Os seres humanos são uma fonte maior do que pensava do metano que altera o clima, novos estudos sugerem

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Novas pesquisas sugerem que o metano antigo - como os gases presos em lagos do Alasca - não será a grande ameaça que se pensava para a atmosfera à medida que o clima esquentar nas próximas décadas. Créditos: Mark Thiessen / National Geographic.

Traduzido e adaptado por Julio Batista
Original de Warren Cornwall, na Science

Quando se trata de prever o aquecimento global, o metano é um personagem imprevisível e ameaçador. O gás do efeito estufa é 28 vezes mais poderoso na retenção de calor do que o dióxido de carbono em um período de 100 anos. E, à medida que o planeta esquenta, os cientistas temem que vastas reservas de gás sejam liberadas do permafrost do Ártico e do oceano profundo, aquecendo ainda mais o planeta.

As evidências de dois novos estudos oferecem esperança: primeiro, é improvável uma liberação rápida de grandes quantidades de metano antigo. Segundo, os humanos parecem ser uma fonte maior de emissões modernas de metano do que se pensava anteriormente – o que significa que as pessoas têm mais controle sobre a quantidade que vai parar na atmosfera. “Geralmente são notícias encorajadoras”, diz Michael Dyonisius, geoquímico e estudante de graduação da Universidade de Rochester (EUA) que liderou o estudo do metano antigo.

O metano vem de duas fontes principais: biológica e geológica. O metano biológico pode ser liberado de plantas mortas e por gases emitidos pelo gado, enquanto as fontes geológicas incluem infiltrações naturais de combustíveis fósseis, vazamentos de gás natural e operações de mineração de carvão. As moléculas de metano nas fontes mais antigas de combustíveis fósseis contêm quase nenhum carbono-14, um isótopo radioativo de carbono criado pelo bombardeio de raios cósmicos.

Para descobrir se um aumento no metano antigo poderia ter provocado episódios de aquecimento antigos, os pesquisadores procuraram camadas de gelo na Antártica que prendiam bolhas de ar, incluindo pequenas quantidades de metano, ao longo de dezenas de milhares de anos. A coleta de amostras exigiu muito gelo: Dyonisius e seus colegas perfuraram 11 toneladas da Geleira Taylor da Antártica. Eles derreteram os núcleos de gelo, aspiraram o gás e mediram os níveis de carbono-14 do metano em intervalos entre 15.000 a 8000 anos atrás época em que a Terra mudou da era do gelo para um clima até 0,5° C mais quente do que hoje.

Esse aquecimento não coincidiu com um grande aumento no número de metano pobre em carbono-14, relataram os pesquisadores na Science. Isso sugere que as temperaturas mais quentes não provocaram uma grande liberação de metano do permafrost ou do oceano. “Essa é uma catástrofe climática que podemos evitar”, diz Dyonisius sobre o cenário oceânico.

Em um segundo estudo, a mesma equipe colheu gelo da Groenlândia para estimar quanto do metano atmosférico moderno provém de vazamentos em operações de extração e tubulações, em comparação com as infiltrações geológicas naturais da terra. Como os dois tipos carecem de carbono-14, os cientistas compararam os níveis de metano pobres em carbono-14 da década de 1870 com os níveis de quando a era dos combustíveis fósseis estava em pleno vapor – nas décadas que antecederam a década de 1940. (Anos posteriores foram evitados porque são distorcidos por testes de armas nucleares, o que aumenta os níveis de carbono-14.)

Os dados revelam que os níveis de metano pobres de carbono-14 eram muito mais baixos na década de 1870. Isso significa que as fontes geológicas modernas de metano são muito menores do que as estimadas anteriormente e que o grande aumento da liberação na atmosfera veio dos seres humanos, relataram esta semana na Nature. Eles estimam as emissões geológicas anuais de metano em cerca de 1,6 milhão de toneladas, significativamente mais baixas do que as estimativas recentes que rondavam entre 30 milhões e 60 milhões de toneladas por ano. (O metano liberado de todas as fontes totaliza aproximadamente 570 milhões de toneladas por ano.)

As novas descobertas estão encontrando alguma resistência. Giuseppe Etiope, geoquímico cujos cálculos são desafiados no novo artigo, questiona como as emissões geológicas poderiam ser tão baixas. Um estudo recente, por exemplo, sugere que 3 milhões de toneladas de metano aumentam a cada ano apenas de uma parte do Oceano Ártico. “Este é um enigma científico”, diz Etiope, do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia da Itália. “Se eles estão certos, muitas outras pessoas estão erradas”.

Katey Walter Anthony, ecologista aquática da Universidade do Alasca, em Fairbanks, que estuda metano em lagos criados pelo derretimento do permafrost, tem algumas dúvidas sobre o estudo da Groenlândia, mas também não encontrou falhas no método da equipe da Universidade de Rochester. “O que eu acho que precisamos é reunirmos com franqueza ​​para debater: ‘Onde eu poderia estar errado?'”, diz ela.

O estudo das emissões antigas de metano, por outro lado, é consistente com sua pesquisa, que mostra que os lagos permafrost não liberaram grandes quantidades de metano quando o planeta deixou sua última era glacial. O perigo agora, ela diz, é que as temperaturas até o final deste século possam subir vários graus a mais do que durante o evento de aquecimento anterior. Se isso liberar ainda mais carbono preso no permafrost, parte dele poderá ser convertido em gases de efeito estufa, incluindo dióxido de carbono ou metano. “O carbono tem que ir a algum lugar”, diz ela.

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