Por que os 30% apoiam o presidente não importa o que ele faça? Um especialista explica

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Crédito: Getty Images.

O artigo abaixo foi escrito em 2018 por Bob Altemeyer, professor de Psicologia da Universidade de Manitoba que estudou a “personalidade autoritária”, ou seja, a tendência de algumas pessoas a seguirem cegamente uma figura política, por mais de 40 anos. Apesar de se referir a Donald Trump e os Estados Unidos, ficará muito claro o enorme paralelo com Jair Bolsonaro e a situação atual do Brasil, de modo que acho justificável o título desta publicação. Perdoem, assim, a pequena “isca de cliques” do título, pois qualquer coincidência é mera semelhança.

Érico Bennemann Carvalho, tradutor do artigo

Muitas pessoas, incluindo eu mesmo, já chamaram Donald Trump de um líder autoritário. Mas elas ficam incrédulas com a lealdade de seus seguidores. As décadas de pesquisa sobre seguidores autoritários fornecem algumas respostas.

Donald Trump recebeu 46,7% dos votos na eleição de 2016. Um agregado de pesquisas de opinião pública, disponível em https://projects.fivethirtyeight.com/trump-approval-ratings/ mostra que ele manteve seu nível de apoio até março de 2017, quando sua falha em revogar a lei Obamacare levou a uma queda para 40%. Dificuldades em cumprir outras promessas de campanha, como construir “o muro” e “trancafiar” Hillary Clinton podem explicar por que sua popularidade baixou para um vale de 36,4% em dezembro de 2017.

Desde então, Trump recuperou cerca de metade do apoio que perdeu. Ele já havia retornado a 40% em fevereiro de 2018 e, desde então, cerca de 41-42% do público tem aprovado seu desempenho. Considerando todas as coisas que ele tem feito nos últimos 6 meses, isto é surpreendente. Mas se analisarmos os resultados das pesquisas nesse período e tentarmos achar algum tipo de reação quando (por exemplo) Trump começou a disparar farpas contra aliados e inimigos indiscriminadamente, ou absolveu Putin em Helsínque de interferir com a eleição de 2016, ou separou crianças de seus pais na fronteira com o México, não acharemos nenhuma! Sua base tem sido muito leal. Duvido que ele perderá mais de 1 ou 2% de seu apoio nacional, e provavelmente nem mesmo isso, como resultado do “Massacre de Terça-feira à Tarde” (do Trump) de 21 de agosto. E o que quer que ele perca, logo recuperará.

De certa forma, isso não deveria surpreender ninguém. Houve algum outro presidente desde Lyndon Johnson que manteve suas promessas de campanha tão energicamente quanto Donald Trump em seus primeiros 18 meses de mandato? Ele arduamente avançou todas as causas de sua base, tanto pelas ordens executivas que assinou quanto suas nomeações à Suprema Corte. E quando falhou em alcançar o que prometeu, ele sempre culpou outros por não apoiá-lo, inclusive os Democratas. (N.T.: Trump é do partido Republicano, que é conservador de direita, enquanto seu rival Democrata é mais liberal. São os únicos dois partidos relevantes nos EUA). Embora os economistas digam que é cedo demais para saber, Trump tem recebido crédito pela economia vibrante.

Em outro sentido, porém, a fidelidade da base de Trump segue sendo impressionante. Ele fez tantos erros não forçados devido a sua falta de entendimento e baixa inteligência de resolução de problemas, sua vasta ignorância, sua enorme, inesgotável desonestidade que parece ser um reflexo tão natural para ele quanto respirar, sua hostilidade explosiva, sua vaidade incontrolável, seu desprezível rebaixamento das mulheres, sua vulgaridade esquálida, a estupidez de seus estereótipos, a nojentice de seu modo de pensar, a bufonaria de seus desfiles, seus ataques às instituições das quais mais precisa para proteger o país, seu julgamento incrivelmente ruim do caráter daqueles que trouxe para sua administração, seu igualmente inacreditável mau julgamento sobre líderes de outros países, amigos ou inimigos, e sua disposição em inflamar as discordâncias dos americanos e transformá-las em conflitos que nos tornam a casa profundamente dividida sobre a qual os Evangelhos e Lincoln nos alertaram—como podem seus apoiadores terem continuado tão fiéis? Era de se esperar que eles tivessem pelo menos um pouco de dúvida.

O principal motivo, digo eu, é que a maioria dos apoiadores de Trump é composta de seguidores autoritários—pessoas que se submetem excessivamente a líderes os quais consideram legítimos, confiam demais neles, e dão liberdade demais para que eles façam o que quiserem. “Pois bem”, você pode dizer. “Mas isso é como dizer que uma maçã é uma maçã porque ela é uma maçã”. E seria um exemplo delicioso de uma tautologia retórica, se não fosse pelo fato dos sociólogos terem uma maneira boa e independente de medir esse tipo de autoritarismo desde os anos 1970. Já estava claro desde os primeiros estudos que os “conservadores” políticos—de eleitores a políticos eleitos—tendiam a ter alta pontuação neste teste de personalidade (Capítulo 6 de meu livro The Authoritarians, disponível gratuitamente para download em formato PDF ou ePub: https://www.theauthoritarians.org/options-for-getting-the-book/). Podemos ganhar considerável entendimento dos apoiadores de Donald Trump a partir de pesquisas sobre o autoritarismo.

Por que seguidores autoritários acreditam no que acreditam

Em comparação à maioria das pessoas, estudos mostram que seguidores autoritários derivam suas crenças e opiniões a partir das autoridades em suas vidas, e muito pouco através de raciocínio próprio. Em vez de pensar, eles costumam memorizar. A religião é um bom exemplo disto: autoritários tendem a crer fortemente na religião com a qual cresceram, como resultado de terem tido a religião fortemente enfatizada a eles enquanto cresciam. Mas em algum ponto de sua juventude—em geral na adolescência—eles tendem a desenvolver dúvidas sobre o que lhes foi ensinado. Quando isso ocorre, eles tipicamente vão até seus pais para orientações, ou a clérigos, ou escrituras, ou amigos que professam uma fé intensa. Eles estão buscando serem reconfortados e, previsivelmente, mantêm suas crenças.

Pessoas que crescem em casas onde a religião não foi tão enfatizada também desenvolvem dúvidas sobre as coisas que lhes foram ensinadas quando atingem a adolescência. Mas elas têm probabilidade muito maior de realizar uma busca mais ampla por respostas, tal como ler o Gênesis e também aprender sobre a teoria da evolução, conversar com crentes bem como não crentes, e assim por diante. Alguns deles mantêm a fé, mas outros tornam-se “crentes fracos” ou mesmo abandonam sua religião.

Por sinal, a falha em realizar uma busca ampla pela veracidade de suas crenças deixa uma cicatriz nas psiques dos seguidores autoritários. Uma “pesquisa muito confidencial” revelou que a maioria dos seguidores em uma grande amostra de estudantes universitários tinha dúvidas sobre suas crenças religiosas, o que você jamais suspeitaria a partir de suas respostas em pesquisas normais. E a maioria dessas pessoas com dúvidas disse que ninguém no mundo sabia que eles as tinham. Elas eram um segredo profundo.2

Validação Consensual e Etnocentrismo

Quando suas crenças são cópias memorizadas das opiniões de outras pessoas, você não sabe realmente por que elas estão certas. Isto significa que você não sabe SE as verdades que você profere são de fato verdades. Então, como você mantém suas crenças caso eventos e descobertas venham a contradizê-las?

Pesquisadores descobriram há décadas que as pessoas, em certo grau, validam suas opiniões socialmente, escolhendo fontes de notícias, amigos, etc. que dirão que eles estão certos. Isto produz uma ilusão de consenso, pelo menos entre as pessoas “corretas”, como elas mesmas. Quase todo mundo faz isso, mas seguidores autoritários o fazem muito mais, pois eles não têm muitas ideias próprias, crenças que eles desenvolveram sozinhos e podem defender. E eles têm probabilidade muito maior de se expor somente a fontes de informação que digam o que eles querem ouvir. Obter somente um lado da história aumenta as chances de que as informações estejam erradas, mas como disse recentemente Ralph Peters, ex-analista militar da Fox News, “Pessoas que assistem à Fox têm uma visão totalmente deturpada da realidade”.

A criação de uma “panelinha” nas vidas dos “pensadores corretos” remete à infância dos seguidores. O exemplo mais antigo do qual a maioria deles consegue se lembrar envolve a religião da família (em vez de, por exemplo, seu gênero, raça ou nacionalidade). Seus pais dividiam o mundo entre pessoas de sua fé, e um grupo de fora que consistia de todas as outras pessoas. Esse etnocentrismo “Nós versus Eles” parece formar o fundamento para muitos preconceitos e xenofobias posteriores.

O etnocentrismo ocorre naturalmente quando nos identificamos com um grupo, mas seguidores autoritários são profundamente etnocêntricos. Enquanto algumas pessoas deliberadamente se expõem a ideias, experiências e culturas diferentes, para evitar viver em uma “bolha”, os seguidores querem de bom grado viver no centro da bolha e contribuir para que ela englobe mais gente. Cercar-se de pessoas que concordam com elas, bater palmas juntos, cantar juntos, torcer juntos e marchar juntos constitui evidência convincente de que suas crenças estão corretas.

Suscetibilidade a Mentirosos

Uma consequência da forte necessidade dos seguidores de validação consensual, mostraram os experimentos, é de que eles acreditarão em alguém que diga coisas em que eles creem, mesmo que haja muitas evidências de que essa pessoa não realmente acredita naquilo que diz. Eles ficam tão felizes em ver suas crenças refletidas de volta a eles, que ignoram razões sólidas que apontam que essa pessoa esteja sendo pouco sincera, ou esteja diretamente mentindo. Pessoas relativamente pouco autoritárias, por outro lado, costumam suspeitar de pessoas que podem ter motivos escusos para reforçar suas crenças.

Sendo assim, é muito mais fácil dar um “golpe” em seguidores autoritários, como muitos pastores de televisão, causadores de polêmicas e políticos demagogos sabem. Não é por acaso que Donald Trump, que tinha crenças políticas pouco organizadas e não especialmente de direita, tornou-se um político Republicano quando decidiu declarar guerra tanto aos Democratas quanto Republicanos. É nesse partido que há a maior concentração de “otários”, as pessoas que sempre dá pra enganar. (É uma história para outra ocasião, mas o partido Republicano colheu as sementes que plantou ao deliberadamente atrair esse tipo de pessoa.)

Há um perigo oculto para os líderes autoritários nisso tudo. Quando eles descobrem que seus seguidores acreditarão em qualquer coisa que eles digam, mesmo coisas que contradigam algo que eles disseram anteriormente, eles ficam desleixados com suas mentiras. Talvez Donald Trump sempre foi descuidado com a verdade. Mas parece que nos últimos dois anos, ele se tornou simplesmente largado. Ele descobriu que sua base engole qualquer coisa, então ele diz a primeira coisa que vem à cabeça.

O problema, para ele e para o futuro de sua presidência, é que a Verdade acontece. Constantemente. As coisas aconteceram da maneira que aconteceram, e não de outra maneira, embora alguns pensem diferente sobre esse assunto. Você só pode ignorar a verdade durante um tempo, e então a realidade inevitavelmente te alcançará. E te destruirá se você andou negando-a sistematicamente.

Dogmatismo

O dogmatismo vem naturalmente para as pessoas que copiaram as crenças de outros em vez de raciocinar as coisas por si mesmas. Quando você não sabe por que suas crenças são verdadeiras, você não consegue defendê-las muito bem quando outras pessoas ou eventos as contradizem. Quando acabarem os contra-argumentos que suas autoridades inculcaram na sua cabeça, você já era. Mas ficar estarrecido não significa que você muda suas crenças. Você pode continuar a acreditar tão fortemente quanto antes, se quiser. Você pode até mesmo dar um tapinha nas próprias costas por continuar a acreditar mesmo quando parece claro que você está errado. Algumas pessoas fazem isso, e você sabe quem as ensinou.

Isso é dogmatismo, e experimentos mostram que seguidores autoritários têm duas ou três vezes a quantidade normal dele, pois acreditam intensamente em muitas coisas, mas não sabem o porquê. Quando as evidências contra suas crenças tornam-se irrefutáveis, eles simplesmente se fecham em si mesmos. Se o patriotismo é o último refúgio do canalha, como disse Samuel Johnson, o dogmatismo é o último recurso de seguidores sobrepujados. Sendo assim, eles concordam com a frase “Não existe nenhum fato ou descoberta que poderia me fazer mudar de ideia sobre as coisas que mais importam na vida”. Isso diz tudo.

O papel do medo

Caso você não tenha notado, seguidores autoritários têm mais medo, em geral, do que a maioria das pessoas. (e pessoas que querem ser ditadoras sabem disso há muito tempo). Pode haver uma base genética para essa dose extra de medo, uma vez que os limiares de respostas emocionais podem ser definidos, em parte, por alguns fragmentos de DNA. Mas sem dúvida existe uma fonte “ambiental” do medo. Os seguidores relatam de que foram ensinados de que o mundo é um lugar perigoso com muito mais afinco do que a maioria das pessoas foram ensinadas—um fato confirmado por seus pais. Parte disso é facilmente previsível, tal como medo de ataques por minorias raciais. Mas seus pais exageraram o medo das crianças serem atingidas por um carro, ou sequestradas também.

De maneira correspondente, Donald Trump tinha boa chance de ganhar o apoio de seguidores autoritários, já que ele era um homem poderoso e destemido. Tudo que ele teve que fazer foi dizer que ele via os perigos que os seguidores sentiam e que lutaria para protegê-los. E foi isso que ele disse. Ele construiria uma muralha de mais de 1500 km para manter fora os estupradores mexicanos. Ele pararia a imigração de certos países para impedir que terroristas entrassem e matassem todo mundo. Ele prometeu proteger as pessoas que tinham medo de que seus empregos seriam transferidos para outros países (os quais estavam roubando os EUA, declarou Trump). “Eu sou sua voz”, ele disse. Ele lutaria por eles com toda a sua grande força. E era justamente isso que as pessoas ameaçadas que se sentiam impotentes queriam.

Donald Trump desenvolveu algumas de suas posições durante a campanha. Ele descobriu que era, uma vez mais, antiaborto, apesar de que tiveram que dizer a ele para que fosse contra punir mulheres que abortaram. Ele assegurou aos Libertários que defenderia a Constituição conforme os Fundadores a escreveram, embora tenha ficado claro que ele não fazia a mínima ideia do que estava escrito nela. Ele fingiu para os conservadores econômicos estar muito preocupado com a dívida nacional, embora tenha aprendido que não pode fazer ela desaparecer declarando os Estados Unidos como falidos. E assim por diante.

Mas a principal conexão entre ele e seus seguidores era um grande medo do futuro. Como disse Ann Coulter, promotora voraz de Trump durante sua campanha e suposta fonte de sua retórica anti-imigratória, “Ele me conquistou quando disse ‘estupradores mexicanos'”. Grandes massas de “americanos esquecidos” se identificaram com o slogan de Trump “Make America Great Again” (torne a América grande de novo), as quais realmente sentiam que a América já não era mais grandiosa. Tudo estava mudando. E os padrões anteriores estavam sendo abandonados.  As coisas que lhes davam certa vantagem na vida, ser brancos e (na maioria) homens, contavam cada vez menos. Em vez disso, os Estados Unidos estavam se enchendo de pessoas más que explodiram suas igrejas, roubariam seus empregos e viciariam seus filhos em drogas.

Os comícios de Trump

Você pode ver todas essas forças se combinando quando o líder autoritário e seus seguidores se juntam em comícios do Trump. Os partidos políticos fazem comícios principalmente para energizar os fiéis, e os apoiadores de Trump deixam os recintos altamente motivados para trabalhar para ele. Mas eles também obtêm algo do evento que os apoiadores de, por exemplo, Hilary Clinton, não necessitam tanto: reafirmação de que suas crenças são válidas. Estar em uma multidão de Crentes Verdadeiros e se descobrir reagindo na mesma maneira que todos os demais ao que quer que aconteça lhes diz individualmente que estão certos. E eles fazem o mesmo para outras pessoas na sala com sua contribuição à bolha.

Dois elos poderosos estão à mostra nos comícios de Trump: os elos dos seguidores com o líder, e os elos dos seguidores uns com os outros. Eles sentem que devem muito a Trump. Ele desistiu de sua vida muito prazerosa e glamurosa para lutar por eles, ou assim eles acreditam. O mínimo que eles podem fazer é sentir gratidão e lealdade suprema à “Voz” deles. Nada mais é do que a deles do trato, e no começo da campanha de 2016, até que comparações desfavoráveis com Hitler e outros ditadores fizeram com que Trump desencorajasse a prática, as multidões insistiam em fazer um juramento de lealdade a ele nos comícios.

O segundo elo, o de uns com os outros, sustenta suas crenças e entusiasmo. Quando eles ouvem notícias ruins sobre Trump, eles contam uns aos outros a explicação que presidente deu, e isso basta. Não importa que ela não faça sentido ou contradiga coisas que ele disse ou prometeu anteriormente. O que importa é que eles estão escutando isso de outro crente, e é o trabalho deles também acreditar e dizer as mesmas coisas. Pesquisas mostram que seguidores autoritários dão valor à coesão do grupo muito mais do que outras pessoas, e condenam fortemente pessoas que param de acreditar no que o grupo acredita.

Ademais desses elos, os seguidores de Trump sentem-se vulneráveis e expostos sozinhos, mas sentem-se seguros, fortes, e mesmo poderosos quando são membros de um movimento grande e determinado. Eles obtêm suas forças da multidão, bem como o próprio Trump também obtém.

E então?

Parece claro que Donald Trump acredita que sua melhor chance de permanecer no poder é manter sua base empolgada. Eles são minoria no país, de 42 a 52%. Mas se eles todos votarem, e uma parte suficiente da maioria não votar, ele vencerá.

Então ele não liga para o que a maioria dos eleitores pensa. Ele não liga que os críticos façam picadinhos de suas posições e declarações. Ele não está falando com eles. Está falando com sua base.

Infelizmente para ele, sua devoção à sua base, bem como algumas escolhas horrendas de conselheiros e sua própria soberba extrema, afastaram muitos americanos. Conforme ele mima as classes que o tornaram grande de novo, ele enfurece um grande grupo de eleitores que, cada vez mais, não o suporta.

O considerável número de seguidores autoritários nos Estados Unidos, em meu ponto de vista, juntou-se três vezes na história recente para ameaçar nossa democracia. Eles apoiaram a Guerra do Vietnã, conforme ela destroçava o país, muito tempo depois dela já estar perdida. Eles apoiaram Richard Nixon até o final de Watergate e além. Eles apoiarão Donald Trump mesmo depois de se tornar inegável de que ele é criminoso e deve ser removido do cargo.

A boa notícia é que a República sobreviveu às crises anteriores, graças em parte ao relato honesto da imprensa que não se deixou intimidar, e a divisão de poderes garantida pela Constituição, especialmente a independência do judiciário, e o bom julgamento da maioria do povo americano. E ela pode sobreviver à ameaça mais recente pelos mesmos motivos. Mas a notícia ruim é que os seguidores autoritários permanecerão, portadores inconscientes de um câncer sobre a nação que o próximo líder autoritário irá despertar e colocar em marcha.

Eu não estou sugerindo que as pessoas devam excluir, de forma alguma, os elementos autoritários da sociedade americana. Com poucas exceções, eles são cidadãos que exercem seus direitos cumprindo a lei, e devem ser respeitados e protegidos. Mas acredito que sua influência precisa ser contida através da superação nas urnas, e Donald Trump está apostando que isso não acontecerá.

As perspectivas de longo prazo são encorajadoras. Trump tem apoio sólido entre várias gerações de americanos, especialmente homens, mas isso não irá durar para sempre. Alguns acreditam que as pessoas tornam-se mais autoritárias conforme envelhecem, de forma que um lote de homens velhos e brancos será substituído por outro. Mas estudos mostram que as opiniões políticas tendem a se definir no início da idade adulta e perduram. A juventude de hoje, com melhor educação e maravilhosamente menos etnocêntrica que seus predecessores, dão bastante esperança para o futuro da democracia americana no longo prazo.

Mas isto é como a mudança climática. Recebemos muitos avisos de que estávamos criando um desastre na única atmosfera que temos, e continuamos fazendo isso. Agora estamos encarando as consequências. Se a democracia americana permanecerá, ou não, pode muito bem depender do que acontecerá nas urnas em 2018 e 2020. Líderes autoritários e seguidores autoritários não têm grande apreço pela liberdade e a igualdade. Aqueles que o tem devem organizar-se e votar, ou farão Donald Trump parecer o supergênio que ele crê ser.

Nota do tradutor: O autor do post acima disponibiliza um livro inteiro sobre o assunto de personalidade autoritária, disponível gratuitamente em inglês para download em seu site: https://www.theauthoritarians.org/options-for-getting-the-book/

Outro artigo que traduzi: O estranho poder do efeito placebo, explicado.

Notas de rodapé

1 Altemeyer, Bob and Bruce E. Hunsberger (1997). Amazing Apostates. Why Some Turn to Faith, and Others Abandon Religion. Amherst, NY: Prometheus Press, pp. 17-20, 32.

Este é um bom lugar para que eu mencione três limitações sobre a pesquisa. Primeiro, os resultados são sempre generalizações, isto é, diferenças gerais entre os grupos. Então, neste estudo, algumas pessoas que tiveram criação religiosa rigorosa realizaram sim uma busca ampla (a maioria não o fez, porém). Segundo, a diferença entre o que eu consideraria seguidores autoritários “intensos” e aqueles que chamaria de autoritários “fracos” é relativa, não absoluta. Os autoritários fracos ainda têm algumas tendências a seguir autoridades, o que pode ser exacerbado por pressões da situação. Mas será uma tendência muito mais fraca que aquela encontrada em pessoas que têm doses extras dessa característica. Por final, este estudo, como a maioria dos outros que citarei, foram realizados no Canadá. Mas o histórico de replicação dos achados sobre pessoas autoritárias no Canadá tem sido muito bom quando repetido nos EUA, e vice-versa.

2 Altemeyer, Bob (1987). Enemies of Freedom. San Francisco, CA: Josey-Bass, pp. 151-154.