Pesquisadores internacionais confirmam cabeça encolhida de museu como restos humanos reais

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Um tsantsa do Museu de Chatham-Kent (Créditos: Poeta et al., PLoS One, 2022)

Traduzido por Julio Batista
Original de Jeff Renaud para a Universidade do Ontário Ocidental

Pesquisadores da Universidade do Ontário Ocidental verificaram a autenticidade de uma tsantsa (cabeça encolhida) sul-americana como restos humanos, um passo importante no esforço global para a descolonização e preservação e compreensão da história indígena.

As descobertas foram publicadas hoje na importante revista PLOS One.

Usando tomografia computadorizada clínica (TC) e microtomografias de alta resolução, os pesquisadores conseguiram determinar que a tsantsa atualmente mantida na coleção do Museu de Chatham-Kent em Chatham, Ontário, é de fato restos humanos reais e não uma falsificação feita de partes do corpo de animais ou outros meios frequentemente usados em reproduções comerciais.

Este é o passo inicial na determinação da autenticidade dessas cabeças.

A tomografia computadorizada produz imagens bidimensionais de uma “fatia” de um corpo ou parte do corpo, que são então coletadas e colocadas em camadas para construir imagens tridimensionais.

“Esta técnica realmente redefine a arqueologia porque, tradicionalmente, a arqueologia pode ser agressivamente destrutiva”, disse Lauren September Poeta, pesquisadora do povo Anishinaabe e associada do projeto no Departamento de Iniciativas Indígenas da Universidade do Ontário Ocidental. “A arqueologia digital, incluindo a tomografia computadorizada, fornece uma dimensão totalmente nova de autenticidade e é um progresso para o campo, tornando-o muito menos invasivo”.

Varredura de micro-TC da tsantsa. (Créditos: Andrew Nelson)

Essa nova abordagem de digitalização é um primeiro passo significativo na autenticação de tsantsas, à medida que a comunidade global muda sua mentalidade para a repatriação liderada por indígenas de restos humanos, arte e artefatos arqueológicos atualmente mantidos em coleções públicas e privadas em todo o mundo.

A tsantsa examinada para o estudo foi doada ao museu na década de 1940 pela família Sulman, depois de ter sido comprada em um passeio pela bacia amazônica. O registro original lista as tsantsas como provenientes de “índios peruanos” na América do Sul e nada mais, o que não é incomum.

As Tsantsas já foram reconhecidas como uma rica representação de informações sobre história, cultura, rituais e identidade. Agora que esta tsantsa foi verificada, pesquisadores da Universidaded de San Francisco de Quito no Equador (parceiros acadêmicos no estudo) podem trabalhar em conjunto com representantes dos povos Shuar e Achuar do Equador e do norte do Peru para os próximos passos.

“Para este estudo, a autenticação foi realmente o foco. Precisamos entender melhor todo o processo de construção da tsantsa porque as fontes etno-históricas variam bastante”, disse Andrew Nelson, presidente do departamento de antropologia da Universidade do Ontário Ocidental.

Muitas fontes etno-históricas sugerem que as tsantsas foram preparadas para prender a alma dentro dos restos mortais enquanto os olhos e a boca eram costurados. Ao encolher a cabeça de um inimigo derrotava, acreditava-se que o vitorioso aproveitava seu espírito para a servidão e impedia que a alma vingasse a morte do inimigo.

“Tsantsas são uma representação muito boa da história indígena na América do Sul, mas também o legado comercial de cabeças encolhidas destaca as redes coloniais em todo o mundo”, disse Poeta. “Ser capaz de fazer parceria com pesquisadores locais no Equador para este estudo e conectar-se com os povos Shuar e Achuar nos ajuda a trabalhar para a descolonização”.

Embora Poeta, Nelson e seus colaboradores tenham obtido evidências conclusivas de que a tsantsa é restos humanos, eles não conseguiram determinar se o objetivo do encolhimento da cabeça era cerimonial ou comercial.

Poeta observou que a equipe sabia que estava de fato estudando restos humanos ao examinar os olhos e ouvidos usando microtomografias de alta resolução. Para Nelson, o cabelo entregou.

“Você pode ver as camadas individuais da pele na tomografia clínica, mas na microtomografia você pode realmente ver os folículos individuais, e fica muito claro o que está acontecendo”, disse Nelson.

Os pontos usados ​​para fechar as incisões, assim como os olhos e os lábios, também só podem ser examinados criticamente usando uma microtomografia computadorizada.

“Se materiais de videira fossem usados ​​para selar os olhos e os lábios, provavelmente identificaria a tsantsa como cerimonial, mas se um fio mais moderno e mais barato fosse usado, seria mais indicativo de interesses comerciais quando estava sendo feito”, disse Poeta.

Os pesquisadores não saberão com certeza os detalhes e o propósito final da preparação da cabeça encolhida até que mais tsantsas – aquelas que são garantidas como cerimoniais e aquelas tidas como falsas – sejam examinadas.

“Sempre trabalhamos de forma respeitosa e intencional com os sujeitos de nossa pesquisa e esperamos trabalhar com nossos colegas equatorianos, incluindo os Shuar e Achuar, para orientar qualquer trabalho futuro”, disse Poeta.