhos ideais humanitários e igualitários do século 19.

Na época em que Nietzsche anotou suas reflexões antiemancipatórias, A Cabana do Pai Tomás já tinha publicado nada menos que 50 edições na Alemanha e suscitou inúmeras críticas – quase sempre positivas – em jornais e revistas alemãs. Ao denunciar Beecher Stowe como uma seguidora iludida do falso evangelho de Rousseau da bondade e igualdade naturais do homem, Nietzsche estava assumindo uma posição decididamente impopular no cenário político da Alemanha do final do século XIX.

Sua referência a Beecher Stowe no texto de 1884 é significativa por várias razões. Para começar, ele revela sua familiaridade com os debates sobre o abolicionismo na América, o que adiciona um importante contexto transatlântico para suas reflexões sobre senhores e escravos e sua crença profunda e duradoura na desigualdade humana.

Em 1864, no auge da Guerra Civil Americana, Nietzsche, de 19 anos, apresentou uma tese de formatura sobre o poeta grego Teógnis de Mégara. Extremamente erudito e ao mesmo tempo sutilmente partidário, foi uma reconstrução simpática da visão de mundo firmemente aristocrática de Teógnis, incluindo suas visões racistas e segregacionistas sobre o trabalho forçado. Os escravos, observou Nietzsche, vinham de “uma linhagem inútil e prejudicial” e pertenciam a uma espécie totalmente diferente e invariavelmente subordinada. Aprovadoramente, ele cita o poema “muito preciso” de Teógnis:

Nunca escrava cerviz nasce reta, mas sempre
Torta e com o pescoço inclinado
De cebolas não nascem rosas e jacintos,
E nunca de uma escrava um filho livre.

Esses comentários ecoam os argumentos de apologistas sulistas da escravidão (a escravidão era defendida no sul do Estados Unidos como um “bem positivo”), como William Harper, que insistia nas diferenças fisiológicas e psicológicas inerentes entre africanos e europeus. Em seu Memoir on Slavery (Memórias sobre a Escravidão, na tradução livre), Harper sustentou que “a raça negra, por seu temperamento e capacidade” era “peculiarmente adequada” para trabalhos forçados, até porque eram significativamente menos suscetíveis à dor física do que os homens brancos. Nietzsche estava convencido de que os africanos, cuja constituição física e psicológica ele acreditava ser muito semelhante à do “homem primitivo”, sentiam menos dor do que os brancos, especialmente a “elite cultural” branca. Em Aurora (1881), ele ponderou a possibilidade de importar trabalhadores chineses para a Europa para realizar tarefas servis, porque seus “modos de vida e pensamento” os tornavam “formigas trabalhadoras” adequadas.

Como George Fitzhugh, proeminente teórico pró-escravidão do Sul, Nietzsche frequentemente invocava a Grécia Antiga para argumentar que a escravidão pertencia à “essência de uma cultura” e que, para haver um “solo fértil para o desenvolvimento da arte”, a “esmagadora maioria” tinha que ser “subjugada” a serviço de uma “classe privilegiada”.

Em total contraste com a maioria dos filelenistas alemães, incluindo seu antigo amigo, mentor e modelo artístico Richard Wagner, Nietzsche acreditava que a escravidão era a condição sine qua non da glória cultural que era a Grécia. Mesmo que fosse verdade que os gregos estivessem “arruinados porque mantinham escravos”, ele argumentou, “o contrário é ainda mais certo, que seremos destruídos pela falta de escravidão”.

Essa certeza, no entanto, foi obscurecida por noções liberais e progressistas contemporâneas como a “dignidade da vida” e a “dignidade do trabalho”. Em seu ensaio inédito sobre “O Estado grego” (1872), Nietzsche tenta acabar com essas noções. A lição mais salutar a ser aprendida com os gregos, escreve ele, é que “o homem como tal” não possui “nem dignidade, nem direitos, nem deveres” e que o trabalho é pouco mais do que “uma desgraça necessária”, da qual se deve sentir “vergonha”.

Sua crítica ao liberalismo aqui reitera a de Fitzhugh, que argumentou que a economia de livre mercado do Norte de forma alguma proporcionou a seus trabalhadores uma existência mais digna ou humana do que a plantation sulista. Nietzsche também vê novas formas de dependência e servidão escondidas por trás da fachada do “trabalho livre”. O trabalhador industrial moderno tornou-se uma mera engrenagem de uma “operação mecânica”, um ser humano reduzido a uma coisa pertencente a outrem. O capitalismo, ele observa em Aurora, equivale à “escravidão impessoal”.

Se a referência de Nietzsche a Beecher Stowe destaca o contexto transatlântico de suas ideias, também ressalta suas dimensões políticas ferozmente antimodernas. Estas últimas são convenientemente encobertas por aqueles que aclamam Nietzsche como um pensador essencialmente moderno.

Transformando-o em um precursor intelectual dos grandes movimentos culturais e filosóficos do século XX, do expressionismo e surrealismo ao existencialismo, eles o isolaram de seu próprio tempo, com seus preconceitos e preocupações muito distintos. Esses “nietzschianos gentis” negligenciam sua oposição apaixonada aos valores e instituições sociopolíticas da modernidade e as implicações contrarrevolucionárias de suas ideias revolucionárias. Elogiando-o como um defensor da (auto)libertação, eles ignoram as severas restrições que ele coloca à ideia da emancipação humana.

Um exame mais atento das visões de Nietzsche sobre a escravidão colocaria essas restrições em foco. No entanto, no vasto e crescente corpo de literatura sobre Nietzsche (nenhum outro filósofo atraiu mais comentários), não há um único estudo aprofundado sobre este tópico, embora a escravidão seja um tema recorrente em seus escritos, a partir de sua tese de formatura até as últimas obras, completadas semanas antes de seu colapso mental em janeiro de 1889.

Existem mais de 300 referências a escravos, escravidão e termos semelhantes nas obras de Nietzsche. A grande maioria deles afirma a necessidade da escravidão humana.

Em Além do Bem e do Mal, ele escreveu: “Toda nova elevação do tipo “homem” foi até aqui obra de uma sociedade aristocrática — e sempre será assim, isto é, será sempre inegavelmente devida a uma sociedade que tem fé na necessidade de uma grande escala hierárquica e de uma profunda diferenciação de valor de homem a homem e que para chegar à sua finalidade não saberia fazer menos que escravizar sob uma forma ou outra”.

Ao longo de sua obra, Nietzsche adere à visão de que a escravidão foi, é e será necessária: para o florescimento da civilização grega antiga; para a regeneração da cultura europeia contemporânea; para o estabelecimento de uma nova nobreza baseada em uma nova “hierarquia” social; e para a futura elevação do “homem” a “super-homem”. Nietzsche formula consistentemente suas ideias mais radicais sobre o florescimento e a autonomia humana no contexto de seus opostos, o que ele chama de “o perigo da servidão” e da humanidade “incompleta” do escravo. Mas a escravidão, para ele, é menos um contraste do que uma condição da grandeza humana. Em A Gaia Ciência, ele menciona significativamente os “subumanos” como assistentes naturais de heróis e super-homens.

Quase sem exceção, os estudiosos de Nietzsche ignoraram seus comentários pró-escravidão ou nos incentivaram a lê-los metaforicamente. Teóricos políticos ávidos por reivindicá-lo como um defensor da democracia radical os evitaram. Como resultado, uma das características mais singulares do pensamento de Nietzsche permanece virtualmente não examinada, e ainda temos que explicar seu status peculiar como o único filósofo moderno a rejeitar fundamentalmente o principal credo da modernidade, ou seja, que todos nascem iguais e têm direito inalienável à liberdade.

Uma família de escravos colhendo algodão na Geórgia (EUA) na década de 1860. Como muitos antiabolicionistas do sul, Nietzsche acreditava que os africanos eram mais adequados para o trabalho físico pesado.

O fracasso dos especialistas em lidar com a defesa da escravidão de Nietzsche teve um custo. Isso nos deixou com uma compreensão empobrecida de sua filosofia moral e política, cujos conceitos centrais – “moralidade dominante”, “radicalismo aristocrático” e “disciplina” – estão intimamente ligados às suas ideias sobre a escravidão. Também nos impede de apreciar toda a força de sua crítica ao liberalismo e ao socialismo, ambos os quais Nietzsche considera produtos das grandes narrativas iluministas de progresso e emancipação, ou do que ele chama de “cantos de sereia” sobre “direitos iguais e uma sociedade livre”.

Entre outras coisas, as justificativas da escravidão por Nietzsche, notadamente sua defesa da “escravidão natural”, nos fornecem uma nova perspectiva sobre sua concepção da natureza humana e da psicologia. Como ele escreve em Além do Bem e do Mal, a escravidão é o “pré-requisito para a disciplina e o cultivo espiritual”, um “imperativo moral da natureza” dirigido a “povos, raças, idades e classes – mas acima de tudo para todo o animal humano, para o homem”.

Ler as reflexões de Nietzsche sobre a escravidão historicamente não significa lê-las literalmente. Contextualizando-as, no entanto, nos lembra que a escravidão na segunda do metade do século 19 era mais do que uma metáfora para a falta de soberania individual ou autodeterminação. Era um tema urgente e muito atual, repleto de controvérsias políticas e ideológicas, notadamente sobre a ascensão do capitalismo e a chamada questão social, mas também sobre raça, império e a autoproclamada “missão civilizadora” do Ocidente. Se abordarmos a filosofia de Nietzsche dessa maneira, permitiremos que ela realmente desafie nossos pressupostos liberais e humanistas. Isso tornaria seu “pensamento perigoso” ainda mais perigoso.