O que faz um bom vilão? Pergunte a um filósofo

O Vaticano diz que os novos vilões de Star Wars não estão maus o suficiente. Mas os filósofos têm defendido há muito tempo que o comportamento cruel não é resultado de pura maldade.

4
822
"Anakin Skywalker foi um homem atormentado e desesperado que, incapaz de controlar suas paixões, fez uma má escolha". Fotografia: Allstar

Tradução por Elan Marinho

O presente artigo foi apresentado por Lloyd Strickland no dia 21 de Janeiro de 2016 em The Guardian. Disponível < aqui >. Acesso em 27. Fev. 2018.

O jornal diário do Vaticano, L’Osservatore Romano, tem criticado o novo filme de Star Wars: O Despertar da Força, alegando que seus vilões não estão maus o suficiente.

O crítico desaprova que vilões como Kylo Ren e General Snoke sejam representações menos efetivas da maldade do que seus predecessores nos primeiros filmes de Star Wars – Darth Vader e Imperador Palpatine.

Talvez o crítico tivesse ficado feliz com a nova coleção de histórias curtas de Stephen King, The Bazaar of Bad Dreams e, particularmente, com sua história intitulada Bad Little Kid. A criança nessa história é a personificação do puro mal: quando ela aparece – em geral, do nada – é apenas para a ruína se fazer presente.

King diz que ela é “apenas mau pelo mal, mau até o osso”. Exatamente o tipo de personagem maligno que faltava no novo filme de Star Wars, de acordo com o crítico do Vaticano.

O indivíduo mau que é a pura maldade é um personagem típico dos filmes de Hollywood e  de obras literárias. Um vilão que entretém, mas que não é realista. Por trás desse tipo de vilão, há uma compreensão muito pouco sofisticada do que é o mal, e do porquê das pessoas fazerem coisas terríveis.

Quando se trata de análise de vilões, um recente episódio de Star Wars – o nefasto Episódio III: A Vingança dos Sith – é com certeza o melhor e mais complexo para isso. Nesse episódio, o mocinho Anakin Skywalker é finalmente transformado no vilão Darth Vader.

O gatilho para isso não é o desejo de ser mau, mas o amor pela sua esposa grávida, Padme. Sabendo que ela está prestes a morrer, Anakin une forças com o Lorde Sith, o Imperador Palpatine, que promete salvá-la descobrindo o conhecimento de como ludibriar a morte. Ao fazer isso, Anakin vira as costas aos Jedi, que ignoraram suas desesperadas súplicas por ajuda.

Em uma batalha próxima ao fim do filme, o Jedi Obi-Wan Kenobi diz a Anakin que Palpatine é mau, ao que Anakin responde: “Do ponto de vista dos Jedi! Do meu ponto de vista, os Jedi é que são maus”.

O universo de Star Wars deixa de ser preto no branco: nós enxergamos a desconfortável verdade de que a perspectiva pessoal de um indivíduo determina quem ou o quê se qualifica como bom ou mau.

Além disso, o enredo torna o mal inteiramente compreensível: nós temos aqui um homem atormentado e desesperado que, incapaz de controlar suas paixões, faz uma má escolha pelo que lhe parece o melhor dos motivos. Em outras palavras, Anakin não está pensando claramente.

Os filósofos explicam o mal de maneiras mais diretas. Sócrates afirmou há 2.500 anos atrás que ninguém deliberadamente age de modo imoral. Aquele que comete ações imorais não é mau, diz ele, mas simplesmente não sabe o que é bom ou correto.

De forma semelhante, no século XVIII, Gottfried Leibniz defendeu que as pessoas que fazem coisas más não são verdadeiramente más no sentido de terem uma vontade de fazer o mal, mas que simplesmente são ignorantes quanto ao que é o bem. Ele afirmou que  as pessoas muitas vezes seguem o curso que pensam ser o melhor; mas que, por causa de limitações de conhecimento, elas costumam cometer erros e fazer escolhas ruins pensando que estão fazendo o bem. Já que ações ruins advém da ignorância, a maneira de enfrentá-las, diz ele, é através da educação, iluminando a compreensão das pessoas.

Mais recentemente, a teórica política Hannah Arent ofereceu uma explicação diferente para o mal. Quando cobriu o julgamento do nazista Adolf Eichmann em relação à participação dele na orquestração do Holocausto, Arendt tentou entender o porquê de Eichmann ter se envolvido no genocídio dos judeus.

Embora acreditassem amplamente que Eichmann, como todo nazista, agiu com o malevolente desejo de fazer o mal, Arendt chegou a uma conclusão diferente. Ela descobriu que Eichmann não apresentava muito ódio pelos judeus, que não era nem malévolo e nem sedento por sangue. Sua falha tinha sido não pensar sobre o que ele estava fazendo. Ele não tinha pensado, não no sentido de estar inconsciente, mas no sentido de falhar em refletir sobre as implicações de suas ações.

Arendt descobriu que Eichmann foi um homem que, obedientemente, cumpria ordens sem ponderar sequer por um segundo a respeito dos efeitos que elas teriam sobre os outros seres humanos. Ele tratava a trajetória dos judeus – da deportação aos campos de concentração – como se fosse qualquer outra atividade burocrática.

A natureza mecânica das ações de Eichmann é certamente mais horrível do que os feitos de qualquer vilão de Star Wars, tão somente porque foi exercida sem a malevolência que nós esperamos dos nossos vilões.

O Vaticano pode (compreensivelmente) gostar dos vilões de natureza verdadeiramente diabólica. Mas, na realidade, as pessoas mais más tendem a ser aquelas que não pensam claramente ou que apenas não pensam em tudo.

CONTINUAR LENDO