Por que a inteligência extraterrestre mais provavelmente é artificial ao invés de biológica

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O Allen Telescope Array (ATA) do Instituto SETI procura em nossa galáxia sinais de rádio de vida alienígena inteligente em potencial. Crédito: Instituto SETI.

Por Martin Rees
Publicado no The Conversation

Existe vida inteligente em outras partes do Universo? É uma questão que vem sendo debatida há séculos, se não milênios. Mas só recentemente tivemos uma chance real de descobrir, com iniciativas como o SETI (sigla em inglês para Search for Extraterrestrial Intelligence, que significa Busca por Inteligência Extraterrestre) usando radiotelescópios para tentar captar ativamente mensagens de rádio de civilizações alienígenas.

O que devemos esperar detectar se essas pesquisas forem bem-sucedidas? Minha suspeita é que é muito improvável que sejam homenzinhos verdes – algo que especulei em uma palestra em uma conferência do Breakthrough Listen (um projeto do SETI).

Suponha que existam outros planetas onde a vida começou e que seguiu algo como uma evolução darwiniana (o que não precisa ser o caso). Mesmo assim, é altamente improvável que a progressão da inteligência e da tecnologia aconteça exatamente no mesmo ritmo que na Terra. Se ficasse significativamente para trás, então esse planeta não revelaria claramente nenhuma evidência de vida extraterrestre para nossos radiotelescópios. Mas em torno de uma estrela mais velha que o Sol, a vida poderia ter tido um avanço de um bilhão de anos ou mais.

A civilização tecnológica humana data apenas de milênios (no máximo) – e pode levar apenas mais um ou dois séculos antes que os humanos, compostos de materiais orgânicos como o carbono, sejam ultrapassados ​​ou transcendidos pela inteligência inorgânica, como a IA. O poder de processamento computacional já está aumentando exponencialmente, o que significa que a IA no futuro poderá usar muito mais dados do que hoje. Parece seguir que poderia ficar exponencialmente mais inteligente, superando a inteligência geral humana.

Talvez um ponto de partida seja nos aprimorarmos com modificação genética em combinação com a tecnologia – criando ciborgues com partes parcialmente orgânicas e parcialmente inorgânicas. Esta poderia ser uma transição para a inteligência totalmente artificial.

A IA pode até ser capaz de evoluir, criando versões cada vez melhores de si mesma em uma escala de tempo mais rápida que a evolução darwiniana por bilhões de anos. A inteligência orgânica em nível humano seria apenas um breve interlúdio em nossa “história humana” antes que as máquinas assumissem o controle. Portanto, se a inteligência alienígena tivesse evoluído de forma semelhante, seria muito improvável que a “captássemos” no breve período de tempo em que ela ainda estivesse incorporada na forma biológica. Se detectássemos vida extraterrestre, seria muito mais provável que fosse algo eletrônico do que de carne e osso – e pode nem residir em planetas.

Devemos, portanto, reinterpretar a equação de Drake, que foi estabelecida em 1960 para estimar o número de civilizações na Via Láctea com as quais poderíamos nos comunicar. A equação inclui várias suposições, como quantos planetas existem, mas também quanto tempo uma civilização é capaz de mandar sinais para o espaço, estimado entre 1.000 e 100 milhões de anos.

Mas o tempo de vida de uma civilização orgânica pode ser de milênios no máximo, enquanto sua diáspora eletrônica pode continuar por bilhões de anos. Se incluirmos isso na equação, parece que pode haver mais civilizações por aí do que pensávamos, mas a maioria delas seria artificial.

Podemos até querer repensar o termo “civilizações alienígenas”. Uma “civilização” conota uma sociedade de indivíduos. Em contraste, os extraterrestres podem ser uma única inteligência integrada.

Decodificando mensagens

Se o SETI for bem-sucedido, é improvável que ele registre mensagens decodificáveis. Em vez disso, pode detectar um subproduto (ou mesmo um mau funcionamento) de alguma máquina supercomplexa muito além de nossa compreensão.

O SETI se concentra na parte de rádio do espectro eletromagnético. Mas como não temos ideia do que está por aí, devemos explorar claramente todas as bandas de ondas, incluindo as partes ópticas e de raios-X. Em vez de apenas ouvir a transmissão de rádio, também devemos estar atentos a outras evidências de fenômenos ou atividades não naturais. Isso inclui estruturas artificiais construídas em torno de estrelas para absorver sua energia (esferas de Dyson) ou moléculas criadas artificialmente, como clorofluorcarbonetos – produtos químicos não tóxicos e não inflamáveis ​​contendo carbono, cloro e flúor – nas atmosferas dos planetas. Esses produtos químicos são gases de efeito estufa que não podem ser criados por processos naturais, o que significa que podem ser um sinal de “terraformação” (mudar um planeta para torná-lo mais habitável) ou poluição industrial.

Extraterrestres avançados poderiam construir esferas de Dyson. Créditos: Eduard Muzhevskyi / Shutterstock.

Eu diria que valeria a pena procurar por vestígios de alienígenas em nosso próprio Sistema Solar. Embora provavelmente possamos descartar visitas de espécies semelhantes a humanos, existem outras possibilidades. Uma civilização extraterrestre que dominou a nanotecnologia pode ter transferido sua inteligência para pequenas máquinas, por exemplo. Poderia então invadir outros mundos, ou mesmo cinturões de asteroides, com enxames de sondas microscópicas.

E mesmo que recebêssemos uma mensagem de rádio decodificável, como poderíamos saber qual seria a intenção do remetente superinteligente? Não temos absolutamente nenhuma ideia – pense na variedade de motivos bizarros (ideológicos, financeiros e religiosos) que impulsionaram os empreendimentos humanos no passado. Eles podem ser pacíficos e curiosos. Eles podem menos intrusivos, podendo perceber que é mais fácil viver em baixas temperaturas – ficar longe de qualquer estrela, ou até mesmo hibernar por bilhões de anos até que esteja mais frio. Mas podem ser expansionistas – e essa parece ser a expectativa da maioria dos que já pensaram na trajetória futura das civilizações.

O futuro da inteligência

À medida que o Universo evolui, espécies inteligentes podem ficar cada vez mais insondavelmente inteligentes. Apenas tome como exemplo nosso próprio futuro. Eventualmente, nascimentos e mortes estelares em nossa galáxia prosseguirão gradualmente mais lentamente, até que as coisas virem de cabeça para baixo quando a Via Láctea colidir com a galáxia de Andrômeda em cerca de um bilhão de anos. Os detritos de nossa galáxia, Andrômeda e suas companheiras menores dentro de nosso grupo local de galáxias se agruparão em uma galáxia amorfa, enquanto as distantes se afastarão de nós e eventualmente desaparecerão.

Mas nossa galáxia remanescente continuará por muito mais tempo – tempo suficiente, talvez, para que surja uma civilização que possa estar na posse de enormes quantidades de energia, até mesmo aproveitando toda a massa de uma galáxia.

Isso pode ser o ponto culminante da tendência de longo prazo para os sistemas vivos ganharem complexidade. Nesta fase, todos os átomos que antes estavam nas estrelas e no gás poderiam ser transformados em um organismo gigante de escala galáctica. Alguns autores de ficção científica preveem engenharia em escala estelar para criar buracos negros e buracos de minhoca – pontes conectando diferentes pontos no espaço-tempo, em teoria fornecendo atalhos para viajantes espaciais. Esses conceitos estão muito além de qualquer capacidade tecnológica que possamos imaginar, mas não violam as leis físicas básicas.

Somos artificiais?

As inteligências pós-humanas também podem construir computadores com enorme poder de processamento. Os humanos já são capazes de modelar alguns fenômenos bastante complexos, como o clima. Civilizações mais inteligentes, no entanto, podem ser capazes de simular coisas vivas – com consciências reais – ou mesmo mundos ou universos inteiros.

Somos apenas personagens de um jogo de computador alienígena? Créditos: Mertsaloff / Shutterstock.

Como sabemos que não estamos  vivendo em uma simulação criada por alienígenas tecnologicamente superiores? Talvez não sejamos mais do que um pouco de entretenimento para algum ser supremo que está executando tal modelo? De fato, se a vida está destinada a ser capaz de criar civilizações tecnologicamente avançadas que podem fazer programas de computador, pode haver mais universos simulados do que reais lá fora – tornando concebível que estejamos em um deles.

Essa conjectura pode soar estranha, mas é toda baseada em nossa compreensão atual da física e da cosmologia. Devemos, no entanto, certamente ter a mente aberta sobre a possibilidade de que há muita coisa que não entendemos. Talvez as leis que vemos e as constantes que medimos sejam apenas “locais” e diferem em outras partes do Universo? Isso levaria a ainda mais possibilidades de cair o queixo.

Em última análise, a realidade física pode abranger complexidades que nem nosso intelecto nem nossos sentidos podem compreender. Alguns “cérebros” eletrônicos podem simplesmente ter uma percepção bem diferente da realidade. Nem podemos prever ou entender seus motivos. É por isso que não podemos avaliar se o atual silêncio dos sinais de rádio que o SETI está experimentando significa a ausência de civilizações alienígenas avançadas, ou simplesmente sua preferência.