Os primeiros migrantes na América do Sul tinham ascendência australiana e melanésia indígena

0
234
Pesquisadores descobriram a ascendência da Australásia em grupos indígenas que vivem em toda a América do Sul, incluindo aqueles descendentes da civilização Mochica do Peru. Créditos: Luis Rosendo / Heritage Images / Getty Images.

Por Michael Price
Publicado na Science

Em 2015, os cientistas descobriram algo surpreendente: que alguns povos indígenas da Amazônia brasileira eram distantemente – mas distintamente – aparentados com australianos e melanésios nativos. O sinal genético da ancestralidade da Australásia em uma população tão distante fez os pesquisadores quebrarem a cabeça por respostas. Um novo estudo revela que esse sinal genético é mais prevalente em toda a América do Sul do que se pensava e sugere que as primeiras pessoas que levaram esses genes para o Novo Mundo o herdaram de uma população ancestral da Sibéria.

A descoberta também esclarece as rotas de migração dessas pessoas para a América do Sul. “É um trabalho muito bom”, disse Jennifer Raff, uma geneticista antropológica da Universidade de Kansas, Lawrence (EUA), que não estava envolvida no estudo. Mostra que a descoberta de 2015 “não foi apenas um ruído nos dados. É realmente um sinal genético difundido”.

Os antropólogos pensam que bandos de caçadores-coletores deixaram a Sibéria e passaram pela ponte de terra agora submersa da Beríngia, que então conectava a Eurásia e o Alasca, quando o nível do mar estava muito mais baixo do que hoje – talvez cerca de 20.000 anos atrás. Então, cerca de 15.000 anos atrás, alguns partiram da Beríngia e se espalharam pela América do Sul e do Norte. Esses primeiros migrantes percorreram por grandes áreas em pouco tempo: no máximo 14.800 anos atrás, as datações por radiocarbono sugerem que eles estavam montando acampamento em Monte Verde, no sul do Chile.

Os estudos de DNA de 2015 revelaram a ancestralidade da Australásia em dois grupos indígenas da Amazônia, os Caritianas (de Rondônia) e os Suruí (de Rondônia e Mato Grosso), com base no DNA de mais de 200 povos atualmente vivos e ancestrais. Muitos apresentavam um conjunto de mutações genéticas exclusivas, denominado “sinal Y” em homenagem à palavra tupi brasileira para “ancestral”, ypikuéra. Alguns cientistas especularam que o sinal Y já estava presente em alguns dos primeiros migrantes sul-americanos. Outros sugeriram que uma migração posterior de pessoas aparentadas com os australianos atuais poderia ter introduzido o sinal Y em pessoas que já viviam na Amazônia.

O novo estudo, liderado pela geneticista Tábita Hünemeier da Universidade de São Paulo, examinou dados genéticos de 383 pessoas modernas de toda a América do Sul, incluindo dezenas de indivíduos recém-genotipados que vivem na Amazônia brasileira e no planalto central. Os pesquisadores trabalharam em estreita colaboração com os povos indígenas, e Hünemeier disse que eles estão colaborando com historiadores, antropólogos e geneticistas “para garantir que os resultados sejam transferidos da melhor maneira para as comunidades indígenas”.

Pela primeira vez, os cientistas identificaram o sinal Y em grupos que viviam fora da Amazônia – nos Xavantes, que vivem no planalto brasileiro no centro do país, e no povo Chotuna do Peru, que descende da civilização Mochica que ocupou a costa daquele país entre 100 d.C. e 800 d.C.

Em seguida, os pesquisadores usaram um software para testar diferentes cenários que podem ter levado à atual dispersão de DNA. O cenário de melhor ajuste envolve alguns dos primeiros – possivelmente até os primeiros – migrantes sul-americanos carregando o sinal Y com eles, relataram hoje os pesquisadores no Proceedings of the National Academy of Sciences. Esses migrantes provavelmente seguiram uma rota costeira, disse Hünemeier, e se dividiram no planalto central e na Amazônia entre 15.000 e 8.000 anos atrás. “[Os dados] correspondem exatamente ao que você teria previsto se fosse esse o caso”, concorda Raff.

David Meltzer, arqueólogo da Universidade Metodista Meridional (EUA) e coautor do estudo de 2015 que identifica o sinal Y, disse que a explicação faz sentido. Ainda assim, ele acrescenta, encontrar ancestrais da Australásia em antigos vestígios costeiros aumentaria sua confiança nas conclusões dos autores.

Pontus Skoglund, geneticista populacional do Instituto Francis Crick que foi coautor de um dos estudos de 2015 com Hünemeier, disse que está feliz em ver cientistas sul-americanos desenvolvendo o trabalho anterior. “Estou animado que grupos de pesquisa locais no Brasil estejam continuando esses estudos. Eles estão fazendo exatamente o que precisava ser feito”.

Uma pergunta sem resposta é por que o sinal Y não apareceu em nenhum grupo indígena da América do Norte ou Central. Uma possibilidade, sugere Hünemeier, é que os migrantes portadores do sinal Y simplesmente se fixaram na costa e chegaram à América do Sul sem deixar qualquer legado genético no norte. Também é possível que grupos com ascendência Y tenham vivido na América do Norte e Central, mas morreram nas consequências devastadoras da colonização europeia. “O sinal Y é um quebra-cabeça”, disse Meltzer, “mas esta é uma peça interessante para adicionar a ele”.