Os Ensaios Céticos de Bertrand Russell

5
1289

Por Ricardo Silas
Publicado no Bule Voador

A trajetória racionalista de Bertrand Russell é formada, em parte, por uma intransigente defesa do humanismo secular, da ciência e do ceticismo. Conhecê-lo é saber que o alcance de seu trabalho se estenderá por várias gerações. No século XX, ele presenciou as piores crises que a humanidade sofreu na era moderna: contemplou os restos mortais e os escombros das duas Grandes Guerras Mundiais e enfrentou o temperamento obscuro de religiosos e políticos fanáticos. Enquanto as propagandas de governos incentivavam o ufanismo doentio, Russell estava lá para combatê-las, sem nunca deixar de propor soluções racionais para os problemas de sua época. Foram raros os filósofos que desafiaram, com persistência e bravura, os mais violentos impulsos da estupidez humana, tendo que enfrentar prisões, censuras e até mesmo ameaças de morte.

Por volta de 1920, Russell escreveu 17 ensaios filosóficos que serviram de matéria-prima para forjar uma de suas obras mais memoráveis: Ensaios Céticos. O livro reúne pensamentos sobre política, educação, filosofia, religião e ciência, e é possível notar que, graças a esse trabalho, a Filosofia obteve maior credibilidade em várias regiões do Ocidente. Que os líderes das grandes potências mundiais, por várias vezes, já estiveram dispostos esmagar nações inteiras, disso ninguém duvida. Basta recordar o que ocorreu em agosto de 1945, quando as bombas atômicas docilmente apelidadas de “Little Boy” e “Fat man” foram lançadas pelos EUA nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki; ou quando a Crise dos Mísseis em Cuba quase culminou em uma guerra nuclear entre os soviéticos e os norte-americanos. Mas muito antes que a Guerra Fria congelasse os corações humanos, a atitude filosófica advogada por Russell tentava nos conduzir a um desfecho diferente da extinção da nossa infantil espécie. Ao refletir sobre o mundo civilizado, Russell planejava abolir os obstáculos que impediam as pessoas de serem céticas, racionais e, sobretudo, amáveis.

O ceticismo que Russell sugeriu em seu livro é compreendido em três partes inseparáveis: a) “quando os especialistas estão de acordo, a opinião contrária não pode ser tida como certa” (a menos que possua evidências que a suportem); b) “quando não estão de acordo, nenhuma opinião contrária pode ser considerada correta por um não especialista” (Richard Dawkins entendeu esse item quando disse que, caso a Evolução se prove como errada, a refutação terá vindo de um cientista, não de um idiota); c) “quando todos afirmam que não existem bases suficientes para a existência de uma opinião positiva, o homem comum faria melhor se suspendesse seu julgamento”. Porém, “suspender o julgamento” não é igual a “suspender a investigação”, que deve continuar enquanto estivermos vivos.

A humanidade vive um momento no qual os recursos naturais e tecnológicos estão disponíveis para promover o nosso bem-estar. No entanto, faltam-nos os recursos morais que nos tornem capazes de fazer bom uso da natureza e da tecnologia. Uma mente cética está ciente de que o método científico, embora tenha suas imperfeições, é o ponto de partida mais prolífico que existe. É o que nos faz buscar fundamentos racionais para as opiniões que desenvolvemos, não de forma apaixonada, como dizia Russell, mas com lucidez e comprometimento com a verdade. Russell reconhece que, no campo das ideias, “a paixão é a medida da falta de convicção racional de seu defensor”, e percebeu, diante disso, que “opiniões sobre política e religião são quase sempre defendidas de forma apaixonada”. A falácia wishfull thinking pode resumir esse estado emocional no qual o indivíduo acredita no que lhe soa agradável, não no que é verdadeiro. O desejo de acreditar em algo sem evidências simboliza a conspiração de crenças ilusórias contra a racionalidade e seus alicerces. E quanto mais agradável uma crença ou opinião aparenta ser, mais cuidado devemos tomar para não cairmos em superstições ou em ideologias cegas.

Os ensaios deste livro deixam o alerta contra os perigos de uma educação dogmática e patriótica, que envenena a razão e sabota o pensamento crítico. Se as crianças continuarem a ser ensinadas a idolatrar autoridades mundanas ou sobrenaturais, ou a confiar cegamente no propósito que os poderosos lhes impuseram, o nosso futuro será formado por indivíduos sem imaginação, sem conhecimento e, o que é ainda pior, sem amor. Mais do que uma força racionalista e humanista, Russell é uma fonte inesgotável de inteligência para as pessoas que buscam um mundo justo e benevolente. E são essas as mensagens que precisamos levar adiante.

CONTINUAR LENDO

5
Deixe um comentário

avatar
4 Comment threads
1 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
5 Comment authors
Ronaldo BarbozaDaniel de PaulaRicardo SilasMateusLeonel Recent comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

  Subscribe  
newest oldest most voted
Notify of
Ronaldo Barboza
Visitante
Ronaldo Barboza

Parabéns pelo texto Ricardo, gostei muito.

Daniel de Paula
Visitante
Daniel de Paula

Excelente resenha. Dei uma busca pelo livro no site da Amazon, porém descobri que tratava-se do livro que eu já tinha na minha biblioteca hehe. Comprei ele a uns dois anos, porém ainda não li. Estou envergonhado ^^

Mateus
Visitante
Mateus

Apenas uma correção: o correto é Nagasaki.

Leonel
Visitante
Leonel

Tem um livro do Bertrand Russel intitulado “Por que Não Sou Cristão”, recomendo, pode ser achado em sebos.

http://www.estantevirtual.com.br/b/bertrand-russell/por-que-nao-sou-cristao/2002939767