Por que existe algo ao invés de nada?

Sean Carroll é professor de física na Caltech e um dos maiores cosmólogos da atualidade.

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Sean Carroll. Créditos: Scott Barry Kaufman.

Por Sean Carroll
Publicado no Preposterous Universe

Essa é uma boa pergunta!

Eu já havia falado sobre por que o universo existe (12), mas agora eu tive a oportunidade de fazer um trabalho relativamente cuidadoso sobre isso, cortesia de Eleanor Knox e Alastair Wilson. Eles estão editando um próximo volume, o “Routledge Companion to the Philosophy of Physics”, e pediram-me para contribuir com um capítulo sobre esse tópico. A edição final ainda não está pronta, mas eu decidi colocar o rascunho no ArXiv:

Por que existe algo ao invés de nada?
Sean M. Carroll

Parece muito natural perguntar por que o universo existe. A física moderna sugere que o universo pode existir por si mesmo, como um sistema autônomo, sem qualquer coisa externa para criá-lo ou sustentá-lo. Mas não deve haver uma resposta de por que ele existe. Digo que qualquer tentativa de explicar a existência de algo ao invés de nada deve, em última análise, acabar em um conjunto de fatos brutos; o universo simplesmente é, sem causa ou explicação final.

Como você pode perceber, minha abordagem básica não mudou: esse tipo de pergunta deveria ser o tipo de coisa que não tem uma resposta sensata. No nosso dia-a-dia, faz sentido pergunta “por que” esse ou aquele evento ocorre, mas essas perguntas têm uma única resposta porque elas se encontram em um contexto explicativo bem maior. Em particular, porque o nosso mundo cotidiano é uma aproximação emergente de uma flecha de tempo extremamente forte, de tal modo que podemos associar seguramente “causas” a efeitos subsequentes. O universo, considerado como toda a realidade (ou seja, vamos incluir o multi-verso, caso exista), não é assim. A pergunta certa a ser feita não é “por que isso aconteceu?”, mas “isso poderia ter acontecido de acordo com as leis da física?”. Quanto ao universo e ao nosso conhecimento atual das leis da física, a resposta é um ressonante “sim”. A razão pelo qual o universo existe é uma peça relíquia de bagagem metafísica, que seria melhor descartar.

Essa perspectiva é colocada de dois diferentes lados. Por uma via, nós temos os teístas, que acreditam que podem responder porque o universo existe, e a resposta é Deus. Como sabemos, isso levanta o fato do porque Deus existe; mas “aha!”, dizem os teístas, isso é diferente, porque Deus necessariamente existe, ao contrário do universo que poderia plausivelmente não existir. O problema com isso é que nada existe necessariamente, então,  obviamente a jogada é uma fraude. Eu não tinha muito espaço no artigo para discutir isso em detalhes (afinal das contas, era uma contribuição para um volume sobre a filosofia da física, não sobre a filosofia da religião), mas a ideia básica está lá. Quer você queira ou não invocar Deus, você ficará com certas características da realidade que precisam ser explicadas por “e é assim que é”. (O teísmo poderia oferecer um relato melhor da natureza da realidade do que o naturalismo – essa é uma pergunta diferente – mas não permite que você evite postular alguns fatos brutos sobre o que existe).

No outro lado, estão os cientistas que pensam que a física atual pode explicar por que o universo existe. Isso não procede! Uma suposta resposta – “por que o nada é instável” – nunca deveria explicar por que o universo existe; foi sugerido por Frank Wilczek como uma maneira de explicar por que há mais matéria do que antimatéria. Mas qualquer linha de raciocínio deve começar por pressupor certo conjunto de leis da física, em primeiro lugar. Por que existe mesmo um universo que obedece a essas leis? Isso, eu reafirmo, é uma questão para a qual a ciência jamais fornecerá uma resposta rápida e convincente. A resposta correta é “é assim que as coisas são”. Cabe a nós, como espécie, cultivar a maturidade intelectual e aceitar que algumas perguntas não têm os tipos de respostas concebidas para nos sentirmos satisfeitos.

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