O que Carl Sagan queria dizer quando falava em “espiritualidade”?

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Carl Sagan se considerava agnóstico, mas com ênfase no (ou que remete ao atual) “ateísmo cético”, ou seja, ele rejeitava qualquer explicação sobrenatural ou mística sobre o universo (por não existir indícios e/ou evidências para sustentá-la).

Quando Sagan cita “espiritualidade”:

“’Espírito’ vem da palavra latina ‘respirar’. O que respiramos é ar, que é realmente matéria, por sutil que seja. Apesar do uso em sentido contrário, a palavra ‘espiritual’ não implica necessariamente que falemos de algo distinto da matéria (incluindo a matéria da que parece o cérebro), ou de algo alheio ao reino da ciência. Em ocasiões usarei a palavra com toda liberdade. A ciência não só é compatível com a espiritualidade mas também é uma fonte de espiritualidade profunda. Quando reconhecemos nosso lugar em uma imensidão de anos luz e no passo das foi, quando captamos a complicação, beleza e sutileza da vida, a elevação deste sentimento, a sensação combinada de regozijo e humildade, é sem dúvida espiritual. Assim são nossas emoções em presença da grande arte, a música ou a literatura, ou ante os atos de altruísmo e valentia exemplar como os da Mohadma Gandhi ou Martín Luther King, Jr. A ideia de que a ciência e a espiritualidade se excluem mutuamente de algum modo disposta um fraco serviço a ambas.”

– Carl Sagan. O Mundo Assombrado Pelos Demônios, p.48.

Com isto ele quer dizer “arte”, “inspiração”, “paixão”, ou seja, “a ciência é uma profunda fonte de inspiração”. A “espiritualidade” tem um significado diferente dependendo do contexto que é lhe empregado. Por exemplo: Sagan sempre rejeitou a ideia de transcendência, então, sabemos que ele não se referia a “espiritualidade” no sentido dela ser “um modo de viver característico de um crente que busca alcançar a plenitude da sua relação com o transcendental, em outro sentido, a “espiritualidade” poderia ser descrita como algo profundamente comovente, estimulante, algo que nos deixa arrepiados e nos faz sentir planamente vivos, como por exemplo, uma paisagem maravilhosa ou uma música relaxante.

No livro “Bilhões e Bilhões”, existe um discurso de Ann Druyan sobre quando Sagan estava no “leito de morte” e rejeitou a crença em Deus e no mundo sobrenatural com toda a racionalidade e lucidez do mundo – no pior momento de sua vida.

“Não houve conversão no leito de morte,” disse Druyan, “nenhum apelo a Deus, nenhuma esperança sobre uma vida após a morte, nenhuma pretensão que ele e eu, que fomos inseparáveis por vinte anos, não estávamos dizendo adeus para sempre.” “Ele não queria acreditar?” perguntou a repórter. “Carl nunca quis acreditar”, ela respondeu ferozmente, “ele quis saber”, encerrou Druyan.

“Eu não quero acreditar, eu quero saber.”

– Carl Sagan

No meu artigo: “Afinal, Carl Sagan era Ateu?“, utilizei um texto do livro “Conversations with Carl Sagan“, no capítulo “God and Carl Sagan: Is the Cosmos Big Enough for Both of Them?“:

“Em resposta a uma pergunta, em 1996, sobre suas crenças religiosas, Sagan respondeu: ‘Eu sou agnóstico’. Os pontos de vista de Sagan sobre a natureza do universo tem sido interpretados como algo comparável à compactuação de Einstein com o Deus de Espinosa. Sagan afirmava que a ideia de um criador do universo era difícil de provar ou refutar, e que a única descoberta que poderia confrontar isto seria um universo infinitamente antigo.

E de acordo com sua última esposa, Ann Druyan, ele não era um crente:

‘Quando meu marido morreu, porque ele era tão famoso e conhecido por não ser um crente, muitas pessoas vieram a mim – ainda acontece às vezes – me perguntar se Carl havia mudado no final e se convertido a uma crença na vida após a morte. Também me perguntam frequentemente se eu acho que vou vê-lo novamente. Carl enfrentou a morte com coragem inabalável e nunca procurou refúgio em ilusões. A tragédia foi que sabíamos que nunca iríamos nos ver outra vez. Eu não espero estar com Carl novamente.'”

Conclusão

É importante checar as fontes e procurar saber o contexto que a citação foi empregada. Muitas pessoas se utilizam de citações de cientistas e filósofos fora do contexto para promover crenças pessoais e ideias pseudocientíficas.