O Problema do Mal: de Epicuro a Agostinho

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Epicuro e o Problema do Mal

Para entender a origem do Problema do Mal, é necessário compreender em que consiste a ética de Epicuro; mas, para entender a ética de Epicuro, é necessário compreender a sua física. Isso ocorre, porque Epicuro acreditava que era necessário que entendêssemos nós mesmos – o que inclui saber do que somos compostos a nível físico – para que pudéssemos entender como nós podemos alcançar a felicidade.

Para Epicuro, tanto o corpo quanto a alma seriam compostos por átomos e vazio. Se o corpo estiver completo, mas não houver alma nele, ele perde a sensibilidade. Mas se uma parte do corpo – como um braço – se desfizer, a alma não perde sensibilidade. Em outras palavras, quando alma está separada do corpo, ela perde as suas propriedades causais, no sentido de que não pode mais causar sensações; mas uma parte ou outra do corpo pode separar-se da alma sem que as sensações sejam perdidas. As sensações, sendo eflúvios de átomos, também seriam físicas.

O ser humano sempre busca o prazer e foge da dor. Nesse cenário, a felicidade seria a ausência de dores. Para Epicuro, a melhor maneira de adquirir felicidade seria uma busca pelo prazer que não visasse meramente o curto prazo, mas que visasse também a ausência de sofrimentos a longo prazo. Uma busca desmedida dos prazeres momentâneos, por exemplo, geraria uma necessidade desmedida de voltar a tê-los, o que aumentaria a possibilidade de sofrimento. A felicidade deveria depender daquilo de que temos controle. Se aquilo que nos fizer feliz for difícil de alcançar, a felicidade não será duradoura.

Existem dois fatores importantes aí: a aponia – ligada à saúde do corpo – e a ataraxia – ligada à tranquilidade da alma. Ambos seriam importantes para a aquisição de felicidade. A ataraxia estaria relacionada às opiniões que temos. Para o autor, o teísmo que leva ao temor dos deuses gera sofrimento. É um tipo de opinião a qual não deveríamos nutrir. A física epicurista nos livraria das preocupações relativas ao temor das divindades e nos aproximaria da felicidade.

Nas palavras de Epicuro, “Quando te angustias com as tuas angústias, te esqueces da natureza: a ti mesmo te impões infinitos desejos e temores” (p. 26). Não deveríamos viver conforme as opiniões, e sim conforme a natureza. Nesse contexto, está situado o Problema do Mal – também conhecido como “Paradoxo de Epicuro” que, nas palavras de Epicuro, é explicado da seguinte forma:

“Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer e nem pode, é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede?” (p. 28)

Essa pergunta final pode nos deixar com a sensação de que a resposta é: porque Deus não existe. Entretanto, Epicuro ressalta a possibilidade da divindade não acabar com o mal porque, em sua imortalidade, viveria apenas para sua própria felicidade. Portanto, não deveríamos temer a Deus, porque – se existe – sequer tem motivo para se envolver nos assuntos humanos. Deveríamos, portanto, abandonar essas opiniões que, a troco de nada, nos causam sofrimento.

A solução de Agostinho para o Problema do Mal

Certamente, o que estava em jogo para Epicuro no Problema do Mal era uma questão bem mais ética do que metafísica. Entretanto, o Problema do Mal é enfrentado por Agostinho em uma versão menos epicurista. Acredito que o âmago do Problema do Mal possa ser indicado pelo seguinte argumento:

P1. Se Deus existe, então o mal não existe.
P2. O mal existe.
C. Logo, Deus não existe.

A conclusão (C) segue da premissa 1 (P1) e premissa 2 (P2) por modus tollens.

Em face desse problema, é possível:

(i) Atacar P1 alegando que há compatibilidade entre a existência de Deus e a do mal;

(ii) Atacar P2 negando a existência do mal;

(iii) Atacar a forma lógica do argumento.

Agostinho opta pela alternativa (ii). A nível ontológico, Agostinho diria que o mal é um nada, o distanciamento e a privação do bem. Para Agostinho, as criaturas de Deus são todas boas. Entretanto, são corruptíveis – o que nos indica que não são absolutamente boas. Mas elas também não são absolutamente más – i.e., privadas de todo o bem –, pois “se são privadas de todo o bem, deixarão totalmente de existir” (p. 118). Segundo Agostinho, se o mal fosse uma substância, ele seria um bem. O mal não é um bem. Logo, não é uma substância.

Nesse sentido, a assunção de P2 seria produto de uma crença falsa sobre a natureza do mal, que é a de que o mal é uma substância. Na verdade, o mal é a privação do bem. Sendo P2 falsa, não podemos concluir a não-existência de Deus a partir do Problema do Mal. Dessa forma, Agostinho resolve o Problema do Mal a nível metafísico. Investiguemos agora a causa do mal, já tendo em vista a resposta de Agostinho ao Problema do Mal.

A causa do mal e a natureza do homem

Deus parece, por sua própria natureza, não ter criado o mal. Se Deus é sumamente bom, tudo aquilo que criou é bom. Em certa passagem (cf, p. 111), Agostinho pensa na possibilidade de Deus ter em mãos uma matéria que contivesse algo de mau para criar tudo. Se essa matéria era má, Deus poderia tê-la convertido em um nada e criado uma outra que fosse boa. Parece que a origem do mal não poderia estar aí. Deus não pode, por sua própria natureza, ser a fonte do mal.

Fomos nós, então, que criamos o mal? Vimos que, a nível ontológico, o mal é a privação de uma substância, um nada. A nível ético, Agostinho diria que o mal é o pecado, “a perversão da vontade desviada da substância suprema” (p. 120). Nesse sentido, o ser humano seria a fonte de todo o mal. O ser humano tem o conhecimento da ordem de Deus, mas decide (pelo seu livre arbítrio) respeitar ou não essa ordem. Quando não respeita, gera o mal. Portanto, a causa do mal está no agir do ser humano sem conformidade com a ordem das coisas criadas por Deus.

Diferentemente de Epicuro, Agostinho acreditava que a única felicidade está em Deus. Vivemos inquietos se não repousamos em Deus. Devemos tentar viver em conformidade com a ordem das coisas criadas por Deus para sermos felizes. Essa é a nossa grande diferença em relação às demais coisas criadas por Deus: nós temos o livre arbítrio de escolhermos agir em conformidade com a ordem divina. Diferentemente de uma árvore ou um rio, temos a verdade revelada dentro de nós. Isso nos responsabiliza pelo que fazemos e pela origem do mal.

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AGOSTINHO, S. Confissões; De magistro. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

EPICURO. Da natureza: antologia de textos. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

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