O Princípio da Caridade

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Assumindo que seu oponente tem um argumento forte. Interpretando-os como argumentos racionais e competentes.

Como caminho introdutório ao post recomendo a leitura do artigo daqui do Universo Racionalista: O “Método Graham” para bons debates na internet e na vida. Para uma aprendizagem mais completa (extremamente recomendável) sobre argumentação vou indicar o curso gratuito Aprenda a Pensar Melhor do canal do Youtube Alimente o Cérebro. Para aprender mais sobre lógica recomendo O renascimento da lógica; e, para um texto mais voltado para o tópico de falácias, tem também o Lógica e Falácias, ambos daqui do Universo Racionalista.

O Princípio da Caridade é um princípio lógico elaborado em diversas situações, de forma semelhantes por diversos filósofos ao longo do tempo que deve reger todos os debates racionais. Sua formulação mais simples pode ser apresentada como “interprete os outros como gostaria de ser interpretado”. De forma completa é um princípio logico que exige que, diante de uma informação com mais de uma interpretação, devemos escolher a mais benéfica.

Desta forma, quando expostos a um argumento, passamos a assumir que  quaisquer erros que ele venha a conter, seja conceitual ou seja metodológico, ocorreram por um lapso. Assim, quando do momento do contra-argumento, assumimos que a melhor interpretação fosse a desejada primeiramente pelo interlocutor.

Exemplo

Suponha que em um debate sobre o uso de agressão física como forma de punição e ferramenta educacional a contraparte diga:

“Tem que bater mesmo, para a criança sentir na pele como aquilo foi errado”

A melhor interpretação nesse caso é aquela que assume que “bater” significa agressões leves, como tapas e chineladas. A pior seria interpretar que a pessoa é a favor do apedrejamento do filho desobediente.

Uma forma extremamente caridosa de se interpretar essa afirmação seria:

“O uso de punições corporais leves pode ser uma ferramenta educacional, fazendo a criança associar aquela ação com a dor de ser castigado”

A partir dessa melhor interpretação, que não cria um espantalho, é possível continuar uma argumentação saudável.

O uso do princípio da caridade permite que você pare de ficar procurando falácias e se concentre no tópico principal. Apenas apontar as falácias não vai fazer com que você tenha contribuído para o debate. Um argumento pode ser verdadeiro e seu propositor pode ter, de boa fé, chegado à uma conclusão real através de uma falácia não percebida. Assim, o uso do Princípio da Caridade auxilia no aumento da eficácia do debate ao buscar a melhor forma de expressar o que o outro efetivamente queria dizer.

Perceba que se a veracidade do argumento apresentado sobrevive à falácia, ao erro de definição ou à má interpretação, então continuar insistindo em apontar esses pontos também é desviar do tópico principal. Apontar o erro como se tivesse derrubado todo o argumento é apenas uma outra forma de incorrer em uma falácia (A falácia das falácias ou a falácia do espantalho). Para o debate seu texto será tão relevante quanto aquele indivíduo que corrige o português mas não fala nada sobre o argumento.

Outros Princípios Decorrentes e/ou Complementares:

Com base na premissa do Princípio da Caridade podemos extrair dois outros princípios e um adágio (que podem muito bem ser aplicadas em debates e argumentação).

  1. Princípio da Coerência: O que o outro disse é coerente, caso não pareça coerente então devemos procurar a consistência lógica que ele buscava apresentar.
  2. Princípio da Humanidade: É aplicar empatia ao analisar o argumento alheio. Buscar perceber se a relação entre o argumento e a realidade apontada pelo outro também seria crível se você vivesse as mesmas condições que ele vive. Desta forma um argumento matemático independe do interprete, mas um argumento sobre as pessoas e sociedade poderia ser assumido como verdadeiro de acordo com o ponto de vista de cada um.
  3. Navalha de Hanlon: Nunca atribua maldade àquilo que pode ser facilmente explicado pela ignorância. De outra forma, se existem duas explicações plausíveis e equivalentes onde uma acusa um indivíduo de ser mal e a outra acusa o indivíduo de ser burro é mais provável que ele seja apenas burro mesmo (apliquem a caridade aqui). Esse é um adágio, é uma regra com conteúdo sarcástico, mas a incluí aqui porque não deixa de ser verdadeira.

 

Recado Final: Nunca use o Princípio da Caridade nas suas próprias argumentações

Como dito antes o princípio da caridade é uma forma de se criar condições para o desenvolvimento de um debate produtivo.  O seu uso deve ser cauteloso e deve visar apenas o engrandecimento do debate.

Usar, ou exigir o uso, do princípio da caridade em seu próprio argumento (como eu fiz acima) pode te fazer achar que ele está melhor e mais preciso do que realmente está. É importante que não nos permitamos errar e sejamos rigorosos com a nossa maneira de expressar ideias. Caso não seja possível então basta escrever erratas, corrigir em outro comentário, editar o texto e/ou reescrever todo o texto de forma a esclarecer os pontos controversos.

Você aceitar o erro dos outros e utilizar os princípios acima não significa que isso obriga os outros a fazer o mesmo. Então é preferível uma exposição completa e coerente de seu argumento que aguardar a mesma consideração dos outros.

Referências:

The Principle of Charity – Lander University (Estados Unidos)

Rational Reconstruction and the Principle of Charity – California State University, Sacramento

Don’t Apply the Principle of Charity to Yourself – LessWrong

 

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