Pesquisadores decifram os ingredientes secretos de uma tinta egípcia antiga

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Crédito: Coleção de Papiro de Carlsberg.

Por David Nield
Publicado na ScienceAlert

Uma análise de 12 fragmentos de papiros antigos revelou alguns detalhes surpreendentes sobre como os egípcios misturavam tinta vermelha e preta – descobertas que poderiam ampliar nossa perspectiva de como os primeiros escritores conseguiram colocar suas palavras nas páginas.

Sabemos que os antigos egípcios usavam tintas para escrever pelo menos desde 3.200 a.C. No entanto, as amostras estudadas nesse caso foram datadas de 100-200 d.C. e originalmente coletadas da famosa biblioteca do templo de Tebtunis – a única biblioteca institucional em grande escala desse período que sobreviveu ao tempo.

Usando uma variedade de técnicas de radiação síncrotron, incluindo o uso de raios-X de alta potência para analisar amostras microscópicas, os pesquisadores revelaram a composição elementar, molecular e estrutural das tintas com detalhes sem precedentes.

“Ao aplicar a tecnologia de ponta do século 21 para revelar os segredos ocultos da tecnologia de tinta antiga, estamos contribuindo para desvendar a origem das práticas de escrita”, disse a física Marine Cotte, do European Synchrotron Radiation Facility (ESRF) na França.

As tintas vermelhas, normalmente usadas para destacar cabeçalhos, instruções ou palavras-chave, eram provavelmente coloridas pelo pigmento de ocre natural, dizem os pesquisadores – traços de ferro, alumínio e hematita apontam para esse ser o caso.

Mais intrigante foi a descoberta de compostos à base de chumbo nas tintas preta e vermelha, sem nenhum dos pigmentos à base de chumbo tradicionais usados ​​para colorir. Isso sugere que o chumbo foi adicionado para fins técnicos.

“Os secantes à base de chumbo evitam que o aglutinante se espalhe muito, quando uma tinta é aplicada na superfície do papel ou papiro”, escreve a equipe em seu estudo.

“De fato, no caso estudado, o chumbo forma um halo invisível em torno das partículas de ocre”.

Além de explicar como os antigos egípcios mantinham seus papiros sem manchas, também sugere algumas técnicas de fabricação de tinta bastante especializadas. É provável que os sacerdotes do templo que escreveram usando essa tinta não foram os que originalmente a misturaram.

“O fato do chumbo não ter sido adicionado como pigmento, mas como secador, infere que a tinta tinha uma receita bastante complexa e não poderia ser feita por qualquer um”, diz o egiptólogo Thomas Christiansen, da Universidade de Copenhagen, na Dinamarca. “Nossa hipótese é que existiam oficinas especializadas na preparação de tintas”.

Mapas de fluorescência de raios-X mostrando ferro (vermelho) e chumbo (azul) na tinta vermelha. Créditos: Coleção de Papiro de Carlsberg / ESRF.

Curiosamente, a preparação de tinta vermelha dentro de oficinas também foi mencionada em um documento grego datado do século III d.C., sustentando a ideia da mistura de tinta especializada no Egito e em todo o Mediterrâneo.

Essa técnica de usar chumbo como agente de secagem também foi adotada na Europa do século 15, quando pinturas a óleo começaram a aparecer – mas parece que os antigos egípcios descobriram o truque pelo menos 1.400 anos antes.

Os pesquisadores estão planejando mais testes e diferentes tipos de análise, mas o que eles descobriram até agora já é fascinante – outro exemplo de como os instrumentos científicos modernos podem desvendar ainda mais segredos do passado, até mesmo da tinta colorida.

“As microanálises avançadas baseadas em síncrotron nos forneceram um conhecimento inestimável da preparação e composição de tintas vermelhas e pretas no antigo Egito e na Roma antiga 2.000 anos atrás”, diz Christiansen.

A pesquisa foi publicada na PNAS.