O que é o Naturalismo Epistemológico?

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Por Elan Marinho
Publicado no Saguinus

Para entendermos o que é o naturalismo epistemológico, precisamos entender o que é o naturalismo e o que é a epistemologia. Segundo Papineau (2020), existem pelo menos dois tipos de naturalismo: o ontológico e o metodológico. O naturalismo ontológico defende que todas as partes da realidade são compostas, dependentes de ou idênticas a coisas físicas imersas no espaço-tempo. Além disso, ele nega que haja entidades não físicas, como entidades sobrenaturais e mentes não corporificadas. Já o naturalismo metodológico é a visão de que a filosofia e as ciências possuem objetivos semelhantes e que, por isso, a filosofia deveria fazer uma aproximação metodológica em relação à ciência. Embora existam vários usos diferentes da palavra “epistemologia”, a definição mais adequada para entendermos o que é o naturalismo epistemológico é: uma área da filosofia responsável pelo estudo do conhecimento e dos conceitos que se associam a ele. De acordo com Steup e Neta (2020), os epistemólogos querem entender o sucesso e o fracasso que temos em tentar conhecer. Nessa direção, os epistemólogos naturalistas encaram aproximações naturalistas como a melhor forma de entender os nossos sucessos e fracassos cognitivos.

Segundo Rysiew (2020), o naturalismo epistemológico é melhor caracterizado como um movimento ou como uma abordagem filosófica do que enquanto um conjunto de teses. De maneira geral, os naturalistas epistemológicos fazem uma aproximação entre as investigações filosóficas sobre tópicos epistemológicos e os métodos das ciências. Nesse sentido, eles são naturalistas metodológicos. Entretanto, para justificar essa aproximação, eles podem evocar justificativas fisicalistas. Desse modo, podem ser naturalistas ontológicos. Apesar disso, existem defensores da epistemologia naturalizada, como Plantinga (1993), que rejeitam o naturalismo ontológico. Entre os próprios naturalistas epistemológicos, aquilo que entra em disputa é o quão naturalistas deveríamos ser. Podemos citar como alguns exemplos de disputas: (i) qual tipo de aproximação entre as ciências e a epistemologia é necessária ser feita, (ii) se os epistemólogos podem usar métodos empíricos e (iii) em que medida os resultados das ciências empíricas têm implicações na epistemologia.

Do ponto de vista histórico, as raízes do naturalismo epistemológico podem ser localizadas no empirismo britânico (cf. Rysiew, 2020). Entretanto, o maior marco para o naturalismo epistemológico como conhecemos hoje foi o texto Epistemology Naturalized (“Epistemología Naturalizada”) de Quine (1969). É inegável como Quine mudou o curso das discussões sobre posturas naturalistas na epistemologia. Entretanto, a epistemologia naturalizada de Quine não parece ter sobrevivido diante das críticas. Embora hoje haja poucos epistemólogos naturalistas quineanos (cf. Rysiew, 2020), ainda é possível ver autores citando erroneamente a epistemologia quineana como se fosse a principal referência dos epistemólogos naturalistas.

Uma das maneiras de entender o naturalismo epistemológico é por contraste com a epistemologia analítica tradicional. Segundo Rysiew (cf. 2020) existiriam, pelo menos, quatro pressupostos da epistemologia analítica tradicional: (a) a teorização a priori como mais apropriada para investigação de noções epistemológicas; (b) a epistemologia como autônoma em relação às ciências, já que seria anterior à própria ciência; (c) a epistemologia como não só descritiva (e.g. no sentido de dizer que uma crença é justificada), mas também avaliativa (e.g. no sentido de que, do ponto de vista epistêmico, seria bom ter uma crença justificada) ou até mesmo prescritiva (e.g. no sentido de dizer como devemos adquirir conhecimento); e (d) a epistemologia deveria responder de maneira plausível ao ceticismo. Em geral, naturalistas epistemológicos costumam rejeitar alguns desses pressupostos, mas por razões muito diversas.

Não é possível deixar de citar a epistemologia experimental como uma das áreas mais naturalizadas da filosofia, que possui uma ampla discussão sobre o papel evidencial das intuições filosóficas e do método de casos na epistemologia. As filosofias experimentais como as de Machery et al (2009) e Weinberg et al (2010) apresentam cenários para pessoas de diversos lugares para testar os limites dos nossos conceitos filosóficos e da própria metodologia tradicional da filosofia. Os trabalhos em filosofia experimental aumentaram a disputa entre a epistemologia analítica tradicional e a epistemologia naturalista.

Podemos ver um ataque contra a epistemologia naturalista experimental em Valcarenghi (2016). O autor defende que o método soberano da epistemologia analítica tradicional seria o uso de intuições conceituais, consistindo em uma via completamente apriorística – isto é,  que não recorreria de modo algum à percepção. Já o método das epistemologias naturalistas experimentais seria – falando de maneira figurativa – o “conceptômetro”: “um aparelho (…) projetado para emitir um relatório o qual expresse todos os conceitos que são atribuídos automaticamente pelo agente quando ele atribui certo conceito” (2016, p. 84). Isto é, para o autor, o melhor conceptômetro ainda seria inferior à melhor intuição, porque as intuições seriam infalíveis e os conceptômetros seriam falíveis. Embora Valcarenghi (2016, p. 89 ss.) argumente contra a epistemologia naturalista alegando que as intuições são infalíveis, essa é uma posição rejeitada por epistemólogos tradicionais de mais impacto como Bealer (1998) e Sosa (2007, 2008). Desse modo, a disputa metodológica mais central em torno das intuições ocorre levando em conta aspectos muito mais sutis das diferenças entre os dois grupos e do valor epistêmico da investigação filosófica a priori (que independe da percepção).

Nos dias atuais, uma das áreas mais interdisciplinares do naturalismo epistemológico é a epistemologia evolucionista. Segundo Bradie e Harms (2020), a epistemologia evolucionista enfatiza o papel da seleção natural na manutenção e geração dos nossos mecanismos cognitivos, mas também interpreta o processo de desenvolvimento das teorias científicas à luz do conceito de seleção natural. Além disso, de acordo com Rysiew (2020), existem áreas da epistemologia em ascensão nos últimos anos, como a epistemologia social e a epistemologia feminista, em que a abordagem naturalista possui um amplo destaque.

Referências

  • Bealer, George. (1998). Intuition and the Autonomy of Philosophy. In: Michael DePaul & William Ramsey (eds.), Rethinking Intuition: The Psychology of Intuition and Its Role in Philosophical Inquiry. Rowman & Littlefield. pp. 201-240.
  • Bradie, Michael and Harms, William. (2020) “Evolutionary Epistemology”. In: The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: <https://plato.stanford.edu/archives/spr2020/entries/epistemology-evolutionary/>. Acesso em: 11. 04. 2020.
  • Machery et al. (2009). “Linguistic and metalinguistic intuitions in the philosophy of language”. In: Analysis Vol 69, n.º 4. pp. 689–694
  • Papineau, David. (2020) “Naturalism”. In: The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: <https://plato.stanford.edu/archives/sum2020/entries/naturalism/>. Acesso em 11. 04. 2020.
  • Plantinga, Alvin (1993). Warrant and Proper Function. Oxford University Press.
  • Quine, W. V. (1969). “Epistemology Naturalized”. In: Ontological Relativity and Other Essays. New York: Columbia University Press.
  • Rysiew, Patrick. (2020) “Naturalism in Epistemology”. In: The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: <https://plato.stanford.edu/archives/spr2020/entries/epistemology-naturalized/>. Acesso em: 11. 04. 2020.
  • Sosa, E. (2007). Experimental Philosophy and Philosophical Intuition. Philosophical Studies 132 (1):99-107.
  • Sosa, E. (2008). A Defense of the Use of Intuitions in Philosophy. In M. Bishop; D. Murphy (eds) Stich and His Critics. Oxford-New York: Blackwell.
  • Steup, Matthias and Neta, Ram, “Epistemology”. In: The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: <https://plato.stanford.edu/archives/spr2020/entries/epistemology/>. Acesso em: 11. 04. 2020.
  • Valcarengui, E. C, “Filosofia analítica tradicional vs. filosofia naturalista/experimental, intuição conceitual vs. conceptômetro: quem vence a disputa?”. In: Analytica, Rio de Janeiro, vol 20 nº 2, 2016, pp. 81-100.
  • Weinberg, Jonathan M. et. al. (2010). Are Philosophers Expert Intuiters? In: Philosophical Psychology 23 (3):331-355.