O primeiro milípede ‘verdadeiro’ com 1.306 pernas é descoberto nas profundezas da Austrália

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Um Eumillipes persephone macho. Créditos: Marek et al., Scientific Reports 2021.

Por David Nield
Publicado na ScienceAlert

Embora o nome milípede venha do latim para “mil pés”, até agora nenhuma espécie foi encontrada com mais de 750 patas. Após a descoberta de um novo milípede com 1.306 pernas, no entanto, este artrópode está finalmente fazendo jus ao seu nome.

A nova espécie é Eumillipes persephone – emillipes traduzido como “mil pés verdadeiros”, com Perséfone sendo a deusa grega do submundo. A criatura contorcida foi encontrada 60 metros no subsolo em um buraco de mineração na Província de Goldfields Oriental da Austrália.

Com base nas quatro criaturas analisadas até agora, E. persephone tem até 330 segmentos em seu corpo e pode medir até 0,95 milímetros de largura e 95,7 mm de comprimento. Este milípede tem uma cabeça em forma de cone com antenas e um bico, mas sem olhos.

Uma E. persephone fêmea com 1.306 pernas. Créditos: Marek et al., Scientific Reports, 2021.

“Entre os primeiros animais a respirar oxigênio atmosférico, e com algumas espécies extintas que cresceram até dois metros de comprimento, os milípedes viveram neste planeta por mais de 400 milhões de anos”, escrevem os pesquisadores em seu estudo que descreve a descoberta. “Aqui relatamos a descoberta de E. persephone, o primeiro milípede super-alongado conhecido na Austrália e o novo recordista mundial do animal com o maior número de pernas”.

A equipe de pesquisa acredita que esse novo milípede seja parente distante da espécie Illacme plenipes, que havia estabelecido o recorde anterior de 750 patas. Este milípede em particular é encontrado na região central da Califórnia e, apesar de seu número absurdo de pernocas, tende a crescer para um comprimento de apenas 25 a 40 milímetros.

Além de ter tantas pernas e nenhum olho, E. persephone também é notável por sua aparência longa, semelhante a um fio (e semelhante a I. plenipes) e seu exoesqueleto uniformemente pálido e de cor creme. Essas características ajudam a classificá-lo como uma espécie distinta das outras.

Os corpos longos, vários segmentos e muitas pernas encontrados em I. plenipes e E. persephone podem muito bem ter evoluído para permitir que esses milípedes empurrem e escavem o solo de forma mais eficaz, sugerem os pesquisadores.

“Esta locomoção telescópica, por segmentos de tronco deslizantes juntamente com o impulso das pernas, impulsiona o animal através de um microhabitat subterrâneo variado e imprevisível, e o aumento no número de pernas provavelmente contribui com mais força de tração para atravessar pequenas fendas e aberturas”, escreveram os pesquisadores.

Ainda existem muitas incógnitas sobre E. persephone – o que ele come, por exemplo, e onde mais pode ser encontrado – mas já há o suficiente para marcá-la como sua própria espécie e estabelecer que é um quebrador de recordes em termos de número de pernas.

Os pesquisadores dizem que a descoberta deste novo milípede é mais uma evidência da biodiversidade encontrada nas profundezas do subsolo na Província de Goldfields Oriental, e ajuda a fazer um forte argumento para que a região seja protegida para o futuro.

Embora as condições acima do solo tenham mudado significativamente ao longo de milhares de anos, de acordo com os pesquisadores, o habitat subterrâneo provavelmente permaneceu estável – frio e úmido. É possível que muitas outras descobertas estejam esperando para serem feitas.

“Esses habitats subterrâneos, e seus habitantes, são muito pouco estudados, apesar de sua importância ecológica na filtração das águas subterrâneas e na triagem de toxinas ambientais”, escreveram os pesquisadores.

A pesquisa foi publicada em Scientific Reports.